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contos d´oeste

contos d´oeste

25

21
Mar21

Apenas um poema

contosdoeste

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Se me pedisse um poema, 

Apenas um só poema 

Eu ficaria aflito a imaginar

Qual poderia fazer jus às suas belezas,

À sua escrita, ao seu lindo pescoço ao seu coração aberto e subtileza

ou como construir com engenho

uma ode à natureza.

Se você me pedisse um poema

 eu ficaria feliz, muito feliz

 por me ter pedido.

Eu sei que é pouca coisa,

um simples poema,

mas ficaria também nervoso e preocupado

por ficar aquém expectativas

Ou se alguém vier contar as sílabas. 

Encheria o meu poema de dálias, roseiras e jasmim

à solta,

um poema cheio de aromas, de cravo, de alecrim

na horta

E talvez, sim, eu me atrevesse

se ganhasse coragem e tivesse

Verdadeira ousadia

e fosse

valente,

Eu me declararia aberto a si,

ao nosso encontro

 à descoberta entre linhas e curvas

 de alguém como você,

no meu poema.

E quando o meu humilde escrito finalmente começasse

 seria numa alvorada limpa, passarinhos a cantar

 e o frio seco ainda da geada

a levantar em brumas brancas para o ar, que se respira

 e quase queima,

de frio.

Mas eu por acaso gosto disso,

desse ar limpo,

e saberia se você também gosta assim das alvoradas

enquanto damos um passeio de mãos dadas. 

As nossas botas com a biqueira molhada fariam um barulhinho agradável quebrando o gelo da relva,  enquanto as flores do jardim acordavam para o novo dia.

E ali à nossa frente uns patos levantariam o voo tocando de leve as águas, com a ponta das suas asas, ao sentir a nossa presença

e um cisne, sim um cisne, acordaria ao ouvir os patos

tirando a cabeça

da sua asa esquerda,

E a piscar os olhos, preto dentro de azul dentro de preto, dentro de laranja e branco

 um círculo completo,

olharia curioso para nós à sua direita

 e imaginaríamos, no seu bico,

 um sorriso cúmplice

a acompanhar o nosso passo,

Sábio entre os sábios, com o seu olhar meigo.

E se você aceitasse o convite, sairíamos de viagem nas letras, fazendo paragens por todo o litoral, e quem sabe? Fazer a EN 2 de sul a norte, ou as ilhas todas do pacífico talvez num excesso poético.

Desculparão tais excessos num dia como este?

Apanharmos um comboio não seria não um exagero,

de avião, ou de barco viajar

com passo calmo

 por qualquer meio

 ou irmos a Marrocos ou Maracaibo.

Ou talvez apenas numa praia, se for perto do outono, S.Martinho,

ali no Porto ouvi que há também um outro círculo.

Em outono caem as folhas cheias de letras,

e ali seria a fechar sim,

qualquer círculo

perfeito,

olhos de cisne que se encontram

 ali de encontro nas areias

onde iniciávamos por fim

qualquer uma história nossa

ou partida,

você e eu num barco à vela.

Nunca eu tal fiz tais aventuras

Sair de barco, imagina

numa qualquer singradura,

 você e eu viajando,

Convés e camarotes

a transbordar leituras.

 

Tudo isso eu diria, se você 

me tivesse pedido algum poema.

Ai, como eu seria feliz

como aprendiz

a tentar apenas atender

com a pouca capacidade

com que fiz

 A esta sua simples encomenda...

 

14
Mar21

Carta para si

contosdoeste

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Devaneio nas horas em que as dúvidas crescem o quanto eu me mostrar a você, o que contar, o que dizer, até porque nem eu próprio sei o que me poderia dizer a mim próprio das últimas semanas.

Foi tudo um sonho? Existe você realmente nalgum lugar? Ou foi tudo imaginado, sonhado nas horas em que a mente vaga entre o acordar e o sono. A vida sonhada que nunca chega é pouco que interesse frente aos sonhos vividos por inteiro, ao presente tão real em que nos sentimos compreendidos, a voar nas emoções sinceras que a existência doutros nos provocam.

Lembro perfeitamente a primeira vez que vi você. Sozinho no bar, eu escrevia, garatujava, os meus primeiros versos num guardanapo enquanto bebia um vinho tinto qualquer quando você apareceu saindo dum cantinho escuro do local e avançava confiante até ao balcão. Eu nem tinha reparado em que houvesse mais ninguém ao entrar enviado lá por amigos, apenas o empregado, bom conselheiro que tinha procurado de propósito.

Ali estávamos nós há tempo que baste a falar eu e ele, achava, sozinhos.

Você logo se achegou ao balcão em que eu me debruçava com ar e passo fresco, natural, dona do espaço todo. E com um leve movimento da cara, um simples olhar, já anuia o empregado com cumplicidade e aprontava para si, cliente de longa data, de sempre, café ao seu gosto, bem quente, sem dizer uma só palavra. 

Senti a presença do seu corpo que se aproximou, muito perto, um bocadinho, um nada, atrás de mim, à minha esquerda, e como com naturalidade, nos bicos dos pés, deitou o olhar por cima do meu ombro sobre a minha letra de criança, o texto em verso.

Quase podia ter se apoiado muito levemente no meu ombro com uma mão, do próxima que estava, ou talvez tenha feito, pois eu lembro a confiança, a familiaridade agradável desse contacto como se assim tivesse acontecido.

É poesia? É.

Posso ler? Certeza disse, enquanto virava devagar a cabeça, e sustentei o seu olhar meigo, meio sorriso ambos, eu sem qualquer vergonha, um pouco surpreso, mas de coração aberto.

Você entrou por acaso nos meus escritos sem eu ter tido tempo a pensar o quanto ou como ou com quem partilhá-los. Chegou na hora certa em que o meu coração machucado se recompunha abrindo-se a qualquer nova, diferente, experiência.

Quando temos mesmo de sobreviver uma estranha força nos alevanta e apronta para o esforço desse trânsito pela dor e a quebra. É assim para mim. Não suporto a autocompaixão sem objetivo. A vida é curta que baste pra ficarmos sempre ratinhos tristes a andar sem vontade na mesma roda, sem procurar qual a saída, onde é que está a vida, a verdadeira vida. Há cárceres suficientes e pessoas presas sem razão como para malgastarmos a nossa liberdade em nos flagelar sem rumo. Não temos esse direito, eu pelo menos é que não.

