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contos d´oeste

contos d´oeste

14
Set21

Ligação

contosdoeste

IMG_20210914_155601_898.jpg©cosmosastronomia

 

Sinto que há um fluxo de Energia de que somos feitos unha e carne com a vida. Há magia num olhar primeiro entre bebé e mãe logo após o parto, mas não dá para acreditar nisto ou em qualquer uma outra coisa verdadeira sem ter sido sentido ou vivenciado.

Energia que atravessa o ar da sala por inteiro e faíscas invisíveis que fazem explodir uma esfera de silêncio onde o tempo pára e o chão se abre baixo os nossos pés mostrando o rio da vida a fluir em enxurrada e uma nova compreensão nos arrebata: a vida era isto. Não há música mais elevada do que aquela que acompanha este silêncio, a compreensão dum momento único, o quanto se abre o coração, o peito, a espinha, a sala, o tempo num ribombar ensurdecido que faz estremecer a cada pouco os alicerces dum prédio asséptico em que os bebés são nascidos.

Não dá não, para descrever a descoberta ou o sentido iluminado de ver nascer o amor e uma criança nem com imagens, poemas, palavras belas ou textos escolhidos.

Há magia também, num mamilo, botão em flor, fruto maduro pelo que escoa um rio de vida de luz azul e branca, eletricidade que flui das estrelas até a boca dum novo membro deste clã humano e daí viaja a acalmar o coração e traz o respirar manso duma criança adormecida entre sonhos de algodão, útero, cova, alimento, a salvo, vida protegida.

Há magia, sim, gigante, quando um pai olha em silêncio por minutos eternos, filhotes a dormir, luz ao mínimo a afugentar monstros e sombras de medos... e que logo crescem! in ictu oculi, e a vida avança num piscar de olhos, mas hoje uma abóbada protetora de cristal gigante engole a casa por inteiro e impede a entrada de sons, luzes, tronos ou quaisquer outras presenças milenares contra quem nos mantemos firmes, em vigília, guardiões de paz serena e proteção inabalável armados de ouro e prata e autoridade contra olhos vermelhos e distantes. Presenças ocultas a olhares inocentes que ao nosso mandado obedecem contrariadas e se afastam ainda a rosnar de longe, sim, sempre à espreita, mas não têm outra hipótese senão a aceitação e obediência.

A salvo. Eternamente estão nossas crianças num sono por nós protegido, tal e como continuam a velar por nós almas  que já lá se foram e que nos fazem olhar para as estrelas com sentido novo, pousar as armas e armaduras, e nos entregam um lugar também novo num mundo renascido, pleno e cheio de esperanças.

É através delas também que a vida se renova a cada olhar e nos mostram a nós, simples aprendizes, a ligação à vida verdadeira em correrias e brincadeiras por fora da caverna e risos e genialidades que marcam o caminho certo quando perdemos o rumo com excessos de frio raciocínio, medo do futuro e atenção dispersa.

E você, você sabe tal e como eu disto tudo e mais ainda.

Há magia sim, quando olho também para você em fotos, o meu coração sorri e os meus olhos escintilam.

Você, que me encontrou e acompanhou no meu percurso de pesquisas em roteiros da eterna procura atrás dos sonhos, e me ligou de novo ao estádio primigénio da existência.

O prazer do encontro. Como ninguém inventou ainda nome certo para coisa tão fulcral nas nossas vidas?

A ligação maior. Um misto de pertença e novidades. A vida vista através do prazer primeiro, alegria e sentimento pleno, império dos sentidos em que a verdadeira descoberta se produz. A curiosidade primigénia, o sorriso da entrega, o tempo inexistente que obediente, a nosso comando, pára olhando fascinado para o nosso barco, o mar, a vida de olhos bem abertos, o tempo, sim, que, a contragosto e resmungando, obedece e nos sabe, a partir de agora, segurando o leme, o vento às nossas ordens, e o rumo? Por nós traçado. 

Mamilo, vulva, mão a segurar por trás você, o peito seu que encaixa à perfeição na minha palma, calor, suor, a transpirar... e lábios que sussurram o seu nome hoje feito de curvas sesseantes numa voz de homem, que atravessa a sua mente e brinca, com cerejas feitas brincos que baloiçam ao tentar ser apanhadas com a língua. Brinca, você também comigo deitados ao relento no convés, e retira esguia o seu pescoço ao sentir um calafrio, segura também você parte de mim, entre as suas mãos. Com força e olhos de avelã que escintilam e respondem: toma cuidado ou brinco eu também contigo. E a seguir já narinas se saudam, bochechas são exploradas, nariz em ponta delgada, antes sempre amar livres que viver em paz sozinhos, sorriso já bate com sorriso, enquanto inventamos novo lema para as nossas ilhas açorianas...

É isso que os dois queremos e nossas línguas se saúdam, boca a boca, num sôfrego respirar apertando mãos e nádegas e coxas e tudo o mais....primeiros socorros de salvamento marítimo e reanimação de almas solitárias, finalmente a sós, na intimidade e cara a cara. E a noite faz-se dia uma vez e outra e a sós voltamos uma e outra vez ao tempo demorado em que há um universo inteiro à nossa espera, constelações traçando linhas imaginadas com os dedos de um a outro sinal ou marca como estrela negra em nossas peles. Jogo a descoberto entre a penumbra e o sol a tentar entrar agora em camarote de luxo almofadado e atravessar stores e formas de tratamento e convenções, tu, eu, você, sotor, dono de casa, sra.engenheira, como é que está sr.Dr.?.... e nós feitos de pele só, tu a tu, fardas fora e corpos trajados apenas pelo sol às riscas, de tigresa ou de pirata vagabundo, apenas...

Apenas Carpe Diem, Carpe ad eternum, sem terra à vista, letras a nomear o nosso barco recém pintado, em aguarela, para nós, novinho em folha, de papel, e a cada passo olhando através dos tópicos todos de renascimento num mar em águas calmas, revisitado sim, dum modo inteiramente novo. Em arabescos roubados do barroco a nau avançará por entre um mar de ardora deixando rios de tinta, imagens e espuma branca de tirar o fôlego. Não são unicamente fogos de artifício mas indicações para marinheiros novos ou aprendiz de feiticeiro.

Eu contínuo na viagem, aprendiz de sonhador feito piloto, lembrando como me foi mostrado por um propósito maior o rumo... entrelaçando as mãos com as suas em silêncio e partilhando sonhos com palavras escritas a fogo no meu peito. É assim que vamos hoje flutuando por um lago eterno, enquanto antes caminhávamos em direção incerta e passo leve carregado de prudências, lembra?

Rumo ao mar soprando o vento as nossas velas, para o Oeste, a flutuar no lago eterno, seguindo o pôr-do-sol, o rumo é sempre ao oeste, e foi assim que encontrei de novo o trilho certo, percurso inscrito às noites em mar de ardora azul e a branca paz interior que achava em falta.

Estrelas no mar, no lago e no firmamento, estrelas sim e luz azul e branca que nos atravessa feita apenas de elementos surgidos dos primórdios da existência. Escadas ao céu, cá estão entre nós, agá, agá-e. A dualidade. 

Hélio e hidrogénio a escintilar também em luz azul à noite em águas calmas e o resto de elementos posteriores que criaram a magia de estarmos hoje vivos. Foi há milhões de anos num momento de explosão perpétua que em cada coisa simples, cada unha, pelo, ponta do cabelo ou dos dedos ainda nos acompanha.

Isso tudo há em nós, latim em pó a sair da nossa boca, corpos surgidos de planetas feitos doutras rochas esbatidas, pó de estrelas no brilho dum olhar ou dentro do teu peito a escintilar, platino, ouro, quartzo escaldante... ou um pênis que lateja também carregando em si uma ligação profunda a que se chega no topo da sensualidade, farol e mastro de salvação em meio de tormentas que o reclamam e exigem um mergulho por inteiro. 

