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contos d´oeste

contos d´oeste

25

26
Fev21

Surfista

contosdoeste

 

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De manhã cedinho,

pés descalços no seu quarto.

Fecha os olhos e respira,

uma, duas, cinco vezes cinco

em pé, torso nu,

mãos ao pescoço cruzadas.

Sente o coração a bater nos polegares, 

uma, duas, cinco vezes cinco.

Desce pelos ombros e abraça o próprio corpo

 até ouvir um estalo,

mãos nas omoplatas, cabeça a pousar num braço.

Bum, bum bum,bum

bum,bum

lateja.

Abraça os quadris, barriga que vibra 

bum,bum, respira

uma, duas, cinco vezes cinco.

Mãos a construir um trapézio,

no centro o embigo.

Inspira e absorve,

expira e envia

um cordão transparente que cresce

um chorro de luz silencioso,

particulas a brilhar à lua. 

Cristais que brilham elevando-se num feixe imaginado.

Cabelo comprido que se move com o ar que se alevanta, 

mãos que seguem a luz

extendem-se,

para a frente

para acima

 erguem-se,

braços que se esticam

                                        e

 devagar

                                      balançam

len

ta 

men

te

E atrás deles o torso, a cintura

como as pontas dum canavial em calma,

como um sussurro de brisa no verão,

dedos abertos,

braços que se movem ao sabor da maré mansa

à direita e à esquerda

                                           à direita

e à esquerda

fffuuu, ffffuuu,

do ar ao mar é só uma letra

bumbum

fffuuu, ffffuuu  de novo

O mar que chega

fffuuu, ffffuuu,

bumbum.

Maré mansa

areia molhada nos pés

vai e vem água fria que a arrasta.

Enterrado o tornozelo, firma o pé no chão

e depois

               _____________

            |         o nada.         |

               --------------------

Vai-se o mar, vêem as dunas, asinha os pássaros, as sementes

cria-se o manto, passam raposos, ladrões de ovos.

Atrás chega um lobo tresmalhado, com sede, com fome,

a trotar pelo areal distante.

Bebe água do mar logo, inconsciente e fica com mais sede. Encontra um ninho, câgados recém-nascidos, que sortudo meu amigo. 

Acampamentos nas dunas, gentes alegres a nadar à noite, churrascos, peixe frito, risos, praia virgem, fogueiras, amores, rumores, gemidos.

Um pinhal cresce entretanto, o mar retrai-se. Logo é já, tudo e apenas, um recordo salgado no fundo da terra.

Carvalhos, Faias, Nogueiras, passam-se as eras.

Estrelas, nebulosa de Órion, as perseidas, o cuco na primavera, sons estivais que chegam:

Grilos, pirilampos, uma coruja a planar, uma sombra.

Ruído, ratinhos a fugirem assustados, esquios que se agacham, 

nada lhe escapa. 

Depois da caça pousa no seu ombro direito,

agora é nó de árvore madura, casca rija, garras que se fincam

Cabeça branca, um fantasma,

bico amarelo, cauda do ratinho ainda fora.

Olhos gigantes na noite,

arauto da eternidade

uuuhu uuhu, uuuhu uuhu,

a parceira chama e ela em total silêncio levanta o voo.

Árvore que abre os olhos com a marca das garras. Olha para baixo, pé de árvore que ainda intui quem era, olha para cima e estrelas distantes se espelham na retina. 

Via Lactea, Órion, olhos que se lançam

na viagem, incorpóreos.

Precisa dum corpo, sabe disso

ninguem suporta só ser unicamente olhos. 

no frio da nada, um corpo se forma, metálico, prateado, 

nu,

numa prancha de surf,

reconhece-se a surfar.

É

A singularidade,

Na imensidão. 

Melhor, muito melhor, assim

 viaja com o ar a bater na sua testa,

Estrelas que passam a grande velocidade

Letra c

299 792 458 

no seu peito, a rodopiar nos tornozelos a não-brisa

o ar frio

do vácuo primogénito. 

Chega ao centro,

Lá está Ele, Ela, Elú,

a Unidade, fragmentação eterna

É tudo simples afinal,

nunca houve escolha verdadeira

hélio ou hidrogénio?

Qual a diferença?

Ser eterno na presença.

Massa de olhos, corpos, guerras, lagos em paz, abraços,

calor da amizade, riso quente

Homem-mulher-deusa, Tudo

Ouve-se num trovão uma voz feminina: Já queres vir miúdo?

Não, quero apanhar mais uma onda,

ficam mais vagas, mais marés,

ainda não é hoje que me apanhas..

um riso ensurdecedor a trovejar.... hahaha...

apenas porque não me interessa,

quero ver que fazes com o tempo que te resta, 

continua a entreteres-te, entreter-me, entre-ter-te, entre-ter-me,

teres-me dentro de ti,

pertences-me, sabes disso

viaja surfista, aonde quiseres,

não há aonde escapar.

Todos virão a mim e você não será diferente.

O meu tempo é meu

e nisso não tens nenhum poder.

Hoje eu ganho e tu perdes de novo. Volto ao meu lugar corriqueiro, pacífico sereno.

Lá não tens lugar, fecho-te aqui para sempre

Sou livre e tenho tempo.

Eu ganho e tu perdes.

Entrelinhas atrapo-te de novo

e navego,

pescador da barca bela,

por marés conhecidos

Eu não fujo,

apenas viajo calmo

até ao abrigo.

Abre os olhos, ó pescador

dá dois passos à frente,

quebra o feitiço

e de novo

vence.

 

É já muita hora de ir trabalhar

 

 

19
Fev21

Sonho

contosdoeste

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No meio da rua um dia de sol brilhante, encontram-se.

Ele vai com as crianças,

a rirem-se das piadas do mais grande

e a tomar gelado, de baunilha, limão, morango, cada um tem seus gostos definidos. E ao verem-se livres, completos, saudam-se num grande abraço, um beijo na face. Oi, que saudades!

E ela num arrebato inesperado, com um sussurro ao ouvido, convida-o ao seu novo lar.

Mete a mão no bolso e dá-lhe um cartão pequenino, com letras douradas escrito. O seu nome com letras redondas e em baixo o novo endereço. Ele sorri e assente. Esta noite sem demora apareço.