Escrevemos como terapia, no meu caso até por conselho, quase tarefa imposta por mim próprio nas horas baixas e por dar ouvidos ao barman: Para sair da lama não é álcool nem distrações que interessam, nada como escrever, acredite. Escreva, homem, tire fora essa criatividade que se nega a mostrar, se tiver vergonha comece por algum lugar onde ninguém conheça você ou escreva só para você mesmo, mais nada. Você, que sempre se deu aos outros e nunca se perguntou quem era, encare este poço como uma oportunidade. Quando você está no fundo mais fundo há sempre duas certezas: primeira, apesar de tudo, continuamos vivos, belisque com força a mão direita e confira.  Segunda, já tocamos terra firme com os pés, não há mais nada abaixo. E só há um caminho, uma saída. É sempre a subir. No seu caso é sobre você que tem de escrever, que tem de se mostrar a si próprio.

Hoje a minha vida conserta-se aos poucos e fico por isso alegre. Muito. Sei que se você chegasse a saber também ficaria feliz e eu alegre de que assim seja tudo, como tem de ser, alegrarmo-nos uns pelos outros e por nós próprios e que os esforços que fazemos no dia a dia, os prazeres, as alegrias que nos damos, os cuidados, a amizade sincera, a vida, tudo tenha algum sentido. Mas hoje não e disso que quero falar, mas de você, e quem sabe algum dia fique a saber por outrem disto que agora escrevo ou de tudo o que se movimenta dentro do meu peito. Porque no fundo sei que talvez nunca mais voltarei a ver você nem você chegue a ler, pouco provável, estas letras. 

Gostei de você em pouco tempo. Eu já conhecia como as coisas do coração avançam em mim aos poucos mas sempre de maneira firme. Eu sei bem que mereço proteger-me, proteger os meus, não por acaso temos ainda a força da juventude (pois esta, como a liberdade, está dentro da cabeça) e somamos a isto a experiência de meia vida. Escolher bem quanto abrir o coração, quem merece atenção é importante, mas você conseguiu alterar as minhas convicções, as minhas anteriores expetativas e enfim nem sei muito bem explicar. Tudo ficou de pernas pro ar mas nunca assustador senão confiante e assim desta maneira foi tudo novo, desconhecido, jovem e virgem para mim, nos trilhos que com você andei. Sou feliz lembrando essa energia.

Entrou naturalmente, como por acaso, em contacto comigo e foi logo uma alegria limpa, um sorriso cândido, inocente que me iluminou a cara.

Foi muito gentil. É lindo, disse, dá muita paz o que você escreve. Você escreve muito bem meu amigo. Não sabia? E eu também escrevo, muito, e quem sabe talvez um dia queira também ler...

E quando olhei você aos olhos logo percebi, qualquer coisa nos tinha conetado. Uma intuição, um interesse mútuo, uma simples curiosidade incontornável, mas sim, lá estava, qualquer coisa alegre, saudável, bela.

Dias passados do nosso primeiro encontro, eu voltei de novo ao mesmo local, pois tinha gostado dele, sentira-me em casa, a salvo, e já agora, café do melhor e o vinho era bom também. E lá estava você de novo, lembra-se? Levantou a vista e sorriu pra mim. E eu quis sonhar, só por brincadeira, pois nada me atava nessa altura da vida e eu sentira-me muito leve. Estaria à minha espera? Sentada numa mesa você acena com a mão: sente aqui comigo, venha; e na mesa, aberto por completo, com uma caneta brilhante no meio, o seu caderno. Olhei de relance: desenhos, paisagens a aguarela, letras. 

Sempre gostou deste lugar? Que bom que tenha voltado! Eu venho por cá a diário, é tão lindo, não acha?

É, gostei sim, tem um ambiente , uma luz, uma qualquer paz que nos faz sentir em casa. Então estes são os seus escritos, posso ler algum?

Sem duvidar meu amigo, leia! Textos foram escritos pra serem lidos, é isso que eu sempre digo. Quando quiser...

 E eu lia ao princípio com precaução de não me envolver muito na história nem esquecer-me onde estava. Sou leitor que esquece tudo ao seu redor na leitura e enfim, estava sentado ao seu lado, não é? Mas muito logo, sem reparar quando, esqueci-me de tudo e viajava pelos campos, as cidades, os lugares remotos que você tinha visitado, peregrina dos desertos, marinheira dos mares do universo, parando nas ilhas todas abençoadas, viajante de novas terras e culturas, e de velhas épocas ocultas. Vi novos mundos cuja construção ainda nem tinha sido iniciada, pronto, o que se diz lugares nunca dantes navegados mas neste caso tudo verdadeiro, vivido, eu vi com os meus olhos, estive lá, tenho certeza.

E enquanto lia e desaparecia deste mundo, eu saía do meu corpo que ficava sentado consigo, eu à sua direita, atrapado na leitura, com uma chávena a fumegar pousada na mesa e imaginava, sentia, você afagando o meu cabelo enquanto olhava de relance o passar das páginas. E olhava-me também de frente a mim, a minha cara em silhueta, os meus ombros, penetrava nas minhas entranhas, chegava àquilo que tenho dentro, muito dentro, no cerne do peito, e como borboleta viajava pelo meu interior tocando de leve tudo que pode ser tocado, até ao âmago, a dar calafrios gostosos, cócegas elétricas, sorrisos de pés a cabeça.

Sei até que você fez um círculo com a mão esquerda no ar ao nosso redor quando achou que eu não perceberia. E uma esfera de cristal nos protegeu, parou o tempo, e já ninguém nos via, e assim como o relógio parado e o tempo sem passar tudo fazia sentido. Não sei quanto disto pode ser verdade, mas você acarinhava o meu cabelo comprido enquanto eu lia, não é verdade? Tem de ser, não posso acreditar que tudo fosse imaginado!

És tão belo! pensavas, dizias-me, voz na minha cabeça, enquanto eu viajava pelos teus mundos, e eu ouvia o teu pensamento dentro de mim: és verdadeiro, gosto de ti, pareces talhado para mim, mas não te iludas, não me atraparei  na tua beleza, eu sou dona de mim própria e do meu desejo. Não sou tua, não és quem busco, não és o único, não sou de ninguém, mas sou sim e apenas o teu desejo e tu o meu desejo do presente, e isso basta-nos, devia bastar-nos, não achas?