Olhos, mãe, mamilo, amamentar, ternura e proteção, viagem, comando e direção eleita, encontro e desejo, tesão e como fio de prata uma palavra simples e ondulante que esguia se nos tem escapado a tantas vezes... Prazer.

E hoje em nome masculino como amantes de  Ain Sakhri se quer presente. Pênis, o ritmo é dele desta vez e sem pressa obedecem águas, coxas e vontades de preencher o espaço por inteiro ficando entregues ao seu comando. Energia em espiral de sexo tântrico e vibração de gongo tibetano, não pode haver entrega e dualidade sem todas as presenças e energias a obedecer ao nosso comando. É a dois que surge a partilha, a união num ritmo novo, consciente e acompassado. Há mais, muito mais do que isso e do que o abraço de depois, e a magia da ternura que nos embala em corpos de veludo, aconchegados em posições inverossímeis e tardes ao relento, cafuné no meu cabelo.

Tanta paz que o prazer também nos traz, tanto que desaprender daquilo que na escola e na família incutiram, escravos da necessidade e da carência a tentar sobreviver num mundo em guerra consigo próprio, cegos à ventura verdadeira que nada tem a ver com jóias, pertenças ou obediência.

Pênis e tesão, pênis e ternura numa mão segurado a latejar pequenino, molhado e ainda quente de ter entrado na cova, refúgio, lar e moradia.

Olhar a vida com olhos de criança é um estado de alma que poderíamos cultivar de coração escancarado em qualquer esfera da vida.

Eu hoje graças a você, sinto, logo existo, e as minhas intuições são o método científico que governa a minha vida.

Qual o nome para a conexão fruto do prazer e das certezas que nos dicta a nossa alma em sonhos e palpites que nos fazem latejar o coração.  Como foi que com o passar do tempo perdemos a necessidade duma tal palavra?

Não há nome para um tal ligação que nos faz andar com passo leve como em nuvens de algodão sob nossos pés enquanto no asfalto caminhamos.

Já ouviu o estralar do tojo a deitar sementes na vaga de calor de agosto? cri, cra, cra, cri ao nosso passo com olhos escancarados para a vida.

Já o barulhinho estaladiço de árvore cortada à espera duma brisa que incline a balança para a queda inevitável ?  cra.. craa....craa.... e um sopro, uma lufada de ar quente e poderoso que fiuuu nos sopra na cara e atira a sua força para a copa da árvore que cai no meio da floresta. E o estrondo alastra, levanta pó e faz sair a correr cães e gatos, tristezas, pássaros e borboletas.

 É nesse olhar enamorado que poderíamos viver a vida inteira se estivéssemos abertos e aos poucos desaprendêssemos tanta coisa.

Por isso com um mapa na mão com percursos, distâncias e proximidades e órbitas de todos os cometas, hoje, eu de pé no lago a flutuar, sob as estrelas, me mostro a você, grato, entregue, seu para o prazer.

Cá estou à sua espera.

05
Set21

Presença

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Acordo flutuando na minha barquinha feita poema e penso em quanta sorte, quanto amor recebo, e que pouco pode significar aquilo que ainda não encontrou o seu lugar para crescer se comparado com o resto que já tenho. Tempo ao tempo e desfrutar a cada passo. Uma Nara leão com voz melodiosa interpreta uma canção conhecida em que a letra aparece toda trocada de propósito para mim, para me agradar, público único e maravilhado duma música que inunda os meus ouvidos e viaja até ao coração como um fluxo de luz azul e branca carregada de eletricidade:

Noite de luz, festa de amor
E o cestinho a deslizar
No laguinho azul rodar
Fim do verão, o amor se fez
Na partilha dum lugar
Que nos ajuda a ficar
Sem intenções, os corações
Vão saindo deste mar....
E o sol
Beija o teu lençol azul....

A noitinha cai carregada duma abóbada limpa e cheia de estrelas e o barquinho, a barquinha, redonda como um cesto, avança gigante e devagar, em círculos, pelo lago seguindo uma órbita preestabelecida, uma corrente invisível que faz com que não fique nunca encalhada ou perto da terra firme.

Na superfície do lago, espelho d'água feito de cristal fluído, estrelas surgem a brilhar intensamente e o nascer duma lua amarela, gigante, marca um caminho de prata que ilumina o meu pequeno cesto se comparado com a imensidão do lago e me liga à terra.

Rãs ensaiam o seu coaxar perto dela num barulho ensurdecedor à procura dos melhores cantores, que serão os eleitos. O resto do universo em sinal de respeito mantém nesta hora o silêncio e eu fico a observar cabeça afora, olhando para baixo, pura ensonhação, as estrelas sobre as que navego. Olho o relógio no pulso e verifico nas horas que marca o símbolo deitado do infinito, em horas, infinito, em minutos, e 41 segundos.

É a hora certa. À minha direita uma imagem começa a ser formada, e eu, que sei exatamente aquilo que vai acontecer, viro o meu corpo devagar, deito-me mãos atrás da nuca e desfruto da sua entrada em cena, lá no alto, no meio das estrelas, cabelo escuro, olhos da cor da avelã, a sorrir meiga.

Vejo apenas a surgir metade da sua cara e sorrio com o como a língua, essa malandra que gosta de fazer cócegas no meu cérebro, brinca sempre connosco e cria novos sentidos plenos de significados.

Sei desde o minuto zero que é você e ao ver escintilar um brilho no seu olhar celeste vejo que já cá está, também comigo, a ver-me a mim, homem-novo a nu, renovado e pronto para receber você como merece depois de me ter banhado em águas tranquilas que você e eu amamos.

Olho ao relógio novamente: œ:œ:41 e sei que estou no comando e viajo numa paisagem onírica que obedece ao meu ditado. Uma coruja branca confirma ao passar por cima do lago, anuindo para mim que o sonho é todo meu e não, não há hoje perigos, medos ou vergonhas à espreita neste cenário.

Quer vir comigo? E uma boca feita de estrelas desenha um sorriso meigo e você anui também e ouço bem adentro na minha mente, num sussurro duma voz cheia de forças  que me abalam e derrete o meu pensamento, como se você estivesse atrás de mim deitada, ou ao meu lado, e pronunciasse com o seu halito fresco, húmido e cálido ao mesmo tempo por trás das minhas duas orelhas, em estéreo:

Quero

e os pelos todos do meu corpo sentem o calor húmido do teu bafo quente e adocicado alastrar pelo meu pescoço e o arrepio do desejo.

Vem, fica hoje, aqui, comigo, está noite, vem, fica aqui ao meu lado, vem sentar comigo, digo, há muito para ver. Sentemo-nos juntos hoje, lado a lado.

E um ser de luz, metade luz, energia azul e branca, metade corpo nu e excitante, onde destaca o seio, um mamilo e um sorriso malandro e confiante que empolga o meu desejo, entra caminhando em cena com nuvens de vapor lambendo os pés descalços e, numa passarela dos sonhos que a lua mantém para nos unir, caminha sobre as águas da terra firme até o meu cestinho. E eu à sua espera dou a mão para a ajudar na sua entrada ao meu navio. Bem-vinda a bordo minha amiga, e ao entrar no barco o seu corpo se materializa por inteiro e lado ao lado a sua mão no meu braço pousada, cabeça no ombro sentamo-nos bem juntos e assistimos ao despertar da magia.

Dois seres pequeninos no meio do cesto que flutua enquanto o lago por inteiro, numa luz branca que nasce do mais escuro e profundo do seu seio, aos poucos cresce em intensidade até brilhar como holofote mergulhado que nos cega por instantes e faz fechar os olhos. Brilha e atravessa as pálpebras, a pele os ossos e pó de estrelas ascende ao céu ao redor nossa por todo o lado num tempo eterno que nunca mais acaba.