O endereço novo é exatamente o mesmo de sempre, e ele percebe, mas nada diz, deixando-se a flutuar no prazer do convite.

Já à noitinha, crianças a cuidado da família, ele vai, sem pressa, até a casa de sempre, em bicicleta. Toca a campainha e uma porta abre-se. o aroma pode-se intuir a atravessar o espaço, dentro cheira a chocolate e a um jantar com espécias,

caril, cúrcuma, pimenta. 

Jantam na cozinha, pequenina, o jantar sem sal, o chocolate doce de mais, mas ele nada diz, veio para partilhar e para ele tudo está no seu lugar. Demoram-se na conversa da sobremesa, duas taças de vinho frizzante enchem-se três vezes.

Mas são tudo cerimónias alegres de quem procura o reencontro. Não precisam de palavras para se darem as mãos e de mãos dadas vão finalmente pro quarto, de sempre

e como sempre ele o encontra,

nada mudou, apenas ele é diferente.

Sente-se bem no seu novo corpo, na sua mudança, no seu novo poder. Afinal é agora ele quem domina  por fim as suas letras, dono do seu país, do seu território.

Brincam pela superfície do lago, demoram-se a navegar nas suas barcas, criam ondinhas de prazer que sobem a temperatura da água, são barquinhos de ferro vivo ao rubro que flutuam. Água que borbulha a 90 graus, escaldam-se à vontade, com frémito. Contentes de gozar na natureza há porém um ruído, uma distorção,

que se faz cada vez mais grande

nas suas cabeças.

E cada vez que mergulham juntos nas águas cálidas alguma coisa estranha acontece,

perdem o ar em seguida, não se lembram como nadar, assustam-se do mergulho,

suam temerosos

e voltam sempre cada um a seu lugar.

Não se abraçam na água, sentem frio, descem dos barcos e voltam à beira para se abraçar.

Gozam do encontro, mas sem falar nisso sabem que alguma coisa está a faltar.

Não se importam, é uma noite para celebrar, a alegria de se atrever, de retomar o que o coração lhes diz, de partilhar quem são, perfeitos nas suas imperfeições, alguém a quem amam plenamente apesar dos seus conflitos, misérias, lugares escuros e medos.

No dia a seguir, chove na rua um dia triste, os dois olham pela janela com uma chávena a fumegar.

Ele na calma de estar ao abrigo,

ela na tristeza de alguma coisa lhe faltar.

-Foi um erro ter-te convidado, olha, achei que iria fazer sol, mas agora chove fora e não podemos ir passear, desculpa-me. 

E ele:

-Amiga, eu gosto de estar contigo, com chuva, com sol ou com frio. Mas daqui visto da janela só dá vontade de se meter de novo entre os lençóis à procura de mais calor.

-A mim dá-me tristeza ver o dia estar triste, e dá-me vontade de te pedir ires-te embora, sinto mas é isso que sinto. 

E então ele não responde, com palavras, mas com imagens, olhos nos olhos, por fim se ligam e ele fala livre, sem palavras

em imagens e sons que ecoam na consciência:

-Abraço, calor, de que tens medo amor?

-Rechaço, desencontro, vai-te embora, choro

-Sol e estrelas, o meu peito suado.

As mãos tacteiam-te, as pontas dos dedos que se beijam.

-Milhares de mãos sujas que me manuseiam, de moco verde impregnadas, nojo, reclamo, exigências

-Uma energia que empurra mas outra que não devolve, deixe-se abraçar, lamber, amar. 

-Sinto nojo

-Reme também você, seja rainha do meu barco, comande o navio contra as pedras. Atire-o com violência contra elas, abrace a tripulação que saia a rir ou a chorar de prazer no naufrágio. Somos muitos num corpo só. Sinta a força excitante de comandar, ter o poder, dirigir, guiar. Ou leve-me à beira do abismo e, pendurado duma corda, faça-me sentir vertigens loucas. Mantenha-me aí pedindo cair ou voltar até a corda se quebrar.

- Isso é o que tu queres, eu não.

Amiga, escute, é você quem se bloqueia, tem um poder generoso, gigante, transformador que não quer usar. Eu sinto como ele está preso dentro de você, liberte-o e governe. Viaje aonde quiser e leve consigo da mão a quem consigo estiver.

-Solta-me! Vai-te embora!Fora!

-Eu não estou aqui, sou só palavras, uma consciência.

Quer ouvir, entrar no que lhe chateia?

-Não, deixa-me sítio! Não.

Espera, não sei... nada tenho a perder, talvez possa agora ouvir, que acontece?

-Que tudo muda quando a gente muda e a gente muda na mudança da mente.

Encontre as suas novas roupas e mostre-as. Caminhe para a frente orgulhosa, partilhando com quem ama o poder do seu corpo, da sua essência, do seu ser.

-Como? Não sei como se faz, qual o caminho...

-Ninguem sabe o dos outros, só não adianta olhar pra trás, nem virar a cara para não ver. Sinta, faça, escreva, não para si, mas para os outros, sonhe a vida imaginada, pinte rascunhos, quebre as folhas, pinte de novo e de novo outra vez!

- Não quero, me deixa, bora!

-Desculpe a ousadia, boa tarde amiga, vou-me, já saía...

Deitada no sofá, esgotada pela viagem, ouve o clique da porta fechando-se, o descer as escadas, o apanhar a bicicleta, o portão da rua pesado a bater forte ao fechar.

A transpirar, o cabelo colado à pele, fica dormida por horas.

Em sonhos sonha de novo e de novo sai o sol. Vê pessoas a andarem em bicicleta, canteiros cheios de flores, fontes a jorrar as suas águas, gorgulhando, crianças a jogar à bola ou de trotineta, risos, saúdos, vendedores de gelados, balões de hélio. Uma música de carrossel e é claro, um carrossel com crianças e miúdos grandes. A viajar nos seus cavalinhos, nos carros, patos, cisnes, pássaros, baleias.

Uma criança a chorar, um balão que fugiu da mão e se perde entre as nuvens. Uma mãe a consolá-la com um conto do país dos balões.

Sorri, ela também conhece a história..