Encontramo-nos muitas vezes mais e foi tão lindo, tão sentido, tão dentro. Você mudou-me, e ria, com um riso meigo. E ia trabalhar alegre e também eu depois dos nossos encontros. E eu carrego comigo também como você essas lembranças. Mas deixe-me contar apenas e só para lembrarmos juntos, se algum dia chegar a ler estas letras, o último dia que eu fui com você ao mesmo bar, e mais uma vez fiquei a ler os seus escritos e entrei num trance. E assim enquanto eu relembro também a última vez que você estava ao meu lado revivo mais uma última vez tudo de novo: cafuné no meu cabelo, aroma intenso, os seus lábios molhados, vermelhos e o seu cabelo solto que você coloca sempre com um gesto gracioso por trás da orelha, brincos simples nas orelhas, duas estrelas, e esse seu olhar meigo a faiscar, malandro, divertido, cheio de vida, eterno.

Quando dei por mim e saí dessa última viagem, você tinha partido, a conta paga, eu a acordar dum sonho, esquisito, e o empregado a cirandar duma a outra mesa, a música desligada,  metade das luzes apenas e o silêncio, era o silêncio gigante da ausência que se ouvia por cima do entrechocar de talheres, pires e vidros.

Então meu amigo ficou dormido não foi? Estamos já a fechar, não se importa pois não? Saí e andei pela cidade, sentei no nosso banco de pedra em que ficávamos horas em silêncio de mãos dadas a olhar o mar. Fui até às porta do teatro e entrei pela estação adentro, tudo em silêncio, outro silêncio muito diferente, máscaras na cara, não havia ninguém além dos motoristas bocejantes dos táxis, na paragem, a olhar aborrecidos para lado nenhum.

Voltei outros dias e noutras semanas e nunca mais a encontrei. Vaguei pela cidade, pelos bairros todos, apanhei o comboio das praias, o ferry do outro lado. Fui de comboio a Setúbal ao mercado, no 28 até à feira da Ladra, andei até por Sintra e Cascais, fui a Évora, ao Porto, Melgaço, à feira de Vinhais, no Bom Jesus, nada.

Você tinha sumido, e eu não podia esquecer o seu rosto, o seu cabelo, o pescoço, a sua olhada... o teu aroma, é preciso trocar ao tu ao me lembrar dalgo tão intenso, a mar, a erva fresca recém cortada, a café amargo, a cravo, a rosa, a canela, o teu cheiro selvagem, fresco, evocador, impregnava, impregnavas, e impregnas ainda por completo a minha mente com o teu cheiro. Andava como Lúcio sem saber o que era real, o que sonhado. Mas sentia, sinto, com uma certeza inabalável que tudo fora vivido como verdadeiro.

Ofuscado, os olhos a piscar cheios de luz, tropeçava ao entrar ou sair do metro, do elétrico, do elevador da Graça de tempos idos que eu conheci consigo, sem encontrar ninguém, nada.

Era, sou, feliz ainda com o simples contacto que vivemos por semanas, com manter apenas a lembrança e mais nada, mas um medo crescente começava a me inquietar. Estaria a esquecer a sua cara, as suas costas, os ombros o pescoço, tudo por momentos? Não lembrava bem, ou tinha terror em que assim fosse.  Mas depois lembrava os olhos, o teu cheiro... Isso sim que nunca vacilava na lembrança. O teu olhar permanecia em mim e assim ficava tranquilo, mais calmo nesses meus pensamentos.

Há tempo que não sei de você, nem se ainda pensará em mim ou sente hoje qualquer coisa que mereça ser lembrada. Sei que deixo esta carta para si, num envelope preto, pois eu ouvi dizer, ou quis imaginar que era assim, que assim como quem não quer nada um dia veio ao balcão do nosso lugar primeiro e perguntou por mim, sem dar a isso muita importância.

Será que na volta do correio saberei de si? Deixo também aqui nesta minha humilde carta a minha morada, o meu contacto por se tiver que ser será assim que talvez me encontre, você a mim, ou já talvez não, nunca, haja novamente mais contacto.

Está tudo bem, talvez, e talvez é assim que tem de ser, gozar do que se tem e suspirar contentes, alegres, por ter conhecido mais alguém que partilha o coração aberto, valente, verdadeiro e o mesmo sentir dentro da sua alma. Talvez é apenas isso, só isso, que em verdade é importante e mais nada.

 

11
Mar21

Reconhecimento

contosdoeste

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Volta à praia de si próprio, dunas, vento do sul que traz o calor e as areias, gaivotas no céu, mar ao longe até onde a vista alcança. Não há barcos, pescadores, banhistas, ninguém.

Golfinhos saudam com os seus arcos, divertidos. Eles logo pressintem que alguém veio e tem coisas para contar. 

Sol a pino, mas não queima, só aquece e reverbera no seu peito, que também todo ele brilha. 

Cabelo ao vento leve, uma simples brisa, barba cuidada, torso nu, senta numa pedra, numa pedra com o tamanho certo, polida pelo tempo, que ele imagina para si e logo aparece. Sentado fecha os olhos e ouve. O som do mar que chama, e por baixo, lá dentro, os golfinhos a falar, sempre com brincadeiras a chamarem-no pelo seu nome, a falar dele, das suas intimidades, seus bisbilhoteiros!

Sempre vens brincar, surfista? Ou que pode ser mais importante do que vir com estes teus amigos? Sorri com cumplicidade, sem nada dizer e eles também riem com ele.

O coração do mar, hoje calmo como espelho-de-água,  a mostrar-se nas ondas pequeninas que rompem de mansinho, numa carícia suave, quase a pedir desculpa contra a areia, maré baixa, areal imenso, paz.

Vê-se a si próprio deitado na linha da maré, nariz e boca de fora, o corpo submerso, os sons do mar a entrar nítido aos ouvidos, a água a inundar as orelhas. Ouve as conchas, as areias da praia a arrastar com as águas, cristais-areias dum caleidoscópio na sua mente, contas de vidro minúsculas do relógio de areia a andar, para a frente, para atrás. Linha do tempo que se acalma, pausa.  Algas verdes que brincam com os dedos dos seus pés que flutuam, braços em cruz, e o tempo para. A eternidade. 