E no meio de tanta luz, rodopiando devagar, mantém-se firme e calmo o nosso cestinho e nós com ele, abraçados, agora finalmente acordados no plano da magia e juntos novamente para mais um novo dia de viagem e partilha.

É de manhã, e o sol surpreso por alguém ter chegado ao pé do seu leito saúda, mão no chapéu, ainda sonolento e diz: tomem cuidado, não toquem na água até eu ter ido embora... mmm... vejam lá se não se queimam, diz, numa voz como água em cascata cristalina. E ascendendo aos ceus, a pôr apressado calças e camisola azuis de bombazina,  diz ainda, entre nuvens de vapor que ocultam o lago: até logo, podem ficar até quando quiserem, ehm... estejam descansados.....mmm... Sejam bem-vindos..ehm..por onde começarei hoje...ah sim, por ali, era por ali nesta estação.. nessa montanha...

31
Ago21

Oásis

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A caminho do futuro todos fomos deixando pegada, na floresta, na montanha, ou talvez fomos parando naquilo que deixa pegada em nós, a observar maravilhados libelinhas construindo um coração perfeito azul e verde durante a cópula a céu aberto no bico duma espadana, imagens que só um fotógrafo ou um olhar enamorado daquilo que a vida tem para dar consegue enxergar.

Ou talvez fomos escolhendo o melhor dos percursos em barrancos perigosos sempre à beira do abismo, esfolando pernas e joelhos em cada queda ao encalço dos nossos sonhos inocentes de juventude.

Seja como for, a vida é só para a frente e a cada curva do caminho haverá novos encontros, desafios e situações para as que nunca estamos prontos e elas apanhar-nos-ão por surpresa a cada passo. Nada a fazer além de saber estar em paz consigo próprio, ser gentil e aproveitar o império dos sentidos que se estivermos abertos nos alcança e invade de paz, amor e gratidão até ao âmago que apenas intuímos, ali, bem fundo e bem adentro, onde não há grandes diferenças nem passagem do tempo.

A alma, que não cresce senão ficando apenas renovada e lembrando a cada pouco pedaços de si própria até aos poucos enxergar o quanto somos energia pura, tapada sob diversas fardas, peles, experiências, traumas, cargas e heranças. É assim que as almas brilham, vibram em sintonia, intuem sons inaudíveis na escala humana e ligações que atravessam eras e gerações e se encontram, amam.

Eu sei, que você também terá passado por dificuldades, frustrações, encontros com o absurdo de não existir qualquer percurso lógico para o que a vida, sempre a brincar connosco, traz a cada dia. É bom por isso vierem à tona livremente antes de irem embora como tudo que carregamos às costas sem as vezes darmos por isso.

Eu sei, há dias em que tudo fica difícil, bué difícil, e nada faz sentido dentro de nós apesar das lógicas, das conquistas, das vitórias que ganhamos a nós próprios a custo de saúde e tempo dedicado, e a escrita não alcança a nos dar paz e aí, nesse ponto, até a caneta cai da nossa mão.

Que me acontece? Porque é que me sinto assim se ontem estava correndo para chegar a este novo patamar de paz & amor & segurança? Perguntas que invadem qualquer um, e é bom por isso deixá-las pairar o tempo que elas precisarem antes de atravessar como abutres famintos de esquerda a direita a abóbada celeste do pensamento.

E sim, eu sei, você ou eu poderíamos dizer passado o tempo certo: consegui, mais uma vez, de novo estar em paz e calma, e sabermos que não tem qualquer mérito nem nada de especial, apenas o esforço certo como tantos outros antes do que nós fizeram.

Tantos, tantas, há tantas vidas a lutar sempre para a frente... para a frente a atravessar qualquer espaço pétreo rodeado de desertos eternos sem mais vida do que nós. Nós, em solitário a avançar porque nada fica atrás dos nossos passos, para a frente. Para a frente pelos meus, os meus sonhos ou sobrevivências.

É assim para mim: Eu nada teria conseguido sem os apoios certos na altura em que mais precisava. Não fossem as amizades que nesta nova normalidade dificilmente convivem e à distância nos enviaram forças e energia e onde é que teríamos desistido de avançar? Em qual falésia nos teríamos deixado ficar ofegantes, sob o sol que nos queima através da roupa e desidrata? Daí a gratidão que nos sustenta e faz um muro de gelo e proteção contra qualquer demónio ou terror quando as dúvidas surgem e olhos vermelhos nos querem paralisados em pesadelos que nos encharcam em suor e coração a palpitar de medo.

Há dias assim, ou meses, e às vezes, sim, eu sei (e talvez também você) mais tempo... a caminhar no deserto fruto da necessidade e momentos ou semanas em que o esforço de estarmos isolados cada um no seu casulo finalmente nos atrapa e faz pagar as consequências.

Quando a trovoada finalmente vai embora ou quando o mais duro do deserto começa a ficar atrás e tudo parece calmo por fim o tempo suficiente. Sim, nesse momento, quando senão? Ao descurarmos nos manter alerta e prontos à batalha de sorrir a cada dia chega o desânimo da solidão.

Poderá ter sido "apenas" o confinamento, criarmos um bebé a sós, lutar contra a doença do que for, mantermos o pavilhão bem alto para o barco não perder a origem, razão de ser, rumo, ou identidade, ou aquilo que se espera de nós, ou apenas talvez tentar chegar a mais um novo mês com as continhas certas, tudo pago, ok, em regra, conseguimos mais uma vez com a água ao pescoço viver.

Acredito que só pelo facto de ainda lutar por melhorar o pouco que pudermos já merecemos alguém nos dar os parabéns e apoiar no rumo certo. No mínimo nós próprios bem merecemos um abraço connosco, sincero. É bom fecharmos os olhos e fazê-lo.

Há tanta solidão no dia a dia hoje que PIB, lucro ou qualquer montante  ou percentagem deviam ser deitados fora para todo o sempre e apagados da história humana e em sisudas analíticas dos países fosse ateado um novo ranking que olhasse para aquilo que a todos interessa, um top dez de bairros ou aldeias de todo o globo a categorizar felicidade, tempos livres, horas de sono e balanço interanual de preocupações ou percentagem de coisas públicas, atividades lúdicas, alegrias partilhadas e vida comunitária, sonhos e desejos, número de amantes e montante total de sorrisos meigos.

Quanto tempo livre é que realmente tens para ti? Quanto partilhado com quem você ama? Quantas vezes você se sente acompanhado por semana? Quantas a partilhar um mesmo rumo, jogo, roteiro de novas experiências ou fontes de desejo? Quantas vezes você se tem sentido uma pessoa amada plenamente por inteiro, alguem a segurar você, seu corpo, ao completo, ou acariciar seu pénis ou sua vulva como se fosse a coisa mais sagrada que alguém pode ter entre as suas mãos e pensamentos? Quantas canções você canta acompanhada ao ano em festas e convites? Ou quantas músicas frescas você ouve lá embaixo na rua, janela aberta enquanto fumega cálida a sua chávena, recende e inunda a sala com o seu aroma a café, baunilha, canela ou pimenta e quantas vezes o vapor da sua bebida húmido e quente se aproxima ao seu pescoço para ser ele agora que, ousado, cheire você?

E já que apareceu em cena, muito logo, asinha, malandro como sempre, venha agora afagar o seu cabelo e susurrar no seu ouvido novos sonhos, sonhos que você talvez irá modelar depois em letras e suspiros. 

Quantos abraços recebe no dia a dia? Quantas crianças inundam a sua vida? Já dançou mais do que uma vez neste 2021? Perguntas do inquérito da Junta de freguesia do meu bairro da nossa senhora da estrela sobre as esperanças e a vida comunitária.