Numa esquina da avenida vê uma loja de quadros dalguma pintora na moda. Umas mãos numa tela bem grande fazem lembrar qualquer coisa que não identifica. A tela chama a sua atenção. Aproxima-se.

As mãos nojentas pintadas em destaque na montra, um coração de ouro no céu a voar noutra, um abraço de duas águias além, muitas águias a planar livres ao sol, uma brincadeira de levar da mão alguém, com fita de cetim nos olhos 

de mão dada, sorrisos na cara, sedução, e muitos quadros femininos

tudo sensual poderoso, sentido.

Repara nas mãos odiadas, reconhece-as,

e ao redor delas subentende-se uma gaiola insinuada,

subtil,

translúcida

 quase transparente,

feminina, poderosa,

indestrutível

que as encerra.

Em baixo a legenda:

"Fecho-vos no meu quadro e eu me liberto."

E compreende, e chora, e ri e chora,

de alegria.

Acorda do sonho e ao acordar descobre num golpe seco na mente que tudo tinha sido mentira. Não passava dum sonho tudo que até ali sentira: não encontrou o amigo, não jantaram juntos, juntos não se deitaram nem falaram sem palavras. 

Esta-se a fazer noite, tem frio, levanta-se do sofá e ao ligar a luz maravilha! Encontra um cavalete, uma nova mesa, pinturas, pincéis de muitos tamanhos e uma tela enorme.

E no meio, colado com fita-cola um postal do seu amigo,

uma foto dele

a sorrir,

Mãos na bicicleta. "É a sua vez amiga, tem trabalho a fazer pela frente, desfrute dele como eu faço.

Fique à frente de mim

e mostre,

ao mundo,

a graça que flui dos seus olhos. Encontre-se,

comigo,

nas suas telas"

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11
Fev21

Festa da primavera

contosdoeste

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Do alto do meu ramo vejo chegar de novo o terror inesperado que me vigia,

Sei que sempre andou à espreita, mas nunca soube encará-lo.

Hoje não desvio o olhar, não fujo a correr, não procuro passar desapercebido.

Hoje sou eu que observo também.

E escrevo, falo

de ti

 

Olhos vermelhos no escuro, ponta de cigarro acesa,

não procuro o desafio,

apenas sou eu quem já não finjo

não saber

de ti,

mas tu ainda nem reparaste

porque este é o meu poema,

 

sou eu que viajo.

 

Desço da árvore, apanho uns gavetos,

faço lume vivo em silêncio

 

Ficas onde a bóveda de luz se espatifa,

onde já nascem as sombras,

 

Sou eu que escolho deixar-te à minha direita,

é assim que me dou a minha vantagem.

 

Umas tiras de presunto, uns pimentos, um chouriço ao espeto.

Gordura que pinga nas brasas e arde com brilho

Amigos de quatro patas cheiram de longe com gula,

vêm ter comigo

dois, três, quatro, línguas que se relambem o focinho.

 

Não abro a boca mas falo: hoje não, hoje não há muito para vós

e também não é convosco que eu hoje caminho.

 

Amigos curtam a noite mas deixem-me agora

não contem comigo.

 

Atiro-lhes longe quatro ou cinco chouriços.

 

Em silêncio ouço a disputa e sorrio,

sei bem quem ganhou e deixa só os restos para os outros amigos.

Eu como em silêncio, sem pressa.

Sozinhos de novo eu e ele, ela, isso, quem for.

 

Silvas vivas de letras vermelhas crescem da sua origem, rodeiam o lume, cercam-me

sobem pelas árvores os seus espinhos

Sinto um calafrio, um ar gélido se alevanta.

Sei que hoje vai vir ter comigo.

 

Quebro mais lenha miúda, avivo o lume e espero.

 

As letras em silva, vermelhas de sangue roxo, fecham o circulo.

Bóveda de espinhos que engordam.

Não ficam saídas.

 

Sonho uma armadura, uma espada ao cinto,

duas adagas, um elmo, setas,

um arco, um escudo.

 

E de novo sorrio.

Aparto a imagem com uma mão, nada disso interessa.

Apareço-me sentado numa pedra,

de branco as calças,

cabelo comprido, uso barba.

O torso nu,

os pés descalços,

as mãos abertas,

avivo o lume com um simples gesto da mão direita.

O calor é insuportável,

gotas escorrem pelo meu rosto, pelo corpo, caem no chão.

O chão seca-se e a erva arde até onde a luz alcança.

 

Ardem as silvas no alto.

Envio com força uma voz sem falar

É melhor deixares ĺivre o topo ou a silva queima-se”.

Ouve-se um grito de dor, de raiva, silvas que se retraem um pouco.

Uma mínima abertura abre-se no alto e o calor que nos derrete acha uma saída.

Banhado em suor fico à espera, já se aproxima. Pelo canto do olho vejo uma armadura preta. Elmo fechado, da pele nada se enxerga. Estende as mãos ao pé do lume e aquece-as. Ou rouba o calor. É isso que procura. E o lume abranda.

Percebo o seu jogo, mas não interessa.

Caiu na armadilha, está no meu poema.

 

A minha voz envolve o seu corpo:

Hoje é suficiente com saberes da mudança,

não é o dia que eu vença, é o dia em que eu comando.

Tu ficas e sou eu que parto.

As silvas que enviaste são a tua prisão,

até eu mudar de ideias serão o teu destino.

Tu já não me podes seguir. “

 

Vejo a mudança nos seus olhos, primeiro uma pequena dúvida, logo a compreensão repentina.

O medo, a raiva, tudo a avançar num segundo.

Olha para o alto, a confirmação:

Lá está uma pequena frincha.

 

Procura-me, sai a correr. Estica o braço veloz

para mim….

mas já não me vê,

sou corvo no escuro a voar,

sou dono do meu poema, do meu voo, das minhas penas.

atravesso o fenda, fecham-se as silvas sobre os meus passos.

 

Vejo o som do grito de raiva a subir atrás de mim, mas viro o rumo veloz e deixo passar.

Do alto, a bater as assas observo a cena.

 

Uma gaiola de espinho numa pequena floresta troca do rubro ao metal.

Aqui sente-se bem o pouco que é o medo

 

Vou embora, ligeiro feliz,

Imagem de triste gaiola que olho do alto

Aqui sente-se bem o muito que é um homem.