Uma perturbação, alguma coisa que vibra, alto, que ecoa noutras pedras das dunas, que atravessa o vento no areal, passa pelas poucas ervas e as agita. Alguém que sente medo, um rato, um lagarto, gaivotas a criar que se enervam com intrusos e chamam pelas crias. 

Não abre os olhos, apenas volta ao início, ali na pedra. É assim que melhor se percebe o que em verdade interessa. Um guincho agudo, penetrante, alguém que grita livre, dona de si, poderosa, liberta por fim. Mais gritos primitivos ao longe, saudações, reconhece uma voz presente, a sua companheira, reconhece-a sempre em qualquer lugar, com qualquer cara, em qualquer era. Que faz ali no alto? São águias livres, agora vê às claras, andam em círculo a saudarem-se entre elas. Vai ir numa viagem, procuram companheiros.

Não é boa ideia entrar na roda, sente-se, sabe-se uma rola apenas, tímida, pouca coisa frente às águias, mas verdadeira. Deixa as águias passarem, são muitas, ele não entra nesse sonho, apenas vê um piscar de olhos, uma saudação alegre, uma mostra de alegria, olha quem sou, maravilha-te comigo, connosco, contigo!

Vejo tanta luz, tanta potência, águia poderosa, o céu é teu voa alto, vai! Aqui fica sempre alguém à espera deliciado em ver como dominas o espaço, viajas como nunca, de olhos abertos, olhos que vasculham almas, que curam, que me amam, que eu amo num amor novinho em folha. Vens e vais, partes feliz e ficas, eu sei, também contente, se for para ser, na terra.  

Sozinho de novo, ouve cantar os pombos, os pardais, bandadas de andorinhão-preto a caçar mosquitos, a namorar, com os seu guinchinhos.

É.

Na praia também é primavera.

Mas como a rola,

como a rola ninguém canta.

Tem sede, lembra que há na praia um regato, e no regato contra as dunas uma fonte de águas limpas. Abre os olhos e caminha, avança entre rajadas de areias sem força que escrevem ondas nas dunas, no areal. Rabiscos que parecem letras. Que se aparecem como letras. Intui, imagina frases escritas esbatidas pelo ar, receitas dispersas às que faltam partes pequenas. Faz p rar o relógi, você saabe cooooommo. É temp d amar co s olhos abbertos. Deix s lvar você cnsegue. Não pens sinta avanc, corrrrra, viaaj, voooooooe. Silênc é só o silêncio onnnnnnnde está a verdad, ali s encontr, o nad é seu, o vác o, a entrega. 

Sede, caminha pelas frases deixando lá a sua pegada firme, chega à nascente, quem a achou tinha sede, e bebe.

Água fresca, revive, e o sol brilha mais baixo, cor-de-laranja, maior a gradação das cores, todo luminoso e belo ao seu redor, enquanto desce num entardecer alongado. O tempo não obedece a qualquer regra. Dentro dele água, sol, areia, vento e mar, o globo inteiro visto desde fora, a terra toda. Dois pardais a cantar, depois de molhar a garganta, pousam os dois numa palha e ali se balançam. Distraído de tudo contempla-os. Nesse momento uma presença amiga chega, lá está ela, entra na sua mente e lhe fala. Você também sabe voar, não tenha medo, olhe quem eu sou, sou sua amiga, voe alto amigo, queremos vê-lo, a si, brilhar. É tempo de vermos todos como você brilha a céu aberto.

Olhe sonhador para o mundo como se tudo fosse outra vez novo, possível, aberto, pleno. 

O seu olhar paira pela praia, pelas dunas, e para-se ao longe, no fim da praia. Umas pedras fecham o areal e por cima das pedras um prado irlandês ou do Cabo da Roca ou Fisterra (não interessa) um prado desses sempre com a relva cortada que não cresce mais, essa erva verde do atlântico banhada em sal. Cheio de pérolas brancas, camarinhas, lágrimas da rainha, e lá está ele a subir,  já foi veloz vai até o barranco, dedos dos pés de fora coração a bater forte, ar na cara, calma, respira. Uma falésia de altura, ao fundo o mar e nas rochas lá embaixo pequenas como formigas, as sereias: vem, vem ter connosco, atira-te, vem ouvir o mar nas rochas, o nosso canto, vem! 

Olha ao sol de frente e lá na sua direita um pequeno ponto se intui, minúsculo, no céu, pisca os olhos aguça o olhar, e não vê o que é, não consegue. Mas de repente sabe o que tem de fazer. Sorri, fecha os olhos e agora sim, tudo começa. 

Ele no alto da falésia, o vento a soprar entre os dedos dos pés, abre os braços e as sereias, enervadas, já perceberam. Lá do fundo gritam canções num som agudo irritante, ele move uma mão e a voz se congela. O som do mar que cresce bravo, salpica-o com nuvens de espuma mas ele não se mexe, espera.

Um lobo negro, sujo, enorme, assustador, de olhos vermelhos de sangue, fareja ao longe, viaja veloz. É a ele quem procura, quer encontrá-lo, sentiu a sua presença e sabe onde está, apressa-se agora que está deste lado para alcançá-lo. Mas ele não fica à espera, escolhe ignorá-lo e nem se interessa, constroi com a outra mão um muro de gelo, grosso e elevado, gigante, a fechar o prado ao seu redor. Um sorriso congelado visto do espaço, uma meia-lua perfeita, e ele, no centro, espera. O mar se acalma, abrem-se as águas e lá, dona de si, a sair da sua morada a brilhar como uma pérola, lá está ela, com um traje azul e branco de verão, pés descalços, como uma mulher grega, de braços abertos mãos próximas à frente ou a segurar alguma coisa. Não se percebe bem, sai luz das suas mãos, branca, ou talvez é vapor que brilha ao sol, dum café na mão a fumegar? É. O aroma árabe tudo impregna. Nada diz, olham-se, reconhecem-se através das eras, e a sorrir, esperam. Passa o tempo e um pequeno movimento muda a cena. Ela, apenas olha um instante, um só segundo para o céu e ele, curioso, também olha. O céu. Lá está o sol no alto e tem qualquer coisa, uma nódoa, um pequeno ponto negro, muito longe, mar adentro, à direita. Lembra o porque da viagem, a presença real do outro lado.

