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contos d´oeste

contos d´oeste

25

07
Jul22

Entardecer

contosdoeste

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Entardecer.

Entardecer consigo.

Eu quero entardecer consigo de mãos dadas.

Num belo entardecer que nunca acabe.

E enquanto a vida estivesse a passar apressada à nossa frente, os nossos passos demorar-se-iam num passeio de pernas à vista, mão entrelaçada, finos tecidos e pele bronzeada ao sol.

As meias de lã grossa teriam ficado atrás, numa outra vida dura e agreste, como um longínquo sonho juvenil que sempre nos trará saudades.

E você e eu, um dia tal e como hoje, em silêncio, caminharíamos no planalto, serenos, a ouvir a água a correr num rego, em mil regos, que ao nosso redor estariam, por todo o lado, alegres e a gorgulhar montanha abaixo. 

E já cá estariam também os grilos por todo o prado, e abelhas a zunir e correr pra lá e pra cá .

O sol do belo entardecer iluminaria as nossas faces e nós, deuses gregos em linho branco e sandália romana caminharíamos num jardim cheio de flores silvestres num verão encantado. Haveria pampilhos, papoulas carmesim e botões-d'ouro por todo o lado, mil-folhas de cor branca e algumas poucas (como sempre) cor-de-rosa. Também lá estariam as roseiras bravas. E flutuando através da brisa quente, o orégão selvagem invadiria narinas e encheria o peito de desejos.... e numa explosão de cor lilás um pouco de alfazema que eu trouxe para si na minha outra mão logo apareceria por magia no momento exato em que estivesse a escrever estas letras.

E você, que não quer ficar atrás, numa curva do caminho estenderia a mão e convidar-me-ia para a sua exposição improvisada que nascesse à nossa frente.  São quadros em lenço e cavalete ou fotografias, às centenas, aos milhares, por todo o terreno até perder de vista.

Um pouco mais à frente, à nossa espera, lá estaria, até onde a vista alcança, gigante, o eterno lago. E a pé do caminho, no lago, um banco de madeira. E ao pé do banco de madeira,  um grande relógio de torre, afoito e feito em buxo, a dar as horas.

Para quando ali chegássemos já saberíamos o como fazer parar os ponteiros, o quando fazer voltar atrás o tempo e viver como se fôssemos crianças ou, mais arriscado ainda, o para quê fazer andar as horas para a frente, com muitas precauções, vendo o nosso cabelo ficar todo comprido e branco.

Mas hoje é o belo entardecer eterno, dourado, a hora certa em que você e eu finalmente tinhamos marcado um encontro e fomos convocados. Um encontro anunciado nas estrelas e em noites de insónia, um encontro sussurrado ao luar como mão a passar meiga entre os cabelos, um encontro insinuado pelo sol fazendo cócegas na nossa pele, beijando os nossos olhos fechados e impregnados dum vermelho intenso.

Um reencontro como se dois gêmeos finalmente unissem peças a que não encontravam qualquer sentido e construíssem desse modo um propósito maior por milénios esperado.

A máquina do mundo, cheia de rodas e engrenagens, avançaria com a nossa caminhada mais um passo, um novo movimento, e ao toque do relógio à nossa frente constelações alinhar-se-iam, novos mundos surgiriam nesse instante e outros nesse mesmo movimento explodiriam entregando a sua energia às nuvens cósmicas.

Chegamos,

nós,

firmando um presente de certezas

e numa ordem mental indiscutível fazemos o relógio ficar tranquilo, quieto e em silêncio pois há um banquinho ao sol à nossa espera.

E ali sentados, você e eu 

finalmente reencontrados

Finalmente em paz e calmos

à espera do luar e das estrelas, abraçados num belo entardecer eterno,

Dizemos um ao outro:

Nunca mais.

Nunca mais.

Nunca mais voltaremos a ter pressa.

23
Jun22

São João do lume novo

contosdoeste

 

FVzGgjtXoAAQ3ep.jpgIvan Ivanovich Sokolov (1856)

São João.

São João, onde tudo renasce.

O dia finalmente vence

E a noite obedece

os nossos instintos.

São João, a conquista do lume

E o domínio das forças, dos elementos, que nos unem ao ser humano primeiro.

São João, eterno presente

onde esquecermos qualquer dor,

qualquer rancor,

E finalmente

saltarmos...

Três vezes,

A caminho do futuro.

Três vezes,

Carregados de esperança.

Três vezes de mãos dadas

num urro que aturuja confiante.

Três saltos,

onde voltaremos,

a olhar a vida do zero mais um novo ano,

com olhos brilhantes onde o lume prenda....

E, inocentes,

entre fagulhas e labaredas

—como se de novo fôssemos 

mais uma vez, crianças—

Proclamemos o verdadeiro amor, a amizade sincera

A gratidão por estarmos ainda vivos 

Nós, sim, nós

E aqueles a quem mais amamos.

Saltemos!

 

13
Mai22

Talvez ali, nesse lugar

contosdoeste

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Se porventura você estivesse à minha espera, ali nesse lugar.

Se porventura você estivesse à minha espera, ali na praia,

talvez eu chegaria até você depois de ter atravessado o mar... desertos, e montanhas,

e vales e penhas douradas.

Depois de mergulhar nas profundezas e ter vencido medos e terrores doutras eras já passadas.

Talvez depois de navegar aos quatro ventos à bolina, e de quebrar meu barco contra o inesperado, talvez, eu náufrago, eu de pés descalços entre as brumas, num entardecer distante doutra vida, talvez num sonho, talvez iria eu calcorrear em linha reta em direção ao seu encontro.

E se você estivesse ainda ali à minha espera, em silêncio a remoer dúvidas ou desejos olhando para a espuma branca, e vontades ou convicções sobrevoando o firmamento como gaivotas livres tatuadas na sua alma, ou simplesmente em silêncio e paz, serena e à vontade...

eu chegaria ao pé de si e dir-lhe-ia, como se fosse em sonhos, finalmente toda a verdade.

Ouvir-me-ia contar, talvez num exagero, que eu nunca conheci ninguém como você, ninguém que vibrasse dentro de mim com tanta força e sintonia, e você estaria ouvindo por fim aquilo que talvez você deseje ouvir e que você...sempre soube... Ou, talvez, já saiba.