 

Deixo atrás o passado,

quero aproveitar o tempo que resta

sei que do outro lado do mundo é sol,

sol!

já é a festa da primavera

para ali viajo e uma nova aventura começa:

 

Bom dia minhas amigas,

olhem para as minhas flores,

olhem que estou orgulhoso

do trabalho que aqui eu fiz

venham, venham,

venham ver o meu jardim.

Já voltei de novo, venham, olhem como cresce o capim

verde a relva, o sol no alto,

crianças a correr

e a rolar ladeira abaixo.

Pega-pega, esconde esconde, risos e aventuras.

Més propiétés são estas, já contei numa outra altura

aqui não há truques nem queixas.

Cecília desculpe a ousadia, eu cá não tenho um pomar, mas também é aberto a todos.

Tem prados de erva cortada, frutais em todos os lindes, castanheiros, e carvalhos, uma zona de berlindes. E também uma fonte fresca, água a correr num rego, até há um pequeno lago. Há barquinhos de nozes, crianças a soprar o avanço, há lirios e espadanas, bom já sabem, e também alguém a namorar por trás das canas.

 

Sou eu a caminhar de novo, toalha branca nas mesas, cadeiras para todos, bom vinho, cerveja. Amigos músicos que tocam algumas peças. Há mesas todas num círculo.

Taças de vinho, comida que baste, imaginem as sobremesas...

Os licores, as danças, cantar cantigas antigas. E quem ficou estafado a estombalhar-se na leira.

Conversas alegres, anedotas doutras eras, a partilha da amizade, apresentar companheiras.

 

Estão já aqui comigo? conseguem ver o que digo?

Aqui não há vento a virar-nos as quilhas

Sou dono certo da terra. Vejo melros a cantar, mulheres que são poetas. Amigas que me encorajam, a gostar das minhas letras.

Já não pertenço a ninguém e isso basta-me,

como me basta a vossa amizade sincera.

 

Vamos homens e mulheres a apanhar flores sem medo.

Pampilhos, camomila, mil-folhas, jasmim, ouregos, mentas, tomilho, rosmaninho, alecrim.

Fazem-se colares, flores por trás das orelhas,

bandoletes, coroas,

damo-nos como prendas.

Os corações brilham, rimo-nos nas entregas.

São flores sem dono que nos damos uns a outros e também isso nos basta.

E tanta a alegria que borboletas sobem do estômago pelo tronco acima e vêm pousar as suas patinhas no coração (sei, é uma imagem roubada mas que imagem para um coração que sente arrepios de calor e galopa feliz).

 

As crianças estão felizes, até sobem para a mesa.

Encenam uma canção, piadas, adivinhas, fazem rir com as suas lérias.

Entregamo-nos uns a outros: abraços, beijinhos, a mão, risos olhares, paixão.

Está lá uma grande amiga a brincar com o meu anel.

Abraçamo-nos na erva.

Ficamos a dormir a sesta.

Meus filhos com outras crianças na brincadeira.

Nada me falta

 

Entram em cena as aves, passam bandos a cantar.

Pardais a procura de pão,

melros a roubar biscoito,

uma pega apanha uns brincos,

chega a tarde passa o tempo,

alguns andamos na conversa

enquanto avança um passeio.

Passo por uma roseira brava, dessas que cheiram intenso e fico atrás dos amigos a pensar neste momento. Cheiram tão bem estas rosas que lhas quero dar a alguém.

Apanho rosas do jardim, duas guirnaldas douradas, um pouquinho de alecrim, faço um laço, com certeza, um embrulho de cetim,

Num momento de coragem ato num dos tornozelos,

saio a correr sem pensar e dou um salto dos grandes

alguém que me vê e me pergunta: aonde é que vais agora?

Volto já não me demoro, fiquem à espera por mim.

Vou agradecer uma amiga me ter seguido até aqui.

Saio ao alto chego ao céu, e daí é sempre simples.

Rumo ao sul, o mar por perto, chego à Praça do comércio. Passo o arco, o Rossio, o ginjinha, as marisqueiras.

 

Uma criança aponta ao céu:

Olha o melro que lá vai, que leva no tornozelo?

Deixo cair o embrulho, a confiar no seu destino:

Obrigado minha amiga por tudo que fez por mim,

continue a escrever letras que nos transportem assim.

Ouvi que gosta de flores por isso é que me atrevi:

as guirnaldas, o alecrim, com seu laço de cetim,

as rosas da roseira brava eu trouxe aqui para si.

 

Queria é partilhar com todos o quanto eu me sinto feliz

 



 

10
Fev21

O despertar

contosdoeste

 

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O grito primeiro ao sair à luz,

O frio na pele nu.

O primeiro sopro de ar que entra no nosso peito e queima.

O trânsito que assusta

 da escuridão às cores.

Os sons

 que nos invadem e atordoam.

O cheiro a sangue,

as primeiras lágrimas.

A linha do tempo que se quebra 

Um novo ser que entra.

Nascer para a vida

É ser expulso.

No momento certo

Já não há volta atrás

nesse despertar

ou quebra

A vida é uma espiral que nos propulsa a novos reptos.

Viajamos na galáxia e há que estar  prontos

para continuar sempre a nossa viagem.

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05
Fev21

Gaiola aberta ao mundo

contosdoeste

 

 

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IV Remédios para não ter medo das alturas

Novas letras, novos sonhos

Chamam por sair pra fora

e empurram-se

aos cotovelos,

Tantos anos a esperar...

Quereis luz, quereis calor,

falar, falar, falar,

tanto sem serem ouvidas...

Sinto amigas, eu compreendo,

mas vou exigir silêncio

 para atender a partida.

Será só por uns tempos,

fiquem tranquilas,

Mais viagens virão logo (eu prometo)

Mas agora: silêncio, atenção!

Sejam bem comportadas,

por favor, deem-se a mão.

Vamos sair a voar,

apertem logo os cintos,

(pouco posso adiantar hoje)

segurem as malas,

outras terras me reclamam.

Confiram a passagem,

atender tudo de novo.

Não esqueceram nada?

Ligo quando aterrar, tá?

Sim, sim, escrevemos ao chegar

não se preocupem.