Agora é simples ver, reconhece-a a voar na sua grandeza. Águia real nunca teria imaginado, ou sim claro, também ela, e que bem lhe assenta a farda.

Sente asas a crescer por trás dos braços, o seu corpo enche-se de penas. Atira-se águia também ele e vai. O ar na cara, nos braços-asas, o olhar a tornar-se novo, é tudo novo, ouvido e vista até onde a imaginação alcança. Vê tudo, atravessa a pele e a alma dos seres vivos. Vê nas sombras que fazem as rochas pequenos animais que pressentem o seu poder a tremer de medo. Nada escapa agora ao seu olhar.

Até ao fundo do mar, vê minhocas, pulgas na areia... fecha os braços e atira-se a pico, passa por cima das rochas, das sereias, quebra-se o muro de gelo, o lobo rosna enervado, e o mar, o mar. A imensidão do mar à sua frente. O som do mar ecoa como nunca e chama por ele, é o mais intenso clamor que nunca tenha ouvido. E o mar, esse sim contente e calmo, a conter poderoso o seu rugido, recebe-o com uma salva de ondas a quebrar-se contra as rochas. E cá chegam os golfinhos a fazerem festas em arco como pano de fundo. Voa longe e ali no horizonte o respirar feliz, a saudar, duma baleia. É tudo tão belo enquanto se aproxima que fica emocionado, mas não se demora mais tem destino à vista, quer ir é ter com ela.

Pairam no céu numa roda mansa, a bater as asas, a rodar enquanto falam

-Oi.

-Oi.

-Nem sei o que dizer.... Gosto de ti.

-Gostava mais das tuas palavras quando ficavas no súbtil.

Calam.

Nem um nem o outro sabem o que fazer, qual o saúdo, como levar a conversa. Ele quer tomar as suas mãos, tocar as pontas dos dedos, ela não sustenta o olhar, que desce, olham os dois pro mar embaixo, como colegiais, aflitos ambos. Fica corado, atrapalha-se, nem sabe por onde começar. Aquele abraço? Diz numa voz pouco firme.

Ela anui, com dúvidas, a cara um pouco de lado.

E de repente sorri meiga, poderosa, dona de si. No olhar dela um relâmpago, uma luz, uma faísca de apenas um segundo, uma qualquer ideia viva, um olhar maroto, inteligente. E justo antes do abraço, vira o corpo, gira 180 graus, e como uma seta sai veloz da cena. Ouve-se ao longe, ou dentro, bem dentro, uma voz firme, feminina, divertida: A viagem está só a começar meu lindo amigo, vê se me alcanças! Mas olha as tuas forças, 

só agora é que começas a voar,

tem cautela

vê se não te cansas!....

10
Mar21

Qualquer coisa como intimidade

contosdoeste

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Ele sai de novo em bicicleta mas o sol hoje não veio nem virá.

Acelera o pedalar

rápido,

mais rápido, mais rápido ainda.

Hoje não se encontra nos seus eixos, dúvidas, medos, esgotado, exausto

precisa fugir, não sabe o porquê, asinha. 

Bem,

assim está melhor,

longe de casa,

Corrida veloz, ar na cara.

Sobe e desce pequenas colinas

faz frio e um ar húmido que penetra nos ossos escorre pelo corpo todo. 

Vai agora no planalto desde há uma meia hora num pedalar pacífico mas ali no horizonte enxerga-se já uma descida 

íngreme, que parece não ter fim. Começa a descida, é tudo a puxar dos freios cada pouco e sem pedalar o som da corrente acompanha o percurso.

A pista vai-se fechando de árvores enquanto ele avança e aos poucos entra numa nova floresta. 

Mais frio, mais,

curvas

e voltas e mais voltas, 

a encosta é a pino.

O arvoredo já se fecha. 

Ouve-se um trovão ao longe. Fica ainda tudo mais frio.

O seu bafo é agora branco, espesso.

Já está perto do rio, tem de haver um rio lá embaixo, há sempre um rio.

Surge uma pedra pequena, de ponta, não dá tempo a contornar.

O estouro, a queda, uma roda que se estraga 

uma outra pedra

grande

quebra o capacete e como num filme, as imagens da queda passam a câmara lenta e tudo fica negro.

Acorda, dor de cabeça, é de noite, não se ouve alma alguma. Um rego próximo a correr forte que, este sim, gorgulha forte, a crescer, chuva torrencial, trovões, tão escuro que quase parece noite... E nem passava de meio-dia quando saiu. Ou será já de noite? Tem numa perna uma grande dor, coxeia, assaduras e picos das silvas pelos braços, um joelho esfolado,  a roupa, a pele, rasgada.

Arrasta a perna entre as ervas encosta a bicicleta na berma, o veículo inútil com a roda furada ali fica. Pensa nas alternativas no fundo desse vale. Meio tonto abriga-se como pode. Procura com o olhar sem esperança e acha, pode ser? Um refúgio pequenino, por baixo dumas pedras elevadas, num saliente do terreno. Senta-se ali nesse aconchego no chão, enchoupado, com frio, bebe uma pouca água e deixa vagar os seus pensamentos e começam eles também em enxurrada...  

Quando nasces pertences

e tudo faz sentido,

os valores, as violências,

as regras da tua pequena tribo.

Depois ao cresceres acreditas

firme

nuns valores,

entras num coletivo,

seja qual for, não interessa,

aí vocês são especiais, autênticos, modernos. Acham-se na moda, ou na marginalidade atrativa. Moteiros, gentes do Ioga, esquerda, lutas sociais, não interessa....  é tudo na mesma.

Acreditam estar a mudar o mundo, ou talvez descer do barulho?

Talvez apenas não queiram ser cúmplices, o que já é alguma coisa.

São uma unidade com outros, revolucionários, iluminados, felizes, sentem-se parte, contentes.

Talvez tomem drogas, ou leiam livros, façam músicas ou vejam grandes filmes ou usem uma língua proibida. Ou tenham muito sexo, aventuras, viagens. Desportos radicais, praias, vivam a noite.