Sim,

se você estivesse lá, confiante,  na sua paz renovada e amor pelo silêncio, ali no meio desse leito arenoso, onde você cultiva flores e amizades, sonhos e fotografias belas que depois transforma em lindas aguarelas,

ali onde rabisca na areia rascunhos das suas melhores ideias ...

Ai se você estivesse ali à minha espera!

Ou se voltando dum dos seus longos passeios solitários, me encontrasse você a mim inesperadamente ali sentado à sua espera,

como se tudo em mim fosse um último poema,

ali, sentado,

Ali, por trás das dunas, ali onde ninguém mais sabe que se esconde o nosso lago...

então eu talvez caminharia até você  e dir-lhe-ia

O quanto eu gosto de você

E você, rir-se-ia, é claro, da minha declaração desajeitada, ou do inesperado do momento e, malandra, olhos a brilhar, brincando cum sorriso meigo, enquanto colocasse talvez nervosa, talvez o seu cabelo atrás da orelha, ou talvez beliscasse ainda a sorrir o seu lobo direito num lindo gesto, talvez você diria que não acredita em mim ou talvez exigiria, para ganhar tempo, uma outra demonstração de amor qualquer, mais louca.... noutro momento.

Talvez esperta e sábia como alguém que sabe desfrutar dos bons momentos, "Shhh", colocaria, um dedo nos lábios a exigir silêncio...

e respeito pela magia desse encontro belo.

Se assim fosse, talvez depois você sentar-se-ia, no topo duma duna ao pé de mim 

e os dois sentados em silêncio, lado ao lado, iríamos olhar durante horas, talvez, o pôr do sol chegar...

Talvez nalgum momento você pousasse ali a sua cabeça no meu ombro, e talvez dali a um pouco me ofrecesse a mão. Quem sabe talvez depois você se aconchegasse nos meus braços 

ou simplesmente me convidasse para diante de mim eu a abraçar e aconchegar.

Ou talvez se risse de tanta cerimónia tão fofinha e saísse simplesmente a correr sem avisar : vê se me apanhas!

E quando eu depois chegasse, ofegante, a correr à passadeira de madeira onde termina a praia ... Talvez você estaria ali à minha espera, ali ao pé.... da carrinha dos gelados.

E de sorriso cheio e sol na cara, a segurar um pacote sem abrir da Olá pra mim ... você estaria a mordiscar pedaços de chocolate estaladiço daquele que escolheu para os dois, só para troçar de mim, (e que eu por acaso adoro pois me devolve à infância). E rindo eu também com essa inocente brincadeira, abrindo o meu gelado enquanto você cada vez se risse mais, ali, como crianças a brincar na areia, os dois estariamos rindo, talvez às gargalhadas, talvez como crianças, sem poder parar.... cada um

com o seu perna-de-pau da Olá na mão 

 

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11
Mai22

Inabalável

contosdoeste

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Uma mesa branca domina a imagem lá no meio da cozinha, a louça arrumada e tudo pronto, sol pela janela, belo dia de folga a contraluz sem nada para fazer ou padecer, maresia, paz e arrumação que se respira em cada cantinho e bem no centro da toalha de flores estampadas

um vaso

que de improviso cai no chão e quebra em mil pedaços

e a mancha-d´-água alastra rubra,

e uma flor a rubro e verde lá no meio pede para ser tirada do cenário

E você voltou,

assim,

assim sem avisar, de um dia para o outro, doente e a pedir ajuda

E você voltou quando já menos esperávamos e fez com que tudo quebrasse e rebentasse em mil pedaços finalmente.

Ou talvez você quebrou tudo em mil pedaços por dois meses para que a vida voltasse aos inícios dos inícios..... e em trovoada de verão a fontesseca rebentasse enfim e a água nasça a chorro novamente por outros dois mil anos.

Sim, também você já foi fonte e sabe disso

E eu, dique seco e coração inabalável, de ferro,

de ferro a saúde, de ferro as entranhas

e prestes a ficar já esgotado e enferrujado mesmo com isto tudo,

e com tudo que carrego

eu, eu que odeio falar de mim próprio

eu, que hei de eu dizer?

 

Eu

Eu amo você.... e agradeço novamente

e intento compreender

e o silêncio sábio me acompanha...

e, enfim, não era para ter sido assim, pois não?

ou quem sabe? 

Muito bem-vinda emigrante, retornada

cá tens a tua casa, angolana,

filha-da-terra,

mulher sábia e xamã da tribo,

Minha amada, indómita, viageira.

 

O que é que tu fazias afinal lá por essas terras?

Perdida na imensidão do mar, agora voltas

e pra que venças eu por fim me deito e aceito, que a vida é assim, pelo menos para si, ingovernável,

Tal e como você no seu melhor.

Você venceu novamente o seu sino quando perdeu tudo e se entregou braços em cruz

e escolheu virar o leme totalmente e retornar.

Abraçando a sua escolha você abraça o seu destino eleito

e eu,

eu perdi o leme, o rumo certo, e uma nau solitária em mil pedaços quebrou no meio da rebentação ,

mas não a arca da aliança, não o reino do futuro nem a barca bela, não o aconchego, a terra nossa farturenta com sítio para tudo e todos, não...

nem o lar refúgio de sonhos inocentes.

No fracasso é que se sabe onde é que tínhamos triunfado

apesar de estar bem presente, à vista

à vista de toda a gente, à vista, bem à vista,

menos para você ....

 

Você agora é quem fala, e eu escuto

e o silêncio sábio me acompanha agora, e sim, também não posso negar, certa raiva e vontade de ser eu a desaparecer, sair ao mar sem avisar, mergulhar nele e sob as suas ondas berrar de lés-a-lés um berro seco, imenso como um trovão marinho, primigénio, que asustasse baleias e quebrasse rochedos, ruindo templos e movendo marés e cascos velhos e cofres com moedas douro.

Um berro seco que permitisse nascer de novo qualquer novo começo,

porque eu mereço, sabe? eu mereço também qualquer um lugar onde ninguém observe ou me precise e poder descarregar a fúria de formigas e de vespas enraivecidas que me invadem.