Sei que não será de aves

de toupeiras, ou namoros,

é um tempo todo novo

no qual já seremos lobos.

 

Subi a minha gaiola ao topo, ao avesso,  lembram?

Eu tinha uma casa-árvore

coloquei-a como uma parabólica,

Com parafusos e ferros

 na madeira viva;

fui pouco poético,

Urgências do momento.

 

No meio da noite, quando o silêncio domina o mundo,

recebe ondas em sonhos, 

emoções do universo,

Veias abertas d'árvore ao pulsar da via láctea.

Lágrimas de são lourenço vêm cair nela em agosto,

A minha .... grade? Antena? gaiola?

Coiso de ferro. Algibe cheio.

O meu algibe fica sempre

 cheio até transbordar.

Seiva que se renova

Árvore que não chora

Hidratada, corajosa

Casa-árvore com depósito.

Tem água que baste, tem sombra.

Calor e frescura.

Tem ninhos de passarinhos,

já disse noutro poema

Tudo isso ela tem.

A minha árvore, o meu algibe,

fui eu que fiz para mim

E pra quem vier por bem.

Pode

aconchegar-se aqui comigo

Dormir uma sesta ao abrigo

Jantar uma ceia inventada

Ouvir chover no telhado,

Abraçados

Olhar a planície do alto

Com um vinho

Ou simplesmente respirar,

estar presente,

Sentir,

                                        tocar.

Ouvir a energia

dessa

          água

                 sagrada

de conchinha

                         ou a ver tv.

Agora é pra ficar

num lugar a salvo, real

não há princesas nem reis.

aqui são todos iguais,

só uma pessoa é especial

(pra quem guardei meu anel)

de resto podeis vir cá

e desfrutar do que há

Estejais feitos de sal,

de leite

açúcar,

ou mel.

Quando vierem pelo caminho,

sós ou acompanhados

não tenham medo,

não façam caso

desses latidos agudos,

são gritos de pura alegria

(você  de facto já conhece,

sabe bem do que é que falo)

é a nossa cadelinha alegre

a latir e abanar o rabo.

 

Aqui têm o meu algibe

a minha casa, o meu refúgio

o meu leque de poemas

vagos

o meu coração aos troços.

Já sabem tudo que fiz,

que quero,

que consegui,

Já viram o que havia para ver

Já viram que sou feliz.

 

Não fica mais o que dizer

só me falta despedir

à maneira, cá do norte,

sairemos a sorrir.

Vamos lá a isso amigas

Venham as canções antigas

dessas que todos sabemos

para vos desejar muita sorte.

 

E que cresça o pão no forno

E a graça pelo mundo todo.

 

Foi bordado com carinho

Com um carinho especial

Deixei de molho os poemas

Antes de os vir partilhar

 

Vai de namorar meu pano

rimado a brincar a eito

para que cantem nossas filhas

e saibam amar-se com jeito:

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Coração por coração

não desistas amor do meu

olha que o meu coração

sempre foi igual ao teu

 

Aqui tens meu coração,

fica aberto sem ter chave

se quiseres mete-te dentro,

aqui mais um sempre cabe

 

Seja o que tu escolheres

eu sei que vou ser feliz

sabendo que você está bem

e você é livre assim

 

Se quiseres andar comigo

amor não fiques com medo

seremos mui bons amigos

não será nenhum segredo

 

Amo tanto, tanta gente

que não me posso entregar

se não perceberes isto

desiste de cá ficar

 

Minha avó já teve filhas

Sua filha pariu-me a mim

O homem não é meu dono

Sou livre de decidir

 

Meu pai não será meu dono

Eu não sou sua princesa

Sou uma mulher inteira

Sei bem o que me interessa

 

Eu sei me comprometer

Sou eu quem decido quando

Se não tiver liberdade

Contigo não quero trato

 

Não quero ser uma escrava

Daquilo que sentem outros

Eu sei o que sinto eu

Aqui dentro colhem moitos

 

Todo este amor que sinto

Não me ata com meu bem

Não me faz ser para sempre

Propriedade de ninguém.

 

Tu nunca serás o único

O amor não é prisional

És o meu melhor amigo

Serás o mais especial

 

Já sou livre eu sozinha

Amar também é ser amado

Vamos lá ajudar a todos

A quebrar com o passado

 

O homem que me compreenda

Será também homem livre

Deixará atrás o passado

E andará em bicicleta

 

Eu sei me comprometer 

Com quem me souber cuidar

Eu também te cuidarei

Se me souberes amar.

 

O meu amor é infinito

Não é feito de papelão

Atende bem meu amigo 

Eu falo do coração

 

Sete e sete são catorze

E mais sete vinte e um

Tenho sete namorados

Já não tem ciúmes nenhum

 

Livre sou, livre serei

ninguém já me poderá atar

não faz sentido ficar

se isto não quer abraçar

 

Boas gentes desta terra

Amem-se em liberdade

Vida não temos outra

Busquem a felicidade

Venho dar a despedida

com amor e alegria

boas gentes que me leram

agora vem a partida

 

Mudanças não são castigos

Pois a vida sempre muda

Ajudem os seus amigos

E cuidem da vossa vida

 

Foi bonita a festa, pá,

Foi bem grande a folia

Deixo aberto o coração

 aprendi da minha amiga

 

O meu coração abriu-se

Já não tem nenhuma grade

Vai ser coração inteiro

até que está vida acabe

 

Aqui tens meu coração 

Mais já não se pode abrir

não tenho mais que te dar

nem tu mais que me pedir

Já se acaba este cantar

já conclui está cantiga

Muito boa noite senhoras

vemo-nos numa outra vila

03
Fev21

Gaiola de saudades

contosdoeste

IMG_20210131_162255.jpg

 

III Remédios para partilhar frutos duma gaiola

No inverno, a promessa duma semente,

ou duma estaca, parecem pouca coisa ao olhar inexperiente.

Lavei a grade-gaiola,

Pus estacas aos lados, prioridades

cordas firmes,

convicções, 

Fiz da gaiola um balanço.

Meti-me dentro, estico o corpo

todo, braços atrás, mãos na nuca,

olhada ao alto,

estrelas,

no meu balanço vejo as noites passar.

Dava até vontade de voltar a fumar.