Eu sei. E você, se ainda está a ler, se até aqui chegou, talvez também saiba. Sentimentos encontrados e mais uma palavra que paira também hoje no ar o tempo todo.

Solidão. Hoje tocou falar também disto, mas nem por isso perdi o fio da meada nem o novelo de brilhantes cores que comigo carrego, nem quero desatender tudo que me faz sorrir quando estou só, acordado à noite, fora da cama.

Solidão.

Será daí que vêm as saudades, mas, se dermos volta à mesma moeda, também as mais autênticas viagens todas? Em Idades idas doutras eras em que o grupo tinha como mais cruel castigo o degredo longe da tua terra, hoje na velocidade em que vivemos não há mais permanências de gentes, laços familiares, lugares, trabalhos, terras... e a infância é um lugar sagrado a que muitos se ligam com fervor religioso porque a inocência nos fazia acreditar na eterna vivência imutável dum tempo todo nosso. Solidão, que devemos abraçar como um espaço nosso de refúgio e paz ou perderemos a cordura e a grande oportunidade de abrir o coração a meio e sentir a Gratidão sagrada.

Isto foi o que aprendi, como sempre é tudo tão simples que até faz rir: crescer é a a sós e só depois mostrar a nossa graça ao mundo.  É talvez por isso que alguns, ousados caminhantes, sem nada que perder, procuramos entre areias rudes e sóis a pino velhos trilhos escaldantes e marcas secretas deixadas por antigos peregrinos. E fomos lá, vamos lá ainda agora, como podemos, antes, com a nossa pouca habilidade inicial e, felizes, agora criando novos mapas do tesouro, de oásis para oásis e a cada passo crescemos em altura com novas fardas frescas e elegantes a agachar vergonhas e medos, primeiro, que, depois, foram superados e olhados como aquilo que verdadeiramente são, pequenos seres e barreiras colocados por nós próprios sem qualquer importância que olharemos com prudência, surpresos, por lhe termos dado tanto espaço.

Sei, que no caminho algumas amizades ficarão para trás e outras irão já lá na frente, marcando o rumo e deixando marcas do melhor percurso para quem vamos ao seu encalço. Outras, se houver sorte, partilharão o nosso ritmo ao andar e gosto pelas coisas simples como o desejo palpitante que surge durante as noites ao montarmos uma só tenda para dois baixo palmeiras cheias de tâmaras doces. O seu cheiro adocicado e quente, se houver sorte e água bastante, fará com que a nossa viagem demore estações e decénios entre risos e suspiros, leito humilde de areia e noites de paixão eternas até esgotar energias, cálices e fantasias antes de continuar caminho de mãos dadas, talvez até ajudando no percurso outros peregrinos novos que, como antes nos fizemos, se tenham lançado por vez primeira à viagem.

Viageiras, todas as almas que se lançam com palavras de ordem renovadas que areias do deserto atiradas contra os olhos por rudes ventos do leste não conseguem apagar e apenas indicam que vamos no caminho certo com slogans verdadeiros: Gratidão, o coração aberto em flor, Esperança no futuro e confiança em nossa paz que a custo conseguimos.  Para Norte. Gratidão e caminhada.

Para Norte, eis o caminho que leva ao Mare nostrum onde todos querem ir à espera de paz, comida e segurança. E você e eu, juntando novas amizades, talvez fujamos aos enganos do deserto e às suas miragens com pequenas palavrinhas humildes, só nossas, que sementem esperanças e novos vegetais à nossa volta: apoio mútuo, beleza, compreensão, magia, ouvir o outro, acompanhamento, sexo é saúde e mimo e desejo satisfeito e ser parte dalguma coisa maior do que nós próprios ao se dar ao outro e ficar maravilhados lendo a alma e as letras de quem nos faz suspirar vibrando em sintonia.

E no meio disso tudo, a escrita que nos liga e tece uma rede de vontade e conexões que nos fazem rir e nos sentir amados, novos elos que aparecem por magia à frente dos meus olhos enquanto escrevo: o sabor das tuas palavras, sílabas soletradas que arrebatam os sentidos e nos fazem sonhar. Gratidão. Por tudo e todos que comigo caminham e me envolvem em emoções de pertença que eu devolvo confiante e onde te reconheço, você a destacar entre palmeiras no meio do deserto de Atacama.

Reconhecimento dum olhar comum à beleza das coisas simples que tanto custa alcançar desprendendo-se de fardas e roupagens velhas.

Sim, reconheço-te.

Reconheço-te, sim, numa ligação profunda que me permite escrever em enxurrada sem saber parar tal e como outros comerão cereijas roubando um ao outro o doce fruto à sombra duma árvore centenária. Conhecemo-nos algures, você e eu, e sentimos qualquer coisa como o som duma tigela tibetana distante a chamar por nós quando por primeira vez qualquer coisa vibrou escrita num poema qualquer, numa partilha verdadeira, como pedra atirada no meio do lago que criou as ondas primeiras. 

O lago. Foi você que me trouxe de novo recordações doutras vidas e da sua existência. O lago que eu mostro aos poucos com todo o seu poder para você onde talvez o abraço fundo como o dos amantes nos fará desaparecer numa consciência onde o eu e o tu tirem as roupas e unidos em comunhão desapareçam alcançando a roçar com a ponta dos dedos a singularidade por segundos de clímax transformados em eternidade celebrando, la petit mort, a grande Vida.

Em silêncio, ao pé do lago, numa noite sem lua carregada de estrelas, talvez hoje partilhemos o chapinhar de mais uma pedra. Abriremos os olhos, sorriremos acordados para a noite que nos chama e o lago que nos diz para entrar na água de mãos dadas.

Uma nova palavra invadirá a nossa mente e nascerá para nos ligar enquanto os nossos pés descalços avançarão sentindo cócegas entre as águas. Antes da água nos envolver com o seu manto negro e cálido ainda ouviremos uma voz, um susurro a abanar as espadanas onde pousam descansadas as libélulas e o seu sopro nos fará cócegas na orelha e arrepios na nuca com uma só palavra milenar carregada de todos os significados primigénios.

Oásis.

26
Ago21

Acordar

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O verão, que não quis vir quando era a sua hora, chegou agora carregado de calores querendo devolver às pressas tudo que não trouxe no seu momento. Sei que mais um dia quente virá acompanhado de tarefas sempre adiadas e que agora já é preciso realizar. Mas neste amanhecer calmo e fresco, onde o orvalho ainda molha os meus pés descalços, eu passeio pela relva e por um novo solo firme que me sustenta e refresca.

Hoje pequenas margaridas minúsculas e humildes flores de trevo branco fazem-me cócegas e saem entre os dedos dos meus pés que, sem querer, arrancam algumas ficando assim enfeitados de branco e amarelo. Um abelhão solitário de cauda também branca e amarela, inicia o seu voo de reconhecimento com os primeiros raios de sol. O cão no seu cantinho escuro abana o rabo que bate contra o chão de madeira num som conhecido, calmo, repetido, de bem-vinda, ao cheirar o dono que se aproxima. E como todas as manhãs apenas sai de meio corpo para pedir uns mimos e voltar para o calor aconchegante da casota.

Penso em você, e em todo o que nos trouxe até aqui num caminho de rosas bem cheias de espinhos. Mas o quê seria da luz sem as sombras?

Há pessoas que nos fazem bem e nos iluminam com a sua luz dourada que sái bem do centro do peito. Há risos, sorrisos, cumplicidades, palavras meigas de orelha a orelha que nos fazem arrancar para o trabalho contentes por tanta partilha, tanto crescimento, tanto respeito, tanta vida. E há ainda os sonhos comuns, aquilo que nos faz vibrar na mesma sintonia e, entre planos da existência ocultos aos mortais por um veu que não nos é permitido destapar, nos liga. A vida é feita também de grandes momentos gigantes, encontros ao acaso, conexões desconhecidas, intuições, ligações entre diferentes eras e vidas...