E protegido pelo mar, e  lá no alto o sol beijando à tona a espuma branca, a salvo de tudo e todos, acompanhado por golfinhos e corais que a distância prudencial observassem e compreendam tudo, dar por fim murros e patadas q.b. no areal submerso.

Talvez assim a música viesse logo à minha procura.... só ela, ela sim, poder-me-ia proteger enquanto estendesse os seus tentáculos, braços cálidos e sons amigos que alastrassem sob as ondas pelo pensamento, afagassem e me devolvessem algum do meu cabelo. Sons que acarinhassem a minha barba e soprassem novos sonhos como diminutas borbulhas de ar assobiando melodias no meu lobo esquerdo....

A música ou qualquer uma outra poesia que me devolvesse à praia, ao areal, ao sol na pele e o cheiro a mar e sal na cara.... e se eu, aflito e figo passo e fruto seco, virado pra careca e cheio de rugas, passando a mão pela cabeça, a barba branca,longa e encaracolada....voltasse a rir com letras de canções e sons inocentes, e se peixinhos de mil cores viessem para se agachar na minha barba entre as suas mil camadas.... e se eu de novo começasse a rodopiar e dançar com eles

E outros viessem bicar-me os pés e fazer-me cócegas nas mãos e nos joelhos e tirassem toda e qualquer nódoa e pele morta e enchessem de cor azul brilhante, vermelho brilhante laranja o peixe-palhaço e amarelo o sol gigante sobre a minha cabeça, um sol que me permitisse enfim ver a tua chegada em barco não como nau que me deixasse em sombras mas como barca bela, cheia de flores, músicas e folias, enfeitada e vista de relance num misto de alegria e esperança....

Sim , talvez assim a minha proclama fosse outra.

Por isso sê bem-vinda emigrante, retornada, deixa apenas, um tempinho só, apenas, e só, que seja eu quem me faça a ideia, pois há muito que reatar, muito que contar, entender, atender a vida e semear de novo....

E sei que bem mereço escrever a minha queixa, e também levantar a mão nem que seja um dia só a exigir silêncio.

...............

................

 

Não, não pensem que me fui embora, não. Cá estou passada a raiva, os pés bem firmes olhando para tudo quanto é belo.  A rainha do inverno, coitada,  pensa que venceu, como se alguém pudesse congelar o mar!

Mas se hoje fico sem palavras de esperança, é sempre a música que nos pode vir salvar.

"

você precisa possuir um coração inabalável
simplicidade
E o dom de fazer alguém sorrir

O segredo da felicidade é encontrar em você o barulho da paz
E o silêncio do caos "

E no meio disso tudo, mergulhar,

mergulhar, sim, sorrir e desfrutar do que a vida nos traz.

A vida não tem volta atrás, não.

Não, não pensem em cair de novo ou em nenhum outro lugar,

vamos respirar bem fundo, confiar nestes pulmões e certezas,

Coração

e, sim,

com você,

Que voltou para estar comigo

Você que voltou das sombras

Até ao fim do mundo com você,

Com você de novo

mergulhar

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©Pascalcampionart

10
Mai22

Mar de névoas 2# histórias de ida e volta#

contosdoeste

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©imaxesdaterra.com

Pedra da Seara, eu te pertenço, e usufruo o teu poder para viajar em sonhos.

Bendito espaço, sacro, e de espaços primigénios e de perigos cheio para quem desconheça o caminho ou a ambição deixe cego aos avisos dos anciãos.

Montanhas com o seu tear de ouro oculto, algures, em profundas covas de altura, ali bem fundo onde se houve água a pingar eternamente num lago escuro a perder de vista onde nada se mexe.

Covas onde ninguém penetra pois lanterna, facho de palha, telemóvel ou quaisquer luzes do mundo exterior apagar-se-ão sempre com um sopro, uma queda da mão, um escorregar de dedos a transpirar profusamente, presenças sibilantes impossíveis de nomear vindas das primeiras eras fazem que um suor frio corra pelo espinhaço a tremer. Frio, um frio antinatural que avisa para ires embora...E quem te avisa teu amigo é.

Cova da moura e da serpe donde os simples humanos saem, se puderem, emagrecidos, nus e descalços, de cabelos brancos e arrepiados e olhares  esbugalhados e vidracentos à beira da loucura quando finalmente reencontram a saída : não entrem ali, não entrem, nada há de bom nesses lugares.... ficam a murmurar entre dentes

A montanha nem sempre é bondadosa...

Pedra da Seara, qual o meu destino? Seguirei às aves da noite nos seus voos ao luar em eterna poesia? Irei à cova enfrentar o que quer que ali more na solidão, ali onde os olhos de nada servem e o pingar eterno do lago escuro chama por mim e pela minha ousadia... Irei vencer os terrores daquilo que não deve ser nomeado? Ou porventura comandarei novas viagens em dias claros e despejados, onde a olho nu rato ou cobra serão a minha caça?

Qual a tua resposta? Responder-me-ás agora?

Em vão espero por um sinal dos deuses mas nada se mexe e o vento nada diz a assobiar entre pedras aguçadas como dentes de gigante esquecidos entre o mato baixo e ralo...

Ao longe, em baixo, na aldeia, uma criança ri com as brincadeiras dos velhotes: asserrim asserrão, esta boca pede pão,

Aserrim asserrão pede queijo pede pão....

E eu vou ter com eles pelo caminho esculpido na lage limpa onde nada cresce, seguindo rodeiras centenarias ....

Desço ao encontro de mim próprio e enquanto avanço vou descobrindo aos poucos velhas roupas atrapadas e gastas em silvas dantes, tojos velhos e gesteiras milenares....e vão passando para trás idades e troços de trabalhos e vidas doutros que comigo caminharam, e nus vão eles aparecendo, colocando as fardas e  juntando-se ao meu passo sorridentes: o do sequeiro, o tradutor informático, o de Pontevedra a polir portas e armar móveis de cozinha em Compostela, os de Lugo no alto da serra,  ali na portela, plantando vidoeiros entre lobos e urzeiras, o padeiro e vendedor contigo enamorado, de feira em feira e bebé no colo, o ativista, redator e porta-voz, de jornais revistas e paredes que falam, cartaz e cola e stencil à moda antiga, o carpinteiro e aprendiz e que lindo cheiro o da madeira e que bons recordos, o estudante e produtor, e o aroma do tomate, da cenoura e da castanha seca guardada na arca depois de pisada e escolheita, o camponês e o cheiro a terra seca, esterco e poeira na sacha das batatas e do milho e o som do cereal dançando com o vento.... poderá haver som mais lindo do que o do centeio a bater e dançar um contra o outro prenhes de alimento?....

eLe a conduzir um trator velho, uma e outra vez com pedra e lenha, e pedra e terra, e esterco e móveis e filho no colo, de olhos arregalados e mão no volante....