Uma cadela que amei

 salta dentro do balanço

senta-se ao meu lado.

Sei que está morta há muito tempo

Fui eu próprio que a enterrei

mas tudo faz ainda mais sentido.

Conto tudo para ela, olhos nos olhos,  imagens, sem palavras.

Nunca fizeram falta palavras

pra nos entender

Encosta-se a mim mais um bocado,

Abraçado a ela, olhamos para o céu.

Os meus propósitos são como uma estaca novinha de sabugueiro, 

espetada no chão firme das minhas prioridades.

"Em novembro sempre prende"

diz a vizinha,

o sempre-verde,

dizem as gentes da montanha.

Lembras-te?

Fomos tão felizes lá.

Foi tão duro abandonar.

O meu sabugueiro salta na linha do tempo, é grande, centenário,

Sábio

já deu flores em janeiro.

Já trouxe alguns frutos,

Já remédios caseiros.

Bieiteiro, bieito, sabugueirinho....

Quantos nomes pode ter um mesmo ser? Quantas vidas somos capazes de viver? Quantas vezes começar de novo, renascer?

A estaca fez-se árvore,

está a ficar grande,

como uma casa,

Juventude é um tesouro

como uma casa-árvore

Está na nossa cabeça

e no interior

Eu sei que não conseguem ver daí, desse lugar,

eu compreendo, é normal.

A minha arvóre tem uma porta, e janelas,

tem ninhos de passarinhos, campainha, chaminé,

Farão falta mais de quatro pessoas para a abraçar,

assoalhadas,

uma lareira linda

sala de jantar,

Ai, e a cozinha!

Com pratos sempre prontos

e com caril,

salsa, pimenta, alhada,

Gritaria de andorinhas a entrar pela janela

abacaxi, fondue, bananas

Camas, 

Corpos que se amam

 se desejam

Dá pra imaginar as camas e os seus lençóis de Casa Alvarinho? 

A lareira num cantinho?

Pronto uma casa-árvore

Como o meu coração,

sem chave na porta

Qualquer um pode vir

Há chá sempre quentinho

E um lugar,

uma mantinha, no cantinho

ao pé do lume,

para ti

Cadelinha, tu sim?

vens comigo viver ali?

E o que achas?

Virá ela de visita, ficará um pouco, será feliz?

Tenho tanta energia, tantos planos!

Vou subir este balanço primeiro para a copa,

é um orgulho, já não oculto o medo, a dor, os ferros. 

Cicatrizes são lembranças, compreensão, entrega. 

Só se cura uma ferida se estiver bem limpa, 

arejada,

por isso mostro bem à vista,

Assim tiro-te todo o teu poder. Bebo-te, reduzo-te, dou-te novo uso gaiolinha

Já vais ver

vou fazer um terraço ou sei lá

Va-se lá saber que farei,

com estes ferros na copa,

Já fui operário,

sou construtor

ver no que isto dá

Ferros, parafusos,

furos na madeira, dor.

Mas que vai pro topo, vai.

Não fujo, não

Eram só ideias a flutuar

Faltam coisas por contar, 

Saudades por matar

 Morangos com chocolate e sêssamo

aguasmestas

Rípias, um sequeiro

(Outros chamam de fumeiro)

Sexo, castanheiros

Abraço verdadeiro

A cochilar eternas sestas

Energéticas,

sexuais....

Foram vidas tão nossas.

Cá não há truques,

nem atalhos

só vontades

de corpos

dourados

Aceites,

azeites

Suados

Soidades 

quebradas

saudades

de camas

a voar sem se mover

Ondas do mar

em imagens

trança louca

A navegar

Numa trença

Sagrada,

Unidos

Lembranças que carrego 

me abraçam

Fartura

           de

                 me lamberes

Sonhada

                       Recordações

 me perdem 

De seios,

de frente, de costas

como quiseres

Nádegas, cabelos

Lóbulo esquerdo

Um pescoço branco

massagens,

Uma risada,

sempre o riso.

Coceguinhas, um gracejo

Olhar meigo, a cavalgada

Nas tuas coxas me perco

gritos de madrugada

Útero que me chama

                             Eu entro

E tudo desaparece,

os lençóis, o quarto, a cama.

Os corpos flutuam,

rodopiam,

não sei onde a cabeça

onde os pés da cama

bocas que se amam

Mamilos,

 é tão bonita essa palavra.

Não conto mais que há crianças

Preservai as descobertas

O passado é um tesouro

que não volta mais

O presente uma prenda sagrada para desfrutar.

O amor é tão gigante

 que não pode estagnar.

Quebrai os muros das barragens,

Rios são pra navegar

Rio Côa, Sela, Tejo,

Gotas pelo meu peito

Minho, Douro, 

Monelos,

Vapor que sai dos cabelos

Rio Lima, Návia

Lor,

O dia inteiro a fazer amor,

Exagero

Ribadéu

Bebo-te

Mandeu

Fico por baixo 

No galope, na barca, no teu olhar

Dissolvo-me contigo na lembrança

Nada é eterno,

apenas o amor do momento

e o abraço de depois.

Matar saudades,

que expressão

sex is about to be slow

Sou barca que avança no mar

Trovoada, ondas desatadas, 

Shhh, calma,

Moisés a apartar as águas,

fica aqui nesta meseta comigo

Botão aberto em flor,

Órgão teso contra o meu umbigo

Desce devagar, roça-te comigo,

eu subo,

milímetro por milimetro 

O desejo é duma eternidade indescritível

Órgão de prazer que já me abraças

da cabeça até às raízes

e me envolves

o sexo

Sugas-me de novo em sonhos

Envolvo-me contigo

Apertadinho

Perco-me

Um novelo,

De emoções,

um sarilho

Que faz aqui este pé?

Lambo os dedinhos

Não são imagens para sofrer,

Mas pra gozar.

Vejo o futuro e sorrio

 Vai ser tudo ainda maior melhor gigante

Mais intenso, pleno, animal.

Outros prazeres virão,

Vejo o futuro e abre

                                   -se

                                         -me

o coração e aromas me atordoam

Falta tanto por viver,

há tanto pra navegar,

Amigas,

quem quer comigo viajar?