Um sentimento, que nada entende de sofrer ou de lamentos, paira no ar entre brumas de algodão.

Gratidão, por este sol manso que aos poucos se eleva saudando de bons modos às montanhas, ao pinhal, às estradas sempre cheias de curvas que levam a dunas de areia fina. A manhã está fresca e em t-shirt, sem camisola, os meus braços, estimulados pelo frio e por um sentimento de pertença, arrepiam.

Gatos esticam-se e bocejam e andam logo à minha procura, mianhando, também mimosos a pedir carícias e enroscarem-se nas minhas pernas. Creio que em verdade acham que sou eu que lhes pertenço dum modo contrário a como o cão se sente bem tendo um dono. É mágico perceber como essas diferenças criam uma ligação maior entre nós todos. Inútil querer lutar contra a verdadeira natureza de cada um, até o cão sabe disso e por isso aceita os novos gatos da casa, quere-os, e, só quando eles se deixarem, irá deitar-se ao seu lado, brincará com eles, e quando ganharem confiança passados muitos meses como já fez com os anteriores lambê-los-á com mimo entre as suas patas. Talvez não sejamos nós os proprietários de terra, leira, casa, lugar sagrado, emoção ou quinta alguma. Talvez somos nós que a ela pertencemos.

Corvos sempre à procura de alimento levantam voo ao sentir a minha presença. Os poucos carros que nesta hora vão trabalhar passam com os seus feixes de luz a iluminar as últimas sombras do pinhal próximo e os seus olhos vermelhos faiscam quando param antes de acederem à estrada principal. Há tanto silêncio que cada elemento entra e sái da cena isoladamente, com espaço próprio tal e como a bruma que começa a elevar-se com a saída do sol e adquire vida, marca presença, respira-se fria num momento atemporal que nos liga ao princípio dos tempos e aos sentimentos mais fundos que connosco caminham. 

Saindo das cavernas ou de abrigos feitos de madeira ou peles, ou com as primeiras casas circulares, a mesma bruma, o mesmo lento acompassar dos acontecimentos terá sido repetido uma e outra vez por milhares de anos enquanto homens e mulheres acordavam para não deixar morrer o lume no lar primigénio e sem pressa preparar o pequeno-almoço. Em qualquer das épocas, bebés mamariam ainda em sonhos em leitos de peles e calor materno sem acordarem e cães saudariam o despertar da sua matilha de humanos em que confiam. E ali, como em todas as idades, cada amizade, cada pessoa importante marcaria também um antes e um depois no caminho dos sonhos e da utopia.

Num tempo antes do tempo, grupos de humanos isolados, conetados com a vida e com outros grupos amigos, não teriam conhecido ainda grandes guerras nem trabalho escravo e veriam o passar da vida contando luas e estações, o nascimento de novas crias, a morte de pessoas queridas. E a cada dúvida, dificuldade em conseguir o alimento, conflitos entre jovens e velhos, ou esperanças numa nova vida, o sol indicar-lhes-ia o caminho de novos sonhos e novos desafios. 

Às portas das cavernas, no melhor dos miradouros, na praça comum com os melhores lugares e vistas, nos postos de vigia... por milhares de anos milhares de almas teriam estado sempre orientadas ao lugar certo para em silêncio despedir o sol do verão e olhar em verdadeira paz a sua partida. Para o Oeste.

Não, não é por acaso que as nossas igrejas olham sempre para o pôr-do-sol e deixam que o amanhecer lhes aqueça as costas e os ossos húmidos onde guardam os seus mais profundos segredos enquanto o adro sagrado esperará pacientemente pelo seu momento ao fim do dia. Para o Oeste, antes de o equinócio marcar o abalar da magia. Para o Oeste a cada dúvida no caminho, a cada paragem da tribo esfomeada ou com sede, a cada barragem intransponível que faça desviar o nosso rumo.

Para o Oeste. Ali dirige o seu olhar o farol milenar da cidade aonde em breve me dirigirei, cabeça, guarda, chave e antemural, como num conto de fadas, cabeça principal ainda hoje dum antigo reino de todos escondido.

Hoje é de manhã e de olhos fechados e de costas ao sol que amanhece, também eu recebo o seu calor com um gatinho ao colo, olhos postos em direção aonde sei que fica o mar e milhares de sonhos ocultos baixo as pálpebras.

No maior dos silêncios, o canto do galo vem para quebrar o feitiço.

Sim, é muito hora.

Hora de ir trabalhar e por isso o galo canta uma, duas, três, cinco vezes, sem pausa, exigente.

Toca obedecer ao seu reclamo, abrir a portinhola às galinhas e deixar nascer o dia.

 

19
Ago21

Poesia

contosdoeste

 

Imagem: web Aldeias de Gralhas

 

Nem sempre de dores,

incertezas, sofrimento,

é feita a tua ementa,

poesia.

Eu fui convidado,

comes e bebes, à festa

de sonhos e esperanças,

antes adormecidas.

Alegria festejada,

desejos e vontades,

de partilha.

 

Petiscos a puxar do apetite,

curiosidade, gula,

pecados inocentes.

Como roubar batatas fritas

do prato ao meu lado

 e oferecer depois para as ver quebrar

fascinado pelo aroma e o sorriso,

hot & spicy, crocantes,

vontades carregadas de prazeres,

entre os teus dentes.

 

Estaladiças, de sabor apimentado,

puxarão da bebida a nos acompanhar,

celebrando um brinde em copos plenos,

que transbordam

de

sen-

         sual-

                    idade

enquanto fios de cor gritante, aguda

num ritmo demorado, estonteante,

pelo gargalo descerão,

jovens e ousados, como num escorrega.

 

Vermelha a língua,

sem pudor, vergonha ou medo cénico,

alçarão os braços o cálice de tinta cheio:

ao sol, à lua, à noite e às estrelas!

Proclamas feitas contra o céu azul,

ao pé dum mar de águas cristalinas 

enquanto lá do alto,

o sol, que tudo invadirá, de mãos abertas,

irá afagar as mesas num leve roçagar,

contente e anuindo,

a apreciar o branco linho.

E roxo de desejo, ali estará o Alentejo,

Douro o teu cabelo,

Ribeiro fresco de letras que já farão soltar a língua,

tagarelas, Tinta fêmea,

um Porto adocicado,

ou apenas uma humilde água das Pedras

que oculte o mar

entre as tuas sílabas.

 

Salgadas,

as minhas palavras tentarão te alcançar, poesia,

fazer sorrir e escintilar nas tuas meninas,

trazer talvez certezas atiradas ao vento

que nas pálpebras soprará, para ti,

borboletas,

se fecharmos os olhos,

em silêncio.

Gotas com sabor a mar, amadas,

que o ar te atirará contra os cabelos,

és tu a dona dos meus passos,

dos tempos nossos,

das notas musicais, e dos silêncios.

 

Pode ser numa ilha, numa praia ao pé do mar, 

num barco a vela, a navegar

ou num pequeno jardim privado

com mil rosáceas, orquídeas, alfazema,

ou se quiseres, alecrim,

cheiros a baunilha,

flores de jasmim.

 

Eu já nada sei,

de grafítis pintados em paredes,

de vidas anteriores a esta paz,

que consegui, partilho e quero.

 

Mais nada do que caminhar sorridente,

fé nas letras, no sol amigo e no presente

e naquilo que,

graças a ti,

partilho,

Poesia

 

15
Ago21

Ternuras

contosdoeste

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Um poema a celebrar,

Tantas ternuras.

A palma, 

duma mão amiga no meio do meu peito,

Ali, onde bate um coração tranquilo e uma respiração como um baloiço calmo nos embala.