Ele feliz em Lisboa, paragem no Marquês, na avenida da Berna, mas que lindo o jardim da Gulbenkian e morar ao pé do miradouro.... Ai os finos no Bairro alto à noitinha! E faixa e cola e paredes que falam uma e outra vez, e lá está também o operário e o construtor no alto dum andaime a colocar janelas e a assobiar numa casa, todo ensonhações entre a névoa, enquanto olham para mim e o meu passo firme e certo pela vida lá do primeiro andar duma casa toda em pedra ....

Espetador no Teatro da comuna, eu sou o comuneiro da Casa nova, o vizinho certo, sou eu,  aquele que trouxe a água e a esperança ao vilarejo e convenceu os reticentes, aquele que ficou a cantar em baixo a chuva enquanto podava castanheiros durante a trovoada....

Esse sou eu.

Eu

sou .L.

Eu sou a multidão vestida com mil roupas distintas e sapatos diferentes que finalmente me acompanha e segue o meu passo e já logo se esvoaça e entra pelo coração adentro como lembranças nevoentas ao chegar à fonte do Pereiro.

E logo ali, na porta do forno dos Paradinheiro, estará a santa inês à minha espera a segurar meu filho primeiro, a cantar canções de arrolo enquanto eu, porta adentro, com atados de uzes e carqueija, roxarei o forno até ficar todo ele todo branco.

Eu

sou

.L.,

O lenhador que enforna o pão

O pastor de árvores,

Aquele por quem você procurava.

O amo do lume enraivecido.

É ele quem me aquece, envolve o espaço todo e queima o meu cabelo branco,

mas sou eu quem comanda a sua magia.

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25
Abr22

25

contosdoeste

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Hoje é o dia, 

e um sol vibrante chega para quebrar, cadeias 

e estalar, cadeados

após compridas noites de incertezas.

É, 

e apesar de alguns,

precavidos, resistentes,

veteranos de mil encruzilhadas insuspeitas

ainda desconfiarem,

 um coração, gigante, sobrevoa prados, casais e montes 

e rubro sobre verde lateja

sob um sol amarelo de justiça

a iluminar o novo dia.

 

E é azul e branco o firmamento

limpo e transparente

e rubro norte a sul,

de lés a lés, o latejar gigante.

E a manhã, submersa em cantos de esperança e de namoro,

constrói em bicos de pardais

pousados em flores de amarelo intenso

um hino à paz e à alegria do futuro.

 

As máscaras caíram,

o ar que se respira e o tempo é novamente todo nosso

e no entanto, 

sim, 

Mandem para norte,

por favor, urgentemente
algum cheirinho de alecrim...

 

Amanhece hoje 25

Porque depois do nosso adeus

à noite, ao frio e à chuva crua,

ramos diminutos de esperança floriram, poucos, 

aos poucos

para nós,

e abelhões zuniram hoje entre grelos floridos

todo à nossa volta

matando a sede com minúsculas pingas de orvalho e mel.

 

É um pequeno sinal que a rádio enviou pelo país todo,

e pastores de sonhos a recebem confiantes

pois sabem que é desta vez que de aqui ninguém se arreda

o futuro já se enxerga ou, se agora fracassarmos, tudo rui e acaba.  

 

Sim, hoje o dia grande encher-se-á de vida

e a vida aos poucos encher-se á de dias alegres, prazer e folia

apesar de alguns olharem ainda, clandestinos, renitentes e desconfiados

como é natural, por trás de vidros embaciados. 

 

É 25

e a alvorada que clareja,

cegando carros e motocicletas 

que hoje cheios vão também de flores

amarelo gesta, amarelo tojo,

amarelo intenso da carqueija

(a celebrar em breve o maio que lá vem)

ilumina em alvorada intensa 

como holofote no palco do teatro

um galo negro que canta uma, duas , três,  25 vezes sempre

seguro do seu poder, beleza e liberdade. 

 

Quem fosse sempre galo!

E estivesse também tão certo de tudo como um 25 que vinca e permanece exemplo já para toda a eternidade

Sim, um abril como todos mereciam e ganharam,

que conquistasse maio e junho e

no qual 

até para os mais reticentes, sombrios ou golpeados pelos sofrimentos

alguém guardasse um ramo,

um cravo, 

uma pétala de flor que fosse.

 

E enquanto alguns estamos ausentes

guardem uma flor, um simples recado que nos deixem

Guardem sim um cravo para nós,

para mim

para todos nós.

 

Capitão, hoje e sempre, feiticeiro, operário,

surfista ou pirata ébrio e feliz na sua ousadia,

um homem comanda um último sortilégio,

um batalhão de livre verso

e letras blindadas,

a melhor guarda real,

a tropa de elite, da poesia,

guardada sempre-pronta

justo para este momento

aqui onde ninguém nos põe a pata encima

e o alento é o último que nos resta.

 

Lá vai sereno

atirando contra o vento brochuras, cravos,

gritos de esperança

e um tudo ou nada à risca, poema livre,

companheiro, camarada.

  

E ele é o alento, o sol,

o coração amigo, o galo,

as sete cores deste dia

ou um simples cravo vermelho,

que nos devolve 

poema, feitiço, sortilégio

visões dum futuro pleno.

 

Um coração-poema também tranquilo e calmo que lateja e se aproxima já

e inunda de cor, calor e mensagem certa

peitos a respirar, aroma de limão, pinheiro, arçã,

cravo e pimenta.

E é assim que,

coração-poema, chi-coração-poema, poema-abraço latejante,

ao chegar ao pé de nós

com uma voz que

                                   inunda

a nossa mente,

                                                vísceras e entranhas,

                                                                                       até tocar o fim das unhas

   e a última ponta dos cabelos,  

É assim que, finalmente, fala: 

sim, a esperança é uma arma carregada de futuro.

eu sei o que o futuro vos traz,  

vocês merecem. 