Andar de mota, correr, ou ler constantemente,

qual a sua adição mais sugestiva?

E sobre todas as coisas a procura dum sentido pessoal, coletivo, ser especiais, diferentes, verdadeiros. Que procuramos fora quando e só fugir das carências?

Como consertar o mundo com a alma em mil pedaços?

Crianças a comandar navios nucleares, ousados, atrevidos, inconscientes. Que nem sabem mudar fraldas e a lutar em guerras de classes, paz entre povos, e quem fez hoje o jantar às crianças?

cgtp, ami,

apu, cig,

Restos da ditadura que ainda fede

Mário Branco,

Mulheres em negro

insubmissas

Vilar Ponte, Homens da luta,

Insubmissos presos

Rosalia, as três Marias,

feministas

mulheres revolucionárias,

capitães dum abril que nunca chega. 

Maria da Fonte, a Patuleia, sempre a perda

O fracasso, a eterna espera

Pra que eu vença tu te deitas

Todos sabemos já que nunca venceremos nós

E não, nunca poderemos pagar a vossa fome de outrora, nossos ancestros

Fome de liberdade e fome simplesmente fome.

Fome, quatro letras grandes como todo um planeta.

Na frente uma estrela, e no bico...

pouca coisa, um cantar,

Músicas que nos confortam, confirmam, conformam, contornam, constroem, envolvem.

O foucinho, o martelo,

faixa azul a navegar

Venho dizer-vos que não tenho medo

Ferreiros dum mundo melhor

A verdade é mais forte que as algemas

Samsara que nos atrapa

É a Roda da vida, budista

Que quer cegar o amor todo, à nossa vista

Almas gémeas moram em qualquer cidade

E é na partilha livre que se reencontram, abraçam, amam.

Estudantes-trabalhadores,

Repúblicas, as barracas

Tenho mais de mil amigos

que grande fantasia

Aqui não me sinto só

Reforma agrária,

aliança camponesa e operária

Comuneiros

A parcelária sempre atrassada

Monte em mão comum

Redes de apoio mútuo

Tudo quebrado, 

eucaliptos e ventoinhas, tudo contaminado.

Querem maior reforma agrária, maior layout?

Nossa primeira tarefa é ocupar toda a terra improdutiva e nisso andam. São sempre mais rápidos do que nós.

Agora ser camponês é só para empresário e pra ter dívidas eternas.

Esperamos contra toda esperança

Bloco de comunistas,

Partidos da esquerda verdadeira.

Bases constitucionais,

MFA

quantos sonhos herdados,

quanta dor oculta,

e como pesam.

Ambientalistas,

anarco-veganos

ou simplesmente

eis o nome, agora chega,

independentistas na Europa

Soberania contra o fascismo

que alastra pela Europa

Eternos navegantes sem cais

a navegar à bolina

galegos ainda.

Samsara que nos atrapa

É a Roda da vida, budista

Que quer cegar o amor todo, à nossa vista

Almas gémeas moram em qualquer cidade

E é na partilha livre que se reencontram, abraçam, amam.

Livre determinação é a nossa dor coletiva

Qualquer coisa tão íntima, profunda

impossível não trazer para a partilha

Sou espanhol? Sou português? 

O que dizer, galegos?

Vivos ainda contra vento e maré

num reino medieval

com o peito nu, a testa erguida frente ao mar

a suportar tempestades de sal em silêncio

fugindo do vento do leste

que ule que cheira

Mal.

Que cheira que fede.

Que fede

que não mais se aguenta.

A usarmos línguas proibidas,

Não somos nada

escritas proibidas,

Nunca seremos nada,

leituras proibidas,

lembranças proibidas,

À parte disso temos dentro de nós todos os sonhos do mundo,

Sentimentos de pertença proscritos

passagens de fronteiras interditas.

Vê-se muito bem na mesma leira,

Portugal batatas, Espanha cebolas,

se não acreditarem em mim, procurem na raia,

ouvi contar a um grande amigo,

enfim...

na raia sinte-se bem o pouco que é um estado.

A mesma língua, as mesmas gentes, os mesmos cantos,

diferentes comandos,

Diferentes afetos, sonhos,

legados, projetos, anseios,

vergonhas, medos.

Como contornar isto em qualquer poema sobre mim, sobre nós, marinheiros a navegar no Atlântico, a bogar, morar, amar, namorar, a sonhar em mares-de-palha encontrados.

Afinal em tudo estamos no esquema, pertença aos perdedores,

a quem fracassa,

não sermos mais do que os restos dos restos dos restos da história

sempre contada por outros.

A fruta continua e nós a comer latas de sardinha frias, molhados,

fato macaco gasto, no andaime baixo a chuva, na leira com o sacho baixo a chuva, no escritório de janela aberta lágrimas nos olhos a ver a chuva, em casa, homeworking sem dinheiro para arranjar o telhado e a entrar a chuva.

Conciliação é apenas de novo mulheres invisíveis que de novo estão em casa, sozinhas e crianças sem escola nem partilhas.

Lay-off é só um lay-out bem tapadinho, ou que se pensavam?

I´m sure, of course,  off-shore, pensaram na tradução? Longe da costa, inacreditável. Lay, Lie, Liars lawyers

 pronto,assim fica tudo tintim por tintim.

Palabrincam connosco todo o dia

e além de trabalhar nada se passa,

palavras doem mais quando traduzidas.

Homens, mulheres que lutam, marginais

A ouvir a rádio mais perto do mar 

Estrangeiros na própria terra,

De aluguel nas próprias casas,

Sempre à prova, no mês primeiro, temporários no mesmo trabalho

 de  há quinze anos,

Recibos verdes de miséria

quanto sacrifício, quanta energia gasta. Não há caminho para a paz, quer dizer, entendam-me,

A paz é o silêncio. 

E o silêncio é o caminho em que, ao ficares sozinho, o medo te atravessa.

Samsara que nos atrapa

É a Roda da vida, budista

Que quer cegar o amor todo, à nossa vista

Almas gémeas moram em qualquer cidade

E é na partilha livre que se reencontram, abraçam, amam.

Quantas pessoas a fugirem do silêncio, a correrem para o encontro, a encherem como for o seu tempo. Cá vamos todos a sobreviver à custa do corpo, da saúde, da própria vida, das infâncias, do tempo. Escravos modernos.