Libertei-me dos grilhões

Sou boi indomado,

sou garrano empinado,

Experiente

A minha força interior me obedece

paciente

Ao meu mandado dança

contente

                a minha chama

No meu corpo renovado,

 já cavalgo.

Enxergo o futuro

Confirmo,

Já vou a caminho

Mas por hoje não.

Hoje

É já suficiente

com matar lembranças.

Freio, volto, retrocedo,

não tenho presa, urgência, medos.

A vida a abrir-se em flor para mim

Orchidea, baunilha, amora, alecrim

Mas hoje lembro-me de ti,

Que importa,

a vida que fique à espera

Menta, camomila, jasmim

 cheiros que me invadem

Três sílabas,

cidade da luz

Lisboa

caril

aromas

São Pedro Alcântara,

Saudades

Lisboa inteira, cheiros, flores

que me encontram, que alegria

Vida que me chama, sai 

Sai ao caminho, vai.

Mas hoje não,

Um passo de cada vez

Ler devagar,

linda livraria, fechada

é a vida

Príncipe Real,

café na esplanada

Respira

avançar aos poucos

Aos poucos mudar

amar devagar

Aprontar, cuidar, proteger

Lembra

Amar é uma coisa boa,

medos fora,

Eles nunca nos venceram

 E o futuro é aberto pra nós

que somos jovens.

 

 

Sei que não se vence uma dor

em dez semanas,

Por isso

volto ao início, ao momento

em que estava.

Fico contigo está noite

fazes-me tanta falta,

sem condições, 

companheira

demoro-me aqui,

Repito pra que não se percam:

Hoje fico por aqui,

Meu amor incondicional,

E eu contigo.

Olho para as estrelas

aconchegado ao teu lado,

Na minha gaiola-balanço.

Eu abraçado a ti,

cadelinha, companheira

e tu...

Tu deitada

a abanar o rabo.

 

Quanto partilhei contigo!

Fiel companheira nossa,

gratidão Mominho

Até sempre,

Obrigado

 

(Muito em breve, Conclusão: IV Remédios para não ter medo nas alturas)

 

01
Fev21

Gaiola de ferro

contosdoeste

IMG_20210131_164151.jpg

 

II Remédios para enfrentar uma gaiola

Sento-me no centro da minha prisão, acendo a chama e observo.

Lá vem ele, ela, sei lá,

Pelo canto do olho chega,

o gato pelado, 

o gato-papão, o medo informe, a dor.

Eu já sabia que andava à espreita.

-Vens de novo ter comigo?-digo

Senta sem mais à minha frente, nada diz, cala.

Olhos nos olhos,

Olhamo-nos em silêncio.

"Tarde demais é só um exagero".

Não responde. 

"Há sempre novas maneiras, novos roteiros"- não diz nada.

O tempo passa

e eu espero.

Não é com palavras, mas com imagens que pronúncia o seu discurso:

-Há só uma coisa certa, saiba.

Uma só vida,

E todo o mundo teve medo, 

Teve mãe

e teve pai.

(E também você e eu, minha amiga.)

Todo mundo foi criança,

Mas você não é a sua dor

Deixe de se comportar como se não tivesse alternativa, não houvesse escolha,

não fosse você próprio quem constrói os seus poemas.

Não é no galope que sai deste lugar. Tome de novo as rédeas, são suas.

Não pense,

sinta,

antes de avançar.

-Vai ser extenso de mais.

-Não importa, você tem muito que contar.

 

Abro os olhos e avanço.

Cada um deve saber onde se colocar.

Já honrei o pai, a mãe, a tribo.

Eu não sou

                                            a minha dor, 

Já fui cristão, paciente, servil, obediente, prestável,

                                                                 avô.

 

Fazem faltas certezas para ser forte.

Coerências,

já manteve o relato até ao fim, que mais querem de mim?

sempre o relato que importa nas vitórias dos homens,

nas mentes dos homens, nas histórias da história dos homens. 

Infeliz quem ficar apenas no relato.

Farto de ser homem.

Não serei eu quem caia nisso, não de novo.

Faz falta ser forte para...

Para que?

Para que homens, para que?

Que escravidão.

Soluço.

Farto caraças!

No meio das lágrimas vejo ao fundo um menino,

uma criança.

Faz beicinhos? Uma perna atrás da outra, retraído?

Nada disso, arrasta um taco de beisebol, roupas grandes de mais,

sujo, não se importa, sangra por uma mão

quebrando vidros de carros estacionados nalgum lugar

Sim, eu vejo-te por fim.

Eu sei de ti, ei, menino

(Vira a cara para me ver)

tranquilo, olha, eu conheço-te

(Ignora-me)

sei quem te traiu,

eu também o vi

estava ali, lembras?

eu conheço-te, ei

ei, rapaz, vem cá

(atende)

menino, confia em mim

Sim, também me reconheces,

estás a ver?

Vem cá, vem que te abraço,

dá-me a tua mão

shhh,tranquilo.

Eu sei,

ficaste sozinho, ssshh,

Vem,

vai ficar tudo bem.

Vem rapazinho.

Em mim podes confiar, vem,

Sshhh, nunca mais estarás sozinho.

-Chegas tarde

Sei a chave,

sou sincero:

-Tarde demais é exagero,

mas não podia vir antes

Deixa essas roupas, ficam-te grandes,

deixa tem estas,

não, não te preocupes,

eu não tenho vergonha de andar contigo

Comigo estás a salvo, fica tranquilo.

(aproxima-se, nada diz,

olhar desafiante, o taco bate de leve nos ferros da gaiola)

Não vens por causa da gaiola, destes ferros no meio?

Deixa que eu a aparto, vem não tenhas medo.

Surpreendido, ele estende a mão e na sua palma vejo uma outra gaiola, pequenina, de ferro.

Esta? - diz

Sim, essa também.

Estas gaiolas, que são? Eu levo-a sempre no meu bolso. É um brinquedo?

Não menino, é coisa de grandes, deixa que eu carrego.

(Dá-me a gaiola, minúscula por entre os meus ferros)

e eu deixo-a no chão.

E sem saber como nem porque

sei

exatamente o que fazer

dou-lhe a volta com as mãos

e me liberto. Espaço aberto.

Senta aqui no colo,

vem, 

eu te protejo,

Há abraços grandes nos contos,

nenhum como o que nos demos.