Não tenham nunca mais medo ou incertezas

o futuro é vosso. 

Sim.

Haverá primavera

 

12
Abr22

Abril

contosdoeste

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É abril,

É abril e o vento zoa entre as telhas, levanta paixões e arrasta cadeiras e papéis velhos com a tinta a escorrer...

É abril, e dói

e um turbilhão de emoções alastra e a lua no alto comanda uma nova conjunção de estrelas

a olhar aflita para nós.

É abril, e o inverno e a luz

as sombras e os monstros

digladiam-se

por atrapar o que reste de nós nesta maré que ressona entrando pela rocha adentro

no buraco do inferno

na cova da piedade

Na lágrima fria que escorrega duma lua esbelta de marfim e mármore.

Nada que ela não tenha visto antes

e no entanto a compaixão a invade.

É abril e a vida desalmada rasga a seu passo quaisquer papéis ou regras que outrora quisêssemos manter.

Nada resta (de novo? Sim de novo, qual hipótese senão?) senão fincar os pés bem firmes no chão, olhando para o torvelinho cá de cima e

segurar no alto crianças e convicções

entre as mãos rudes.

Mãos-ninho, mãos-escudo, mãos-balança e equilíbrio....

e nuvem de algodão e construção firme onde brincar e ser, adormecer e deixar vir o sono inocente onde se tecerão os sonhos todos e sementes e aventuras crescerão, abrigadas do vento leste

enquanto a água escorre e pinga dos cabelos, da barba e peito nu e de antigos papéis e sonhos, ruídos, que descem procurando novas formas sulcando a minha pele.

Eu,

gigante,

nu,

com veias de azul do mar intenso e corpo rijo e branco

David de mármore que cobra vida apenas dedicado agora ao resgate doutros,

sou dono do meu génio, de feitiços e poemas.

Eu, entranhas-mármore, de mármore as mãos, a pele, o sangue, as veias

observo o redemoinho da banheira a escoar pelo buraco, e o turbilhão de emoções que abalam o nosso espaço,

enquanto as minhas mãos no alto seguram crianças, sonhos e brinquedos.

Os meus lábios hoje frios

outrora carregados de luxúria e decisão,

também hoje estão selados.

Pelas suas obras os conhecereis...

Cultivemos pois, a sabedoria dos céus.

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Nada resta senão recomeçar do zero

Mais firme, mais sábio,

num tempo algures, alhures, além, aqui no centro da existência que criei e rego, abrigo e cuido, aqui mas no futuro,

Futuro

onde é que ele vem?

u-lo?

Ali, talvez, nesse novo não-lugar

onde  eu-outro, talvez,

pastor de sonhos infantis

guardião da paz

e feiticeiro oculto entre névoas, lagos e montanhas

Talvez ali

serei por fim dono de mim por inteiro,

livre enfim para falar de novo

 e me entregar sem receio ou medo

Senhor de barco próprio a navegar

e dono do meu tempo.

Sei,

compreendo agora

mestre-hora,

Sábio entre os mais sábios:

Neste beco escuro onde o tempo se escreve às avessas

quanto mais devagar eu andar

maior o avanço e maiores serão os nossos passos

09
Abr22

Mar de névoas #1 - histórias de ida e volta#

contosdoeste

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Do alto do promontório observo de novo o horizonte e pelo canto dos olhos, à esquerda, o meu navio varado no meio do areal.

O vento salgado a entrar pelas narinas traz hoje cantos de sereias que atiram as suas redes à minha procura... Ai, vocês nem imaginam o como o seu canto é belo e estonteante!

Ondas alegres, juvenis, batem contra as rochas aos meus pés e pequenas gotas ascendem rochedo acima refrescando os dedos dos pés, os braços, a minha longa barba.

Estava um lindo dia para sorrir, sentar ao pé do mar e amar tanta beleza à minha volta. Mas, contra todo o pronóstico eu, hoje, continuo em pé olhando bem ao longe.

Sei que ali na linha do horizonte está o meu futuro e foi ali que enviei guardado a sete chaves um coração de boi gigante a latejar.

Hoje em que já nada me acalma nem me enerva recebo mensagens de futuros alegres e sorrisos meigos que batem contra o oco das paredes duma caverna onde as ausências lavaram a jato todos os cantinhos secretos que ficavam aonde jovens iam namorar.

Eu... à beira do abismo feito falésia e rocha viva em baixo dos meus pés, sei que preciso é antes de mais andar ou o frio tomará conta de mim durante séculos. E, todavia, não sou capaz de me mexer nem dar um só passo atrás, ou à frente....

Homem das cavernas, pescador da barca vela, homem-árvore, construtor de gaiolas e torres de marfim, boi-domado, outrora camponês e pastor de sonhos, sou, claro, também pirata, bandido e ladrão de corações.... eu bem me lembro disso tudo num meio sorriso inevitável... mas hoje (desculpem-me se não gostarem desta minha nova face), o meu cabelo é curto, muito curto, e a minha barba cresceu mais da conta até esconder o meu pescoço por inteiro e me chegar ao peito.... e deixando vagar o pensamento é que encontro as primeiras respostas: navegar, navegar até o vento gretar e o sol torrar a tua pele, até o cheiro a argaço entrando pelas narinas limpar cada cantinho escuro da tua alma.... Navegar, fechando por momentos os olhos ao presente.... afinal tem que haver sim algum Deus ou diabo à espreita em algum lado nem que seja para troçar dos nossos planos materiais, emoções ou vontades primeiras...

 

Acordo para o relato que acontece sob as pálpebras fechadas à maresia e lá vou eu, peregrino, novamente, a caminhar montanha acima, entre uzes, brumas e  lages primigénias.

Eu lembro aos poucos ao caminhar que viajo sozinho pois tirei do peito e atirei num sortilégio protetor o coração para um futuro distante até onde nada que eu sentir fará qualquer mossa num corpo firme de aço e platino desprovido de quaisquer emoções.

Aqui? De novo? O que faço eu aqui neste passado que mais uma vez cresce forte em mim, hoje, outra vez, novamente?