A cabeça,

de alguém que amo em mim pousada,

Ali,

onde ombros e pescoço constroem uma cova mágica,

Um espaço a salvo onde conservar as peles, crias e alimentos, fazermos lume e deixar atrás tormentas e depredadores.

Um refúgio,

onde o cansaço do dia se retira

E o corpo adormece, entregue,

à proteção dum braço amigo.

Um abraço,

de amor e de carinho, que beija o teu cabelo e constrói um círculo macio.

Aqui, onde a noite chama pelo sono

Em círculos perfeitos nascidos do cair duma pedra no centro do lago do destino.

E aqui,

onde os meus mais íntimos sonhos vêm à tona e acordam, com ousadia,

Surge,

um boa noite acompanhado dum beijo carinhoso que Sabe,

a paz, a calma, entrega,

à sonolência,

a noite bocejante que já lá vem subindo a escadaria à nossa procura

a estender um manto negro sobre os nossos olhos 

e conversas.

Um cheiro,

a casa, a pele conhecida, a mar e praia;

a homem nu, a aprendiz de poeta e homem da montanha.

Uma só palavra mais,

eu prometo,

que o sono já lá vem ao uníssono bater à nossa porta.

Obrigado.

Um obrigado tão bonito que faz sorrir os olhos, de quem lê e de quem escreve mais um novo capítulo, por tão belas partilhas e tão bom descanso.

Um obrigado simples de férias em família e de crianças,

uma palavra só

que hoje enche de calor aconchegante o nosso coração

a cada encher do peito 

que no limiar de sono e realidade

por fim respira calmo .

Então é só isso, é tudo afinal tão simples como descritivo:

Um texto a celebrar

Tão simples,

Tão simples como descrever em seis palavras aquilo que está noite a cara me ilumina.

Um boa noite simples.

Um boa noite a celebrar a vida simples.

Um boa noite de doçura, dum homem doce para uma mulher de sal e valentia.

Um boa noite à moda antiga como um romântico desses que saem nos livros

antigos de aventuras

Um 

boa noite amigo

carregado de ternuras

 

13
Ago21

Infinitas praias

contosdoeste

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Não há lugar no mundo como este. Ao pé do lago duas almas irrequietas acordam para o sonho e com a ponta dos dedos tocam na superfície do lago escuro, que, com tão íntimo contacto, se ilumina.  Observam com curiosidade o que o lago tem para contar, ondas que se agitam e revelam mais um novo lugar, outras vivências, olhares inocentes onde o tempo não avança.

Paz atemporal dos areais nas rias galegas. Não há água mais fria no mundo do que a nossa, queixam-se os poucos turistas estrangeiros, nem mulheres mais valentes, sabem orgulhosos, de parceiras decididas, os homens desta terra deitada ao pé do mar enamorada.

Na enseada, um barco a vela demora-se por dias nesta vaga de calor e paz, abeirado à terra num ancorar tranquilo e calmo.

São praias familiares cheias de crianças e adultos com toda a paciência dumas boas férias, leituras, dunas, banhos, sardinhas e salada mista à sua espera.

As crianças recuperam a cor moura da pele que nos diz quem realmente somos, um mesmo povo marinheiro que viajou unido em paz e harmonia nem que fosse há milhões de anos pelas sete partidas do mundo.... E se mais verão houvera mais brincaram, sem distinção de cores, línguas ou economias. Apenas miúdos com raquetes, crianças, pás e bolas, flutuadores, castelos de areia com todos os detalhes, conchinhas, algas por guirnaldas, ponte levadiça, torre de homenagem, pátio e palco de almas inocentes fora da linha do tempo e das guerras dos adultos. E no alto da torre por bandeira uma pena de gaivota a desafiar as ondas.

"Sandes, jogo e tempo!" palavras de ordem escritas a vermelho à moda antiga em faixas de algodão e de protesto penduradas nas entradas e descidas ao areal, aqui, onde o estacionamento chega para todos e um sol pacato e adormecido nos diz para ir logo ao pé do mar sem mais delongas e ver o mundo com olhos de criança.

O fosso do castelo que a maré a subir enche conforme esperado e a murada que precisa de reparação agora à toda hora. Hostes de engenheiros diminutos que gritam aqui! aqui! ajuda! E a maré  que sem pressa encontra sempre os erros das beiras da amurada. Sem intenção de acabar ainda com tudo, veio apenas brincar com as crianças. Não vem o mar com ideia de esgotar os seus sonhos ou deitar abaixo as suas muralhas.

Ao lado uma menina aprende a mergulhar por vez primeira e orgulhosa chama pelo pai maravilhada numa cena que se repete cinco, dez, quarenta vezes

Neste lugar há também sempre quem passeia o areal de ponta a ponta, pés na água e conversas demoradas, há espaço para tudo e todos, passeios de mãos dadas, jovens com a música num canto e entre as rochas namoros juvenis, beijos e segredos sussurados.

Mulheres libertadas de antigas proibições tomam o sol ou vão a banhos com peitos morenos bem à vista para os que já ninguém olha de tão habituados. Enquanto isso crianças que já medraram e se sentem grandes, tapam-se com muita vergonha, a colocar o fato, ou pedem à mãe para ajudar com a toalha. Aqui não há bolas de Berlim nem nada à venda, mas nem por isso quer dizer que não sintamos que é tudo nosso, pertencemos todos a esta terra e um mesmo sentimento nos envolve a olhar para o atlântico.

Por todo o lado surgem: Cadeira de praia, chapéu de sol, choro de criança esgotada que se resolve com uma peça de fruta e uma sandes e acabada a merenda ainda volta a correr com energia renovada para a água. Cá não há maiores dramas ou preocupações, neste país de mil rias e infinitas praias.

De volta ao nosso jardim, num outro plano da consciência onde persiste o nosso fascinante lago, um olhar cúmplice após tanta partilha nos leva, impossível não desejar tal comunhão, a um lindo beijo demorado. Um beijo íntimo, privado, agachado do olhar de quaisquer espectadores que, como num filme antigo em que homem e mulher se beijam num abraço, se dá a segurar numa mão um cúmplice chapéu de palha.

Não era isto afinal de que andávamos à procura?

Duas almas livres vendo tais imagens de paz e harmonia, despem-se em silêncio de antigas roupas, e nus entram no lago, pés descalços a pisar em areia virgem de mãos dadas. E a água morna do lago recebe-os no seu seio a gorgulhar com uma miríade de bolhinhas de oxigénio de bem-vinda, que, com tais promessas, os abraçam.

 

 

13
Ago21

Devagar

contosdoeste

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Quero

A viagem continua e entramos pela porta grande numa outra esfera onde um mar guloso engole agora tudo ao nosso passo.

Náufragos num mar em calda, aportamos a terra sortudos sem nos ter separado e chegamos os dois ao mesmo patamar duma beleza estonteante. Eu dou uma mão a você para subir o último degrau e você beija agora os meus dedos como nunca.

Cá estamos nós a salvo a ouvir como as águas lá embaixo nos reclamam e nós, olhos nos olhos, os dois de joelhos no alto da meseta, ficamos em silêncio a ver como ela cresce sobre as águas, cresce a 6.700 metros no Himalaia, ou talvez em Casaio, no Pia páxaro, no monte da Picota ou na Torre da Serra da Estrela. Sabemos que é para ficarmos, aqui, neste lugar elevado em que qualquer sopro de ar nos arrepia e o frio no rosto e um vento maroto e ávido de novas cenas nos tira a pouca vergonha, prudência ou roupa que pôde ter ficado, e que parte agora longe a esvoaçar. Sabemos sim que é para ficar aqui sem avançarmos mais, o tempo que quisermos.