Vai ficar tudo bem, dorme, descansa,

eu não te abandono, tranquilo, eu te carrego....

 

Nada me resta mais do que ser eu.

Tenho tudo pela frente, sou eu

Que escolho a vida, escolho a espera,

escolho o fracasso,

não a derrota, mas as letras

já disse, sou eu que escolho.

Aprendo dele,

nunca mais terei pressa,

Sou quase um cara-inteiro, mais completo

agradeço.

Tudo bem,

já caminho,

obrigado.

Me abraço, respiro.

Faz falta ser inteiro para amar,

Eu não sei como se faz,

qual o destino

mas sei sim caminhar

Maior o avanço, maior é a gratidão

Preenche o espaço todo

o coração a rebentar.

Há que saber ganhar e fracassar,

mas não me sai na conta te perder.

Amiga, o meu presente é a minha espera, o equilíbrio,

a morna

que mostrava esse caminho longe.

Não me importo da velocidade nem do virar o rumo, mas sim da companhia.

Tenho o tempo todo do mundo,

um rol de planos a correr

e tanto para partilhar... você nem imagina

Sou aquele que não se move,

Sou a mais grande valentia,

que irá você fazer?

Em cada degrau, em cada linha,

você me aparece de novo, aí eu não decido

é você quem me aparece

sem eu pedir, 

em cada novo trilho.

Eu hoje já dou sozinho volta

e volta e meia à minha gaiola.

Obrigado,

não fosse você e nunca teria conseguido

me enfrentar, começar de novo,  navegar.

Levarei isso presente sempre comigo,

venha agora ver a nova imagem que já começa,

sente aqui, veja o que fazem sozinhas estas letras

não vá embora, depois eu volto, tá?:

 

De torso nu,  sozinho no areal,

em pé

a luz é intensa,

gaivotas, sol e nuvens,

o vento move o meu cabelo comprido

vejo a minha mão direita

Palma da mão estendida, com a ponta dos dedos 

por baixo do mamilo esquerdo

Toco a pele,

sinto o latejar que chama

dedos rijos penetram a carne

Seguram o músculo quente,

cheio de sangue

Tiro o meu coração latejante.

Repousa na minha mão diante de mim,

aberto como nunca a ser feliz

Vasculha a mão esquerda

pelo furo aberto no interior,

não há nada,

pedras, nada escuro,

apenas luz.

Hoje eu sei
Que quem me deu a ideia
De uma nova consciência
E juventude

foi você.

Maravilho-me, 

uma imagem e tanto, kintsukuroi

o meu coração à minha frente cosido com linha dourada.

Seguro-o com as duas mãos

só para ver como lateja, alegre,

contente, brincalhão

cheio de luz

que sai pelas costuras

Pede-me continuar, 

Vá lá, coragem, sempre em frente!

Que vou dizer! Não sou o músculo do medo mas do amor.

Coloco de novo no interior,

coso o corte, fecho bem

Cabeça & coração

tudo volta ao seu lugar

Ter medo, do quê?

Nunca mais.

Confiança

Quero isso, é preciso, eu não vim cá pra me laiar. 

O meu coração é inabalável,

A minha cabeça, lúcida,

O meu corpo um lugar sagrado

o meu sentir limpo como nunca

Ó gente,

não viemos aqui para sofrer mas para amar.

Temos ainda sempre mais meia vida

pela frente.

Habitamos cada um de nós um coração gigante, enorme,

cabem tantos amores lá dentro!

Sou verme no casulo, sou girino,

sou cágado?

Nada disso,

passei já para a frente,

Aluno avantajado, sortudo, rápido?

Sei lá,

dá na mesma sofrer agora do que antes.

Sento-me no areal, cabelo ao vento

agora está de novo comprido, coisas!

Fecho os olhos

três, cinco vezes cinco, duzentas e quarenta luas,

catorze anos juntos,

sou um homem sedente, inteiro, a hibernar.

O tempo pára ao meu comando,

                                                             pertenço-me

ouço gaivotas chiar,

o vento assovia nas dunas, muda de rumo ao acaso,

Nuvens de areia voam pela praia, colam-se ao corpo,

batem-me na cara, nas orelhas, no cabelo

não me mexo 

sou completo,

Sou cão? Sou lobo?

Sou.

 

Peraí.... ?!?

Mas era da minha gaiola que ia falar...

deixem-me lembrar, esperem, já volto lá

volto ao fio da meada, acho que era tal que assim:

Já dei volta à minha gaiola....

Como era? Vou por aí a procurar / eu preciso andar...

Trago imagens do futuro só para me lembrar.

Cá Estou.

Saiba, já fui labrego,

camponês,

da minha casa já ouvi os pássaros cantar

Já dei sozinho volta à minha gaiola....

Dei volta com as mãos à cupula de ferro.

Lembram? Ficou ao avesso.

Dias andados, ou anos,

atrás ou adiante, que importa?

Adubei, rompi a terra, sementei,

iá, sou rápido, mas é estranha esta linha do tempo até para mim.

Da gaiola de pernas para o ar fiz uma grade, atei cordas

coloquei na testa....

qual o nome?

o jugo, a canga, a cabeçada?

Imaginem, a gaiola atrelada.

Sou minhoto, galego, trasmontano

o homem-boi domado, eu domei o boi, eu sou quem guia.

Chamo adiante o boi, puxo da grade,

grado com ela a terra

Quente, sazonada, sem torrões.

 

Sei, talvez já se perderam.

Quanta cousa diferente pra contar

ando à roda da gaiola como imagens sem sentido

e a dança apenas acaba de começar.

A promessa duma semente vale pouco a olhos dos outros,

o caos, a desordem é parte da vida, da viagem, da partida

mas a gente cá da terra sabe reconhecer a boa lavoura dum igual. 

Sou proprietário, sou michaux

Mes propriétés

a leira está pronta,

o terreno, sadio,

por hoje o trabalho acabou.

A esperança duma semente

é suficiente a olhos do lavrador

Sou dono da terra, do cereal

Não preciso mais fugir a nenhum outro lugar.

Agora é só ficar à espera ver que sai.

(Continuação: III Remédios para partilhar frutos duma gaiola)

 

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