Chocado pelo inesperado retorno, aceito tal cenário e entrego-me. Homem da montanha, homem-dos-bosques sei bem onde estou e posso assim nomear um por um regatos, árvores, e leiras, assim como os donos que já de lá partiram para o sono eterno. Surfista sem prancha, os meus pés descalços galgam a reta da chamuscada, uma estrada humilde entre as mais humildes sem nome para quem não for indígena destas terras; nada a ver com ranholas, a 25 de abril ou as filas em aguassantas. Aqui ouve-se bem o motor dum carro muito, muito antes dele aparecer, pontinho minúsculo e distante lá ao longe. Avanço, e já o Busto se aparece entre a neblina e ao pouco tempo de andar, acolá, ao fundo, se intui a pista do Carvalhal e a seguir uma fonte de água pura que poucos conhecem antes das Cruzes e lá descendo a estrada, mas ainda no alto, por cima sempre das névoas invernais do Lor, Vilamor.

Cheguei, e no alto, dominando tudo e todos e o meu destino, a porta entre os dois mundos e fronteira, cá está, cheguei e eis que se mostra por inteiro em todo o seu esplendor, cume do monte, Pedra do destino, terra firme sobre o mar de névoa que domina a esta hora o mundo todo enquanto ele aos poucos acorda para um novo dia formando-se diante dos meus olhos pedaço a pedaço. Cá estava à minha espera: a Pedra da seara.

Pedra do destino onde idades, planos e existências separadas por milhares de anos ou quilómetros se encontram, ou estão apenas a um passo, dois passos a pé ao todo, se soubermos como e formos na direção certa.

Pedra da Coroação, pedra Scone, Ara solis da montanha no sopé do alto da Louseira, ali onde signos invisíveis dos templários se perderam arrancados à montanha para todo o sempre e lages imponentes foram assim usadas para teitar humildes sequeiros fumegantes. Cabanas onde se fez o amor, secou-se o pão dos pobres para poder sobreviver ao inverno, filhos foram engendrados durante séculos e houve festa grande cada fim do outono aquando a pisa das castanhas.

Pedra da Seara, eu te pertenço, por inteiro.

E agora que renovo os meus votos o teu poder para viajar em sonhos é também novamente meu por inteiro.

Quantos nomes.... Quantos,  de tempos passados me servem para me nomear por dentro: os covalhôs, o caminho da travancada, o souto pequeno, o cabezo, o val da laga e a pontezinha, e contra o vento, protetora, a pena curuxeira. Amigos daqui da terra, ai, se eu vos contasse que Leixões é um porto comercial e não uma leira abandonada, ou que o bolo do Castrilhom tem filas e faixas de carros engarrafados durante horas numa cidade-ilha de 200.000 habitantes..

Bendito espaço feito à medida dos homens com a sua enxada ao lombo, a sua matança, a sua partia, o seu dia de atar os chouriços, sequeiros e castanhal, o seu tear de ouro oculto baixo as pedras dos mouros e a sua história viva onde cada pessoa conta, cada um de nós é alguém e isso importa.

Isso importa sim.

Muito

 

 

 

 

04
Abr22

Rochedo - histórias de ida e volta#

contosdoeste

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O mar.

O mar chama por mim de novo mostrando em espelho-d'água a paz das suas ondas eternas e o seu riso meigo. E eu com um sorriso gigante na cara e tristeza no olhar, observo.

Observo enquanto és tu quem se vai embora e parte, à procura do desconhecido, adentrando-se nua num mar distante.

No alto dum rochedo que conheço bem, sentado, eu, sozinho, observo.

Camarinhas, Lage, Cabo Vilão.

Outrora batiam durante a noite fortes tormentas e trovoadas borrifando de espuma branca por inteiro o promontório.

Hoje não, já não, hoje é um tempo novo no qual desconheço tudo, novo e silencioso onde a calma arrasta uma dor como o golfinho morto que varado no areal a nova maré trouxe e não acaba de decidir o que fazer com ele. Deixará na praia esse cadáver? Leva-lo-á de volta para ser aproveitado pela imensidão do mar?

Fisterra, um farol a penetrar na imensidão.

Nada se move, não há pássaros, nem cães, nem surfistas, nem peixes saltitando. É uma solidão absoluta dum tempo morto que não quer trazer trégua nenhuma. Será? 

Contudo, há sim outras presenças, e deuses doutro tempo assobiam nos ouvidos incautos ali, no alto do rochedo donde se intuem os seus risos malvados enquanto troçam a várias vozes das mais firmes convicções.  

Como se tivessem qualquer hipótese de me magoar nesta altura. Pobre da solidão que nada percebe de sonhos e utopias.

Um homem nunca está sozinho de todo.

Sentado no meu altar improvisado canções do paraíso pretendem em contrapartida agasalhar o meu corpo, dar aconchego ao coração e trazer à tona um futuro terrenal cheio de boas partilhas, melodias eternas de cantares redescobertos uma e outra vez ao redor dum jantar improvisado, bons petiscos em cantina amiga,  bom vinho gentil e generoso, cantores abraçados que brilham com luz própria na penumbra....

E, nesse cenário, lindas estrofes nascidas séculos atrás nos acompanhariam por horas a fio à mistura com novas letras desta língua renovada. E na lareira um lume manso estaria já a crepitar por toda a eternidade. Ai, se você quisesse!...

Eu quero ir, para o altinho que daqui não vejo bem, quero ir.....

Dono do meu presente, sei qual é hoje o nome que melhor me assentaria em tudo que fiz até ao momento, Luigi, Gigi, Girolamo, menino-Rei do nada perdido num presente insólito.

Ao passar a ribeirinha pus o pé, molhei a meia, pus o pé....

Rei destronado do reino farturento do Futuro onde tudo era sempre possível; Gigi o contador de histórias solitário, construtor de sonhos impossíveis a inventar o mundo uma e outra vez, e sempre novo e diferente, com belos truques de magia inesperados, fogos de artifício de mil cores, tudo que fosse preciso para agradar a criança por quem ele estava apaixonado por completo. Você. Você...

Eu quero ir, minha gente, Eu não sou daqui....

Gigi apaixonado por você, você, tu, que sempre tinhas uma outra missão mais premente do que nenhuma outra. E afinal tinhas, não tinhas? Pois ainda tens, não tens? Ver-se-á.

