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contos d´oeste

Aprendiz & Caminhante

contos d´oeste

30
Jan21

Gaiola

contosdoeste

IMG_20210121_220606.jpg

I Remédios para fugir duma gaiola dourada

Venho devolver-te isto amiga, porque não é meu.

Não sei em que altura foi

que completou o círculo

e os seus corações

de metal frio, brilhante, sem vida

esgotaram as saídas.

Sei que não é meu, nem fui eu que o trouxe comigo.

Sei no entanto que eu fui ourive, responsável, também por um tempo.

Com amor dediquei as mãos a acabar a cúpula,

cúmplice inconsciente, se quiseres,

de as tuas asas não se poderem abrir

num espaço, tão pequeno, confortável, limitado,

seguro, a salvo.

Protegido.

Mas agora descobri

que apesar de termos feito tudo, tudo que fizemos

repetíamos os erros,

os ídolos e as regras.

Mas nós não somos os mesmos

nem vivemos como os nossos pais

nem eu sou a tua gaiola que tu possas quebrar.

Não temos nada que na vida doutros ir consertar,

sinto amiga,

mas não é comigo que tens de te arranjar.

 

Fiz filigrana de ouro, um tesouro

gaiola douro, uma torre,

fui um rei,

corações de refúgio,

aborrecidos. Eu sei

Cumpri com todo aquilo que me era pedido,

mas esqueci

manter o lume

beber água,

rir meu riso e escrever meu canto

dançar contigo, amiga, e ver teu brilho

Brincar comigo próprio e com os filhos.

 

Perdi o rumo, 

como um menino,

(quase

mais uma criança)

derramei meu pranto e fiquei perdido.

Andei a puxar da saia que não correspondia,

a choramingar carinhos a quem não deveria.

É bom sentir vergonha

desta imagem, destas rimas,

A vida são voltas e outras voltas hão de vir

e imagens como músicas ficam sempre na retina.

Nunca mais vou esquecer, nem a dor, as músicas,

nem aquilo que termina.

Aprendi mais num mês e meio do que em vinte anos.

Mais graças ao silêncio do que em 20 livros.

Mais com as conversas verdadeiras, do que com as exigências.

A dor veio ter comigo para me avisar,

e compreendi.

Tarde demais é só um exagero.

A vida reinventa-se em cada passo,

caminho

amor que evolui tem parte que morre,

avanço

As vidas sempre se renovam pagando um preço,

aceite

não há volta atrás quando a festa acabou, percebo. 

É sempre assim.

Costumam ficar só uns poucos a recolher, os imprescindíveis,

mas eu sei com quem quero voltar a casa quando a arrumação acabar.

Não fique mais com medo,

não há o voltar atrás.

Atrás das festas vêm festas

e outras festas hão de vir

O que era antes novo

hoje é antigo.

Eu sei que é pouco e não consola

mas sei de histórias verdadeiras

de náufragos, vivos

e em terra.

Sei bem do que falo, venho doutro lugar.

Saiba:

Já fui toupeira,

já soube furar a terra e escapar.

Fique:

Só mais um minuto e ouça,

a história vai começar.

 

Noutra terra, noutra era,

outras toupeiras

vieram me procurar.

Acordei um dia e lá estava, 

um pequeno vulcão de terra

no meu ninho,

na gaiola,

Sim, ali, na prisão.

No centro uma toupeira a olhar para mim a acenar,

vem cá!

que fazes aí parado, anda lá!

Partiu, 

e eu fui ter com elas.

Quando perdes o medo é simples seguir uma toupeira.

É só fechar os olhos, não se encostar à terra dura,

seguir os caminhos doutras,

de mãos dadas,

Às escuras,

ou segurando a cauda se fores ainda inexperiente.

Toupeiras encontram-se umas às outras, 

pelo cheiro.

São espertas e modernas.

Protegem-se,

cuidam-se,

são família

E às noites

quando ninguém olha

abrem os olhos

(porque na verdade, não contes a ninguém, mas não são cegas),

e veem-se umas às outras

como realmente são.

Choram e abraçam-se, cantam canções, amam-se.

Chega o dia sem terem reparado e voltam logo aos seus lugares.

São bem comportadas.

Ninguém repara nas toupeiras se forem espertas.

A noite é boa companheira para as toupas.

Hoje o meu lugar é outro.

Falo ainda

e sempre, é claro,

com toupeiras.

Vêm-me procurar. Cuidam de mim, protegem-me.

 

Fiquem tranquilas amigas

obrigado por me vir buscar

mas hoje, hoje não.

desta vez eu vou ficar.

 

Não tenham dó de mim,

cresci, sei-me cuidar

vejam, fiquem por aqui

lá virão mais três poemas

não se apressem a partir

Kintsukoroi no coração,

faísca

linha e agulha

douradas

Sou rã, sou mocho,

sou fagulha, 

sou homem, sou paciente,

sou um lobo? (ver-se-á)

sou cão inteligente,

um gato, uma pedra

sentada.

Sou toupeira de olhos abertos,

a observar

A sutura valeu,

muito legal,

bacana mesmo, agora é só esperar.

Não preciso mais fugir a nenhum outro lugar.

(Continuação: II Remédios para enfrentar uma gaiola)

 

20
Jan21

O sol na terra dos passarinhos

contosdoeste

osol.jpg

Segunda-feira.

As crianças entram no autocarro a correr

e a semana começa de novo.

Mas hoje fui eu que não saí logo, também, a correr.

Voltei antes a casa,

tinha frio e há coisas que ficaram sem apanhar.

Por isso transpiro na duche de tão quente,

a água a escaldar que me atempera sai com força,

até a pele ficar roxa.

Sinto agulhas d´água na cabeça, nos ombros,

no corpo inteiro.

Abro os olhos baixo a cachoeira,

não me quero apressar, 

esbanjar a água quente é um dos poucos vícios, pecados, que mantenho.

Agora sim, é muita hora, saio já para o corredor, vou na correria,

a mente a colocar as cenas todas da semana,

meto as mangas, passo a camisola pelo pescoço,

há sempre tanto que encaixar!

e aí por surpresa bate-me em toda a cara.

Freio, não me movo, fico tonto, atordoado, vejo luzes a piscar.

No meio dum passo, fico quieto,

o calcanhar um nada levantado.

Então enquanto me recomponho , fico à escuta também.

O silêncio.

Ei-lo a invadir o espaço.

A janela está aberta,

silêncio, o ar fresco da manhã cheira a orvalho.

Silêncio.

Entram na cena passarinhos a cantar.

O corvo croa, muito perto, duas vezes

mais nada.

O silêncio fica ainda maior, quando o corvo cala.

A linha do tempo quebra-se,

de novo sou eu quem caminha.

Sou pura intuição,

tresando, viro-me,

avanço um passo 

e sento-me no chão.

Encostado à parede do corredor

tiro os óculos e deixo que, agora sim, me afague o rosto.

Fecho os olhos.

É o sol de janeiro que entra pelo corpo todo,

sai bafo do cabelo, dos ombros

Água&sol

e a vida inteira a abrir-se em flor dentro dos meu olhos.

"Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida..."

a melodia do Sérgio

na parte de trás do cérebro,

soa abafada,

repete o refrão mais uma vez.

Sou dono do momento,

embrulho-o com cuidado,

guardo-o para mim

enquanto acontece

na caixa dos remédios.

Outra Godinho me assalta:

"O futuro é para sempre",

aberto -respondo.

E o presente, como o sol,

é eterno enquanto dura

 

 

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