E sozinhos.

Cada um no seu cantinho.

Tarde de mais é já um exagero para a ousadia de olhar sem se mexer, em silêncio.

Cedo de mais você não está pronto, não percebe, é como quem diz um rapaz muito pequeno.

Afinal a vida muda talvez e só com os acontecimentos. Deviam perguntar antes do que os anos: Quantos filhos? Quantas mortes? Quantos amigos perdidos? Quantas doenças, quantas dores? Quantos corações? Quantas vezes iludido? Quanto é que aprendeste meu amigo?

Quantas pessoas é possível amar ao mesmo tempo? Quantas?

O tempo passa rápido de mais?

Ou devagar de mais se for para nós enfrentar a ele.

Já acreditei em tudo e não é verdade nada. 

Disciplina e sacrifício, cristãos

Disciplina e compromisso,comunistas

Liberdade e autogestão, libertários

Entrega, entrega, entrega

Trabalho, trabalho, trabalho

um presente de luta

 por um futuro que nunca chega.

Paul Lafargue não era idiota, mas sim um palhaço.

Por baixo do asfalto há apenas pedras, confiram se quiserem. 

Solidão ao poder, a anielação no comando

quebraram-se todas as redes tecidas por milénios.

Deserto verde, águas estagnadas, herbicidas.

E não, não se pode ajudar os outros sem cuidar de um próprio, soube sempre muito bem.

A vida nos mostra o caminho em embrulhos de cetim que logo esquecemos

ou em socos que já nunca olvidaremos.

O encontro com um propósito, um próprio, o mais difícil, virá pra si também com violência, não há outra maneira: viver consigo. Sozinho. Mais nada. Aceite. Sermos autênticos, o que quer que isso seja. E só assim será alguém que valha a pena para você mesmo.

A alegria de observar o passado, olhar atrás, ficar bem com a caminhada

só pode vir da paz de habitarmos nós próprios a nossa morada.

Que trocarias tu ó moribundo que já olhaste a morte aos olhos?

Talvez palavras altas de mais, quiçá alguns gestos?

Brutalidade? Talvez silêncios?

é terrífica a sua força.

A dor de se sentir ignorado?

Abraços que ficaram sem se dar? Podem ser beijos?

Olho em paz àquilo que fui, como era criança até mesmo ontem, como a ansiedade me vencia, como agachar carências no trabalho, viver para o trabalho, o relato, a coerência,o compromisso o compromisso, sempre o compromisso, com uma imagem nunca questionada.

E depois o quê? O nada.

 

 

E depois do nada, a trovoada, uma enxurrada intensa como não houve outra igual,

que lave os corações, as vergonhas os medos.

E quando se for embora o varredor de tristezas,

o aguaceiro a lavar as almas,

a primavera.

 

E quando vier a primavera,

se eu ainda estiver vivo,

será a cantar e com uma taça de vinho

que receberemos o sol, as flores florirão,

e as árvores nos darão a sombra necessária aos abraços amigos.

Sinto uma alegria enorme ao pensar que a minha vida

é para mim que tem verdadeira importância e isso é suficiente.

Quando vier a primavera,

se tiver sorte, verdadeira sorte,

o Valdemar Santos recitará nesse dia o meu poema, talvez a sair no youtube ou assim,

e eu viveria contente,

aqui, onde ninguem me põe a pata encima

aqui neste lugar dentro de mim

em que a terra de onde venho é só onde moro

em que a língua que utilizo não é interdita,

estrangeira ou um sonho

e este lugar tem nome,  onde o sol vence

aqui minhas amigas onde eu ganho

e construo de novo e sou outra vez o dono.

Aqui quando vier a primavera,

eu sei que ainda estaremos vivos,

e será a cantar alegres pelo vinho

que receberemos o novo sol de agosto

e se for para ser, que seja agora,

já no presente,

ter a eternidade para nós todos

pois quem decide é sempre a vontade

Sobre toda e quaisquer amizades sinceras.

E há lugar neste recanto para as amizades todas

sem nunca obliterar nada,

Sempre assim,

Mesa posta, sol no alto, alegre

Pão e sobre a mesa vinhos

Pois nossa é a terra que já tem nome, é a terra, a terra dos passarinhos.

 

tuutuuu, um apito, por cima da trovoada.... tttttuuuuu. um apito de carrinha de caixa aberta portuguesa a vasculhar a estrada....um megafone humano, uma voz grossa, um homem, um amigo a gritar por ele, já quase afónico. Sai do seu esconderijo, toca a campainha da bicicleta, grita, berra um berro grande.

Aqui!

Chegam. Um abraço a quebrar quase as costelas. Água por cima de nós que nos entra pelos olhos, olhar embaciado, abraços, mãos pelos ombros, amigos, camaradas. Uma garrafa de álcol que queima, faz tossir, mas que aquece. Brincadeiras, risos, amizade sincera. Atiram para a parte de trás a bicicleta. Vão lá mais pessoas conhecidas, amigas.

Viemos-te visitar de surpresa e não estavas lá em casa. Que mau aspecto tens, bebe mais, troca a roupa, tens aí uma muda e vamos é já para casa, anda, despacha-te!

Ah, e tu nem sabes ainda, pois não? Tens ali alguém na porta à espera!

Como? Quem será? Sei lá, é uma amiga portuguesa, que anda à tua procura e tu aqui neste boco a fazer sabe-se lá o que além de apanhares um constipado. Como não vieste a andar? Há coisas mais importantes! deixaras a bicicleta atrás... Atende ao que interessa, anda lá homem...

Que grande a bebedeira, dois anfitriões que por fim se entenderam de mãos dadas, com o anfitrião em casa sentado ao lado da anfitriã, machucado, sem se mexer, a rir das anedotas, a cantar, a beber numa cadeira e a olhar frente a eles, olhos nos olhos, muito alegres à sua nova amiga, por vez primeira em frente, mas à mesa. Entre os amigos, já descontraída, como se fossem todos de velho conhecidos, não compreende como, nem porque, mas lá está ela também, e também a rir contente com os amigos.

Há coisas doutras eras, bem profundas que nos ligam, mas quem entende o quê, o como, o porquê? Qual a razão de tão profunda ligação?