Espero bem que sim e o que eu poderia ou hei de dizer além de: tudo de bom para ti e apita se precisares de ajuda, pois cá estamos como sempre, eu é que não tenho intenção de ir a nenhum outro lugar mais do que àquele ao qual pertenço. Sim, eu estou com os pés bem firmes no chão plantados. Só desta maneira é que se pode voar sem medo às alturas.

Sabe-se lá o que é que poderia haver mais importante na vida do que amar e ser-se amado.... você é que sabe, e eu é que nada sei do que em tempos soube. Ou talvez sim, talvez sempre soube que não sabia. Eu... Talvez não queria saber, sabe?

Penso por um momento nesses sentimentos que num frenesim doentio me perseguem sobrevoando a cena e o meu corpo, rodopiando à minha volta, minúsculos seres.... seres  procurando uma falha nas defesas com as suas trajetórias de voo em forma de ovo, com as suas agudas vozes querendo entrar peito adentro e me roubar o ar e a minha alma. Não podem não. É preciso coração aonde se dirigir e alguém que queira impedi-los de entrar. Pelo contrário eu deixo atravessar corpo e defesas pois sei que nada encontram senão o espaço vácuo, escudo de metal e pedra dura, rocha inexpugnável. Hoje não, hoje vocês nada podem fazer.

É preciso coragem para arrancar o coração a duas mãos, olhar bem de frente o seu latejo e falar assim:

Desculpe meu amigo, mas não é boa ideia agora estarmos juntos. Eu... vou-te proteger, mas não aqui, senão num cofre a sete chaves bem longe, numa rocha humilde e inesperada, num lugar do futuro, espigão longínquo à frente do mar desafiante. Fonforron, Felgueiras, Cabedelo, ai o mar! 

Guardado numa cova qualquer ou neste meu rochedo, num espaço secreto doutra era, num nicho bem quentinho a prova de marés e furacões você estará a salvo, pois manter-nos-emos em planos diferentes da existência. Este é o meu poema sortilégio. Assim eu protejo você e ficarei, assim, tranquilo e calmo.

Observo.  E vejo cenas sobrepor-se, imagens doutros tempos, dum futuro inexistente. Enxergo mãos apaixonadas que se entrelaçam num passeio ao pé do mar. Razo, Caiom, Fisterra Riazor... quanta vida, quanto mar....

Quanta história comum partilhada que parecia eterna, agora submersa como livro de memórias mergulhando as ultimas folhas e fotografias velhas num mar de tons oleosos que cintilam ao pôr-do-sol do fim desta jornada.

O Mar.

O mar. Uma mulher de passo firme escolhe decidida entrar nele sem trocar de roupa, ousada, rebelde, dona de si própria e o seu destino, e cá vêm os adeuses que finalmente chegaram para se tornar realidades.....

E atrás deles um homem ao desespero: Espera por mim! Espero eu por ti, queres?! Leva-me contigo! Fica aqui comigo.... só mais um pouco!...

Palavras ocultarão palavras e a raiva gritante da mudança que as marés vivas trazem e que encherão tudo de vermelho sangue, novas constelaçoes a surgir violentamente no firmamento e o cheiro a ferro que negará o último abraço.

O homem de lata sabe bem do que eu falo.

Cá do alto observo tudo e todos e vejo o quanta sorte eu tenho de ser quem eu sou. De estar onde estou. Agora sei finalmente o meu verdadeiro nome e o sol vem já na minha ajuda derreter a face de cera dum Gigi solitário.

Manuel meu Manuelinho, Manuel feito de cera....

Canções que aumentam em intensidade e olhos que choram mas mantêm o sorriso perante as crianças, pois unicamente choram porque tiveram de cortar cebola e mais cebola para aprontar o almoço, é só isso, sim, apenas isso e mais nada. É.

Cebolas-das-gaivotas florescem no areal num segundo, chamando a atenção de quem sabe ler na palma das mãos abertas. Flores-de-uma hora que derretem e ardem também perante um sol impiedoso e abrasador. Roupas ardem igualmente deixando a nu o rei, dono e senhor por inteiro do seu firme rochedo a beira-mar plantado. Marés vivas batem contra as pedras onde sol e a lua se alinharam para tecer o seu destino.

Eu conheci Man, sim, o alemão, o homem-solitário de Camelhe a morar num pedregal a beira-mar deitado.

Tal como ele recupero agora eu o meu verdadeiro nome que não pronunciarei. Não aqui, não agora. 

Não. Não minhas amigas....não, não sou eu esse homem suplicante que vi no areal. 

06
Mar22

Guardião da Paz

contosdoeste

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A paz no meio ao peito me acompanha, mas às vezes o coração fraqueja, faltando-me o ar, e respirando ainda à custa quando deixo vir à tona o puro sentimento.

Aflito perante tempos convulsos que chegaram para permanecer, construo um escudo protetor à minha volta com letras tiradas das sopas das crianças.

Não, não deixarei ninguém de fora, sei bem quem amo e quem também me faz sonhar com as suas canções, belos poemas, ideias de esperança e belos sonhos doutrora que inscritos já nas grutas e desenhos das cavernas e ao mesmo tempo em naves espaciais que só surgirão daqui a duzentos anos connosco viajam. Tal e como nessa terra de outrora, de hoje, e sempre, que em sonhos me visita, não peçam que console ninguém ou mude o foco agora para outros que não os vulneráveis que eu protejo.

Proteger e cuidar doutros, compaixão, olhares carregados de beleza, e um mundo de ensonhações reclama há bem tempo da minha presença sempre adiada pela maldição dos homens cinzentos. E afinal é tudo tão simples como estar em paz e deixar correr, estar em, ser&estar, ser e deixar correr rios de tinta,

será?

Uma dor quer fazer-se presente através das letras, talvez para não serem lidas por ninguém, mas lá que ela quer, quer: incomodar, desentoar, com outras melodias que sempre cá viveram em paz, ritmo de tango e harmonia. Não tenho medo, abro as mãos, estico os braços e atiro-me do alto dum penhasco contra as pedras afiadas como espinhas ou hastes rochosas lá no fundo.

Não tenho medo, abro as asas e pairo, nu, ciente do tambor que lateja profundo e firme no meu coração, observando a cena.