É tão belo o estranho tango, de mãos dadas e que contra o vento, devagar mas confiantes, começamos à luz da Lua primigénia no topo deste monte e no meio desta noite de verão de céu cristalino. Dança de corpos apertados e pernas que se reconhecem colocadas no lugar certo a andar de trás para a frente em círculos prefeitos. Não há sapatos de salto nem roupas de cetim, é antes um tango vadio a dançar nus e descalços

Quem disse pressa?

Às vezes o baile trocar-se-á numa dança sorridente, mais inocente e viva, a rodopiar, alegre, outras voltará ao tango, e logo à valsa ou à balada tranquila onde só as gemas dos dedos ficarão no comando sob o nosso olhar cúmplice, húmido e meigo.

O tempo é já uma palavra que desapareceu junto com todas as outras do nosso conhecimento e apenas uma consciência molhada por inteiro no desejo nos acompanha.

Rosáceas noturnas em flor desabrocham uma e outra vez no paraíso corporal em que habitamos e no meio de duas rosas plenas que emergem entre calafrios surgem dois botões vermelhos que cheiro, empurro e beijo uma e outra vez embriagado com o seu aroma.

Quem disse pressa? Deitados na relva primigénia sussurro-te isso agora no ouvido, emerge um arrepio, e recebo em resposta uma risada e um bom belisco.

Uma mão marota me diz batendo a tecla certa em círculos concêntricos que devo pesquisar com um pouco mais de urgência novos trilhos e desbravar roteiros ainda por nós inexplorados neste nosso paraíso, e já a palma da minha mão viaja a roçagar colinas, montes, vales, frinchas, nádegas perfeitas e covinhas.

Eternos aprendizes, hoje é a minha vez de ser eu aventureiro a ir à frente na caminhada, à procura de abrir as sete portas do prazer atravessando o teu corpo por inteiro.

Outro dia, quem sabe? Talvez sejá você quem investigue os desejos mais ocultos que o meu corpo em sonhos lhe provoca...Hoje não, hoje sou eu, no comando, eu, que quero mandar obedecendo, enquanto lento como um caracol avanço no bê-a-bá-ezln, as letras todas ao completo daquilo que a sua alma insurgente e livre, poderosa e prenhe de soberania e vontade de prazer proclama ao mundo inteiro: Ama-me, agora, tal e como eu sou

É tudo um suspiro, um frémito uma tesão pequenina e firme que me chama. Gosto de sentir como cresce e se empolga em você esse desejo firme que me chama vibrando entre as suas pernas.

Shh...Devagar...quem disse pressa? É uma letania que perdeu o seu significado e fora da linha do tempo e da roda da vida há apenas uns poucos elementos na nossa nova existência capazes de serem pronunciados: Mão, massagem, dois botões como dois morangos atrevidos e no meio disso tudo uma viagem em círculos concêntricos ao centro duma haste pequenina a quem estamos os dois ligados, abraçados, como dois seres pequenos fascinados com todo o seu poder, a palma e a gema dos meus dedos passando por cima de vales e montanhas e o teu corpo todo um oceano. E nós, e a nossa mente interligada, como humildes formigas ou minúsculos náufragos agarramo-nos um ao outro, perdidos, frente à tormenta desatada.

Ao nosso redor um mar bravo feito de água doce de pêssego em calda, que nos embriaga e atira baldes d'água e encharca por inteiro, cabelos ensopados e gotas a escorrer do pescoço até ao final das costas. Uma haste mínima e delicada onde nós segurar para não escorregar antes de tempo ao abismo de Neptuno que nos chama, uma âncora firme e feminina, um obelisco oculto de olhares e evidências contra um mar em tempestade em que embatem as ondas todas que nos embebedam. Um mar onde cavalga uma tormenta elétrica de raios azuis com fogos de artifício a acompanhar na bóveda celeste e estrondos como o estourar de mil planetas. O tempo é eterno por milénios nesta meditação que partilhamos observando as águas até que a própria noite se esgota e a trovoada arreda quando já não tem mais para dar e volta, aos poucos, às brumas do oceano onde habita e ficará novamente à nossa espera.

Aos poucos retrocede, em cada exalação e abraço.... até, devagar, devagar, aos poucos, abraço apertado e ondas de paixão finalmente em calma, em calma irem dormir, virar a escrita em letra calma, o mar em calma, em calma a respiração profunda, em calma um olhar brilhante de emoção de quem se ama.... e nós, exaustos, entre a vigília e os sonhos, entregues um ao outro na comunhão primeira da espécie humana, de novo a nossa fé em vivências transcendentes renovada.

E assim dois corpos adormecem de imediato, colados num só sonho e um mesmo sorriso enquanto a lua que nada diz e tudo viu maravilhada vai embora, a sorrir também, não sem antes cobrir a cena toda com brancos lençóis de prata.

Shhh diz apenas para o sol ao sair, ele já quase a bater na porta.

Shhh hoje demora-te um pouco, anda.

E o seus dedos curiosos por tal balbúrdia que sentiu enquanto dormiam, e mais curiosos ainda com tais pedidos, partem à procura de frinchas na janela ou logo investigam como trespassar estores, intrigados, no raiar dum novo dia.

13
Ago21

Quero

contosdoeste

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Hoje a noite está quente e uma vontade arde no meu peito de querer dar tudo de mim num apelo sincero. Quero o teu corpo contra o meu, por inteiro, pele contra pele como um lugar sagrado.

Quero o teu corpo e a tua mente ligada à pele por inteiro sem espaço à reflexão.

A consciência presente a pedir mais e mais, mais pele, mais eu, mais eu e tu e gemas dos dedos, língua, e transpirarmos juntos até sobrar a roupa os lençois, a cama e o quarto por inteiro.

Carícias carinhosas, calafrios e cócegas malAndras que brinquem com as letras à mistura de emoções e sentimentos à flor da pele.

Shhh, devagar,

amar é para ser sem pressa, quando tens o infinito à tua espera... é assim que hoje deve ser, a concitar vontades e desejos.

Por muito tempo esteve o Verbo primordial à espera de sermos já por fim crescidos, inteiros, verdadeiros amigos, plenos..... 

Por isso, se vai ser hoje, que seja demorado. Como um bom prato a lume brando cozinhado com o melhor dos temperos, com sorrisos e beijos dados a cada novo ingrediente que entrar na panela.

Como água para chocolate fervida num filme de amor atemporal que nos faça sonhar a noite toda.

E eu sei que hoje, agora, tu queres também, já estás a querer enquanto imagino estás letras exatamente a mesma coisa.

Sei que o jogo irá começar em breve ao ver no teu olhar escintilar um desejo e saltar da tua cara um sorriso conhecido, um sinal que se voltou já uma palavra-passe só nossa, um virar do pescoço ao colocar o cabelo atrás da orelha com um dedo num gesto muito meigo.

Já nós vamos conhecendo e hoje quero-te para mim, por inteiro e tu, queres também exatamente a mesma coisa, não queres?

Agora, quando senão? Anuis numa língua secreta nestes meus sonhos feitos realidade.

Sou todo sentidos e juntos vamos os dois explorar os corpos todos a começar por um beijo, nariz contra nariz, ei-las que já se reconhecem e farejam, desejosas, pesquisando trilhos traçados por formigas invisíveis a caminho de sabores doces e salgados como rios de prata e luz azul que nos ligam à eternidade.

Borboletas como beijos que se pousam delicadas nas bochechas, nas orelhas e nos lábios, línguas que se exploram e suspiram, e shhh...devagar, um dedo a indicar que não há pressa nenhuma...uma pausa imperceptível para adequar o ritmo e as pontas dos dedos já pesquisam novos mundos amodinho batendo nas letras certas enquanto nós inalamos o mesmo ar baixo um céu carregado de estrelas que nos iluminam.

Sim, a via láctea por inteiro nos saúda e reconhece e as roupas, a cama, o quarto, qualquer prudência ou raciocínio já eram.