Sei lá,

love is back,

a música que soa na rádio de Cascais

love is back,

e envolve o ambiente.

E rir, rir de alegria partilhada pela vivência em que estão todos presentes, cientes.

E ali pertinho, pois já comeram antes, noutra sala os filhos. A brincar ainda os pequeninos, e os grandes como sempre no seu mundo próprio a sentirem-se os modernos e a nós, antigos...

Quantos amores podemos ter numa mesma vida ao mesmo tempo e tão diferentes? 

Agora deixem dar um bom conselho pois não é meu, eu só repito, que sempre se dão de graça. Sei, inútil dormir que há dores que não passam. Mas é breve, apenas isto:não importa onde é que você se encontrou antes ou agora, com a sua tribo, ou com qualquer um verdadeiro amigo, nem o longe que agora estiverem na verdade. Sabem de si, estão consigo. Nunca estamos sós nos maus momentos, há sempre à sua procura os bons amigos. E sempre há também novas alegrias, novos encontros, novas ligações desconhecidas. Trilhos nunca andados, almas que se encontram, que se abrigam. É talvez termos apenas a coragem sem vergonha e manter o fio.

Apitem sem vergonhas ou reticências que eles logo vêm, toquem amigas, amigos, companheiros uma e mil vezes a campainha. A alma une mais do que as ideias.

Samsara que nos atrapa,

não é apenas isto a vida.

Que quer cegar o amor todo, à nossa vista. Almas gémeas moram em qualquer cidade

E abraços verdadeiros nunca falham.

São esses que se cuidam uns aos outros, não esqueçam. Também você é parte dessa rede e toda e qualquer alma que consigo se enterneça.

Humildemente acho que,

talvez,

eventualmente,

é capaz de serem estes sentimentos, pensamentos,

sentimentos,

pensimentos

 emoções,

pensimões

que interessam.

Um grande fundo abraço a quem compreenda

e leia

Rodas que nos atrapam

Bem à vista

Há almas gémeas em qualquer cidade

Que se falam

E é na partilha amável,

Opulenta e subtil,

no fundo abraço 

A tecer coroas de flores

Usando a flor do Lácio

Que na sua livre escrita

 continuam

06
Mar21

Pó de estrelas

contosdoeste

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Recebo com alegria o sabermo-nos 

estrelas.

Hélio e hidrogénio, num só corpo todo junto.

No céu límpido da noite, nessa hora em que as coisas importantes não escapam ao nosso coração aberto, somos parte dum mesmo sonho

 cheio de vida

alegre, corajoso, valente

 e isso basta-nos.

A maior prenda de amor pode ser talvez

uma simples fotografia lado a lado,

Ou sentir-se livres finalmente

num banquinho qualquer.

Quem sabe, um abraço

Ou ver no que isto dá

Se quisermos pode ser sempre,

pois afinal, quem decide,

no presente, é a vontade.

Antares pode parecer só uma estrela, mas ao contrário do deus da guerra 

são dois astros completos A e B que brilham tanto

que a sua luz nos cega,

ocultando ao olhar inexperiente

o amor que cada um por si carrega.

Quantas estrelas a brilhar que no céu se abraçam, 

E escrevem poemas ou textos cheios de amor.

Amar.

Não é a fim de contas esse o único verbo, o único tema, de todo e qualquer poema?

Quantos beijos e emoções que se entregam!

Amantes de olhos bem abertos, para todo o sempre presentes. Eternos enquanto o nosso caminho dure

Olham-se, imaginam, vivem o agora, tocam-se a pele em sonhos

e namoram.

Não pode haver maior amor do que se entender

por letras que se escrevem,

canções que nos invadem,

silêncios plenos de partilha.

Falar sem palavras é tudo quanto baste.

Nada que um olhar não diga tem

nos momentos certos

 verdadeira importância.

Não quero parar o ponteiro do relógio, nem voltar atrás.

Quero ver como avança

com plena consciência,

ouvir o som do relógio soar.

Tique-taque, tique-taque

a eternidade é olhar agora a força de qualquer coração.

Amor verdadeiro

 é como quisermos

E se tem de ser, 

 que seja agora

Por se não fosse suficiente, é fim de semana, por isso não há alarmes, nem acordar cedo,

nem pressas ou crianças e autocarros,  nem escolas ou trabalhos,

apenas nós.

Coração nunca pára,

e

o que tem de ser tem muita força.

Bum bum, bum bum,

lateja sangue limpo pelas artérias 

cheio de oxigénio, de vida,

primavera em flor.

Imagens que me invadem,

A flor da laranjeira

Óminhá...

lindarraiana.

Respiro fundo e o ar me traz tudo que eu preciso.

O cheiro do teu cabelo, a minha mão, os meus dedos pousados em ti que te aquecem a pele, que me aqueces os pés.

O silêncio preenche o meu ser e me abraça.

De conchinha, eu sei que o sono logo nos irá vencer

 e sinto um calor tão lindo no meu peito, nos joelhos, nas tuas coxas,

juntos na cama os dois,

calor, amor, candor, puro afecto de partilhar o leito que me invade...

Sou, estou,

em paz.

E isso é tudo que qualquer um

pode precisar.

Amor, amar,

Caminhar pelas águas

mar a refletir estrelas

flutuar no espaço

mergulhar também no teu corpo em sonhos.

Navegar 

Companheira,

nunca me fui,

só que agora sei quem sou.

Não tenhas medo de mim,

Somos estrelas livres a dançar no firmamento,

como nunca antes fizemos.

Deixa-me dizer apenas isto, recebe-o, saboreia-o, limpa-o de qualquer medo a derrapar, a perder o passo,

parar a dança

ou tropeçar: 

Para ti, para mim próprio,

sem qualquer medo

Talvez pela primeira vez

Cheio de orgulho e amor próprio

Sou pra mim, pra sempre, Peugeot 205 novinho em folha

Plenamente limpo de misérias e de lixos, consciente do motor

Mas deixa também aclarar a voz pra dizer quanto baste

eu,

ehem,

cof cof, ehem

É uma frase simples, sem grandes enfeites que diz tudo:

Eu se for para viajar,

num 205, contigo

Até aonde quisermos

Até onde nós nos atrevermos 

Talvez pela primeira vez

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