Nada dói mais que aquilo para o qual nunca estávamos em verdade à espera, apesar de avisos recorrentes dos profetas. É uma dor surda, em retardo, que acompanha como um cancro sempre à espreita dum despiste, olhando para fotos velhas, lembranças, melodias, rotinas quebradas, letras.

Coitada desta dor, pensa ela que tem qualquer hipótese de me vencer, mas eu deixo-a vir quando me apanha e quando quero num piscar de olhos, num triscar de dedos afasto-a e sopro-a de palma estendida enquanto observo como esvoaça o resto do seu fumo azul e inofensivo. Não, não aceito a derrota, pois não estou em guerra, e a paz me invade por saber-me completo e a fazer as coisas certas. Sem dúvidas, ciente do meu lugar de homem finalmente humilde quanto baste e sábio quanto é preciso nesta hora, eu sei que o meu presente é a minha espera.

E se é pra estarmos vivos, viver a vida enamorado da sua beleza e cuidar daqueles a quem amas uma só palavra basta: gentileza.

Observo a conjunção de estrelas... Marte cavalga encabritado, mas eu firmo o meu olhar e vejo claramente, não é a mim que procura mas outras terras. Tenho dó deles, dos de sempre, inocentes no meio de gigantes a atirarem, insensíveis, pedras e derruir montanhas, estradas, prédios, vidas, terras... no país da língua dos passarinhos, será que existe nome mais lindo para uma outra língua tão complexa?

Mas não, não é a minha luta, é sim o meu abrigo que aparece, tipi de indígenas americanos, que ofereço a quem dele precisar em tempos de furacões e vento enraivecido.

E eu, protetor deste recanto diminuto da galáxia, atiro um sortilégio com o movimento dum só dedo e abrigo entre peles, à luz dum lume manso que escapa pela portinhola da tenda de campismo, sob esta abóbada estrelada, pequenos rebentos inocentes que de mim dependem.  Envolvo assim numa esfera de energia cintilante dentro desta tenda, uma casa pequenina, de brinquedo onde brincam com as suas bonecas, e lá está tudo quanto é preciso nesta hora, com os quartos, as camas, os lençóis que brilham por segundos em luz cor-de-laranja, rosácea e amarelo vivo a proteger o seu descanso quando adormecem um por um os seus bebés, bolas de futebol e tudo o resto. É um gesto pequenino, insignificante, como também são os nossos problemas.

Paladino duma nova era, concentro o meu olhar no lume crepitante, olhando solitário para toda a escuridão à minha volta.

O lume se reflete nos meus olhos, perfilha a minha silhueta de pensador de punho a segurar o peso por inteiro da expressão em maxilares apertados, a linha da boca numa retidão inconsciente. Não é severidade, mas concentração, não desafio senão entrega ao que a vida trouxer nesta hora incerta.

É a hora em que corvos levantam o seu voo grasnando com violência e desacordo com a cena e comigo.

Coitados eles também, não, não me importo com a sua presença, sei quem sou, qual a razão de aqui ter vindo ao meio do deserto de pedras e morraça. Palavras ecoam na minha mente: Faz aquilo que puderes fazer conforme a tua consciência.....um passo de cada vez, depois o outro.... não tentes consertar aquilo que de ti não depende... O teu destino apenas a ti pertence...cuida quem te cuida.... A matilha de lobos no alto de penas elevadas saúdam o luar que tenta em vão iluminar a cena com luzes de esperança, e em vão eles clamam pela minha presença.

A cena é duma beleza e frio insuportável. Não para mim, nem me importo com o frio, apesar de avaliar o como este deserto é imensamente belo e cruel; não para mim, com o meu poder e as minhas convicções.  Convoco toda a força dos quatro seres que em mim encontram o seu lugar certo: o sábio de brancos cabelos e olhar calmo, o jovem sonhador e divertido, a criança brincalhona e inteligente e o amante protetor, o melhor dos amigos. Um tempo novo urge medir bem as palavras e os silêncios, e afora desabafos necessários, é tempo de espera, proteção e resistência e pouca conversa.

No alto, em contraste com uma lua gigante de fevereiro, ao chamado dos lobos e duma noite limpa, clara, cheia de luz e estrelas, uma coruja veio, e com ela o redemoinho de folhas secas, um vento rude que atira pedra e pó nos olhos de quem anda em terra. Poucos seres poderão existir mais donos do silêncio, e ela, sábia como poucas, dona da noite e do seu tempo, chega em silêncio e em silêncio mostra todo o seu poder e graça. É duma beleza incomparável, mas sou eu que não posso com a minha cara suja, cheia de pó e areia olhar para ela nem atender ao seu feitiço, muito menos entrar no poço eterno da sua bela olhada onde perder-me-ia feliz por toda a eternidade. Pousa num galho seco duma árvore morta, ali espetada há décadas, e em silêncio, silhueta a contraluz de tudo quanto e belo e vale a pena, observa tudo e cala. Às vezes ouvir em silêncio é quanto baste...

Sou pai e nesta hora fecho os olhos ao exterior e, contudo, a minha visão é alargada: Há inocentes a morrer em cruentas guerras novamente, e eu, num ponto de egoísmo inevitável sinto uma pequena tranquilidade da que não ouso envergonhar-me por atender problemas cuja solução está ao meu alcance. 

É amor e mais amor, paciência, compaixão e compromisso. A livre determinação ligada à gentileza.

As coisas importantes são sempre poucas e carregadas de simplicidade; casados com a vida e com uma só palavra de ordem que interessa: proteção dos olhos inocentes, sonhadores, brilhando no meio desta noite em segurança.

Gentileza.

Si vis Pacem para pacem dizem sabiamente alguns políticos nesta incerta hora

E eu a paz duma esperança inquebrável alimento enquanto mantenho aceso o meu lume na lareira.

Também eu digo, a paz é o único caminho, e cada um toma conta do seu próprio fado.

O meu é ser dono de meu sino, Turim turambar, amo do destino fincando firme os pés em terra, esse sou eu, nunca até o de agora por ele dominado.

O resto, tal e como a amizade verdadeira e o verdadeiro amor dependem de si próprios e dalgo maior que todos nós.

Esperará você por mim nesta hora incerta?

Contra toda esperança, mais uma vez,

eu, guardião da paz,

Espero.

 

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