Viajamos juntos pelo firmamento num planeta só nosso, um bólido celeste de sonhos e emoções carregado.

Lábios que mordiscam um ao outro,

com calma.

Lábios peregrinos à ventura, buscadores de ouro sem rumo, bússola, ideias preconcebidas do caminho ou quaisquer indicações, avançam andando à toa, em círculos concêntricos, como bêbados por causa do nosso aroma que tropeçam contra candeeiros de luz apagada a andar em ziguezague desouvindo as advertências do piscar âmbar de semáforos noturnos.

 E nós, feitos língua portuguesa donde brotam palavras safadas como pescoço, maroto, festa do grelo, garrano empinado, malagueta, roupas molhadas, bandido ou vabagundo, abraçados também como dois parceiros embriagados pelos nossos corpos percorremos o terreno todo para voltar sempre ao mesmo lugar mas sempre num novo patamar a cada vez mais elevado, ali bem no centro dos teus beijos.

Aumenta a temperatura do planeta azul incandescente em que habitamos e as gemas dos dedos se reencontram de mansinho, aos poucos, e também agora se investigam na distância certa em que raios dum azul elétrico iluminam o contacto atirando faíscas contra o vácuo sideral.

Quem tem pressa? A tua língua quero na minha boca, palavras de ordem que ilustraram t-shirts galegas reivindicando agora um espaço de partilha abençoado.

Sempre acabo por chegar finalmente ao teu pescoço e avanço atrás da orelha à procura dessa cereja que ali ficou de quando ousaste está tardinha pôr como brincos tais enfeites e sem pressa, com a outra mão, como um mágico do circo, de cartola atirada ali num canto, camisa de linho e colete de cetim que já nem sei onde ficaram, tiro do teu outro lobo um morango fresco entre as gemas dos meus dedos, que, devagar, arrasto até à tua boca.

O cheiro a morango fresco, forte e sadio como nunca que mordiscas entre risos é uma alegria que faz brilhar os nossos corações com uma luz dourada que ilumina o nosso planeta por inteiro enquanto a minha boca desce a soprar, apenas os lábios roçagando, até por baixo do teu queixo.

Onde é que está a maçã-de-eva? Porquê nem sai nos dicionários? Não encontro esse pêro gostoso em parte alguma do pescoço entre tantas cócegas que mordisco à sua procura.

Há tanta coisa oculta por trazer à ribalta ainda no teu corpo! Ei-lo que emerge aos poucos dentre as quentes águas dum mar em que o surgir dum novo continente cria padrões impossíveis de descrever enquanto sobe a maré e já bate a água contra as pedras do areal em círculos concêntricos e ondas de paixão que se entrechocam desatando uma festa de espuma refrescante, a brisa a soprar por entre as dunas e os primeiros suspiros. 

Avançam os teus dedos no areal à procura da minha boca e eu lambo e mordisco tudo ao meu passo, com doçura, como ondas delicadas a bater nas gemas, na palma das mãos, nos nós, no pulso, os cotovelos....

Shh... Quem disse pressa?

A viagem está apenas, só, a começar e os dois sabemos que, em breve, ainda mais ousada, continua...

12
Ago21

Vamos juntos

contosdoeste

 

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Como num lindo fado afoito e escolhido vou, a teu pedido, caminhar de novo, mais um pouco, nesta vida feita poesia, feliz, contigo, com uma nova música a ressoar nos meus ouvidos.

Será sempre assim

Se mo souberes pedir,

tonto ainda,

de tanta expetativa antiga

agora confirmada.

Estou aqui, pra ti, quando quiseres, e uma melodia surge hoje para celebrar o encontro entre iguais que por fim avançam ao mesmo passo, num caminho próprio de todos escolhido.

Confesso:

Contigo e esse olhar doce e mágico com o que enxergas a vida ao meu lado é tudo mais simples, leve, como um passeio num jardim florido cheio de aromas e a relva recém cortada.  E ali ao fundo, conforme imagino, surgirá agora um lago neste nosso jardim sagrado como espelho d'água ensolarado, portal da eternidade a saudar os nossos pés descalços que irão na sua direção pisando o orvalho a sentir pequenos calafrios. É impossível não atendermos ao seu poder magnético e dirigirmos os nossos passos no seu encalço. 

Vou, pleno duma luz dourada e serena que ilumina o nosso peito e as roupas leves que agora vestimos e deste modo continuo a aprender e caminhar, contigo.

Ouço agora pardais e melros já acordados a celebrar a próxima alvorada e o nascer dum novo dia onde o sol, que já quase vem aí, faz parte dos sonhos e da esperança que também juntos descobrimos.

Caminhamos de mãos dadas no lusco-fusco duma manhã que cheira a maresia, conforme a tua vontade, e a vida sorri ao nosso passo ao ver os nossos dedos entrelaçados a desenhar em sombras, entre a relva, um só coração a latejar numa paz serena.

Eu já não preciso confirmação ou mais desafios, sou touro a remoer num prado, pacífico, paciente, consciente do meu poder e a minha força. E dou-te sim, e sou tão feliz assim, os beijos e abraços apertados que quiseres, feliz e alegre de ver livre e cheia de sonhos e perfumes de esperança a nossa partilha renovada.  Escrita com letras douradas pelo tímido sol da manhã num livro novinho em folha que foi aberto ao acaso por qualquer lugar, estará cheia, agora percebemos, sempre de próximos capítulos e histórias intermináveis. Há tanto para contar para trás e para a frente...

Sinto-me tão bem e tão feliz neste lugar, que não posso evitar recolher flores ao meu passo e dar-te um ramalhete, que aceitas porque finalmente compreendes, já, que não é possível parar o amor, querer ficar à margem a ver passar a vida, ou impor modelos ou regras preestabelecidas para aquilo que um próprio ou as outras pessoas sentem.

Porque finalmente tu estás aqui pra mim e para ti própria, plena e dona de si, aceitando um novo desafio carregado de mensagens de mistériosos poderes que através de nós se realizam. Aceitamos assim a energia proveniente doutras eras que finalmente sai a chorro através da nossa vida escrita.

Na beira mesmo do lago ficamos parados com a água a lamber as pontas dos dedos dos nossos pés molhados. Hoje não iremos entrar e talvez descansaremos, sim, aqui,  na sua ribeira deitados, aqui, ao pé mesmo do lago.

É este um cantinho cheio de rosas, ramalhetes, risos, novos mergulhos ainda não realizados, sonhos, caminhadas, e novos desafios que nos envia o lago,

um lugar onírico de eterna aprendizagem e viagens, rodeado de orégão, mil-folhas, papoulas selvagens, hipericão, funcho, margaridas, narcisos e dálias e de portas escancaradas de tão abertas para a vida. A decisão de entrarmos é, sempre será, nossa.

Mas hoje vamos juntos, não vamos? Eu e tu, você e eu, e tu e eu, e você comigo, e eu sigo consigo até onde a vida e o nosso mais sagrado fado nos levar.

Mas a vida e o lago por enquanto podem esperar mais um pouco porque um dia que amanhece assim bem merece ficarmos por aqui a honrar os bons momentos entre aromas juvenis dos prados.

Deitados um ao lado do outro, dou-te um beijo, sim, e você apertada a mim, devolve-me um "boa noite" meigo carregado de carinho e um último olhar que diz tudo quanto eu preciso. E a celebrar tão lindo dia viajamos num abraço onírico em que asinha adormeço ao seu lado, entregues como nunca a lindos sonhos partilhados.

Sei que quando acordarmos o sol malandro já irá estar lá bem no alto aquecendo tudo e todos, e talvez na hora certa a natureza cheia de novos aromas insinuantes desperte com a sua força uma paixão desenfreada.

E o lago, o lago com certeza ainda aqui estará, paciente, à nossa espera...

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