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contos d´oeste

contos d´oeste

25

18
Abr21

Através da noite eu voo

contosdoeste

janelaaoexterior.png

De volta no meu quarto você e o próprio tempo desapareceram e eu sinto-me pequenino enquanto percebo como o meu pequeno caderno cresce, enormemente

ou sou eu que talvez, minguo, perante forças que me utilizam para vir à tona, desconheço.

As letras que escrevi retorcem-se, passam do preto ao prateado e como pequenas cobras azuladas e brilhantes na noite já se movimentam com vida própria e logo, muito logo, se desprendem do papel.

Ophidias, como num sonho, uma por uma as linhas todas, saem a serpentear num ziguezague hipnóptico pela janela, numa cena que vivo, verdadeira como nunca, e atravessam o vidro, num silêncio absoluto, que tudo invade e se impõe, tal e como o silêncio domina o mundo quando assistimos ao vôo noturno duma coruja, onyria a bater poderosa as suas asas, pano de fundo que nesse momento acontece também mesmo à minha frente por diante da lua.

É a última das serpes que me sussurra: vem connossssssco... 

Aproximo-me à janela e toco-a com a palma da mão. Não é um vidro, é antes uma geleia, ou uma bolha de sabão ainda não soprada na mão duma criança.

Não sei aonde você terá ido, mas eu irei ter lá consigo. Irei até onde você estiver, curioso, convicto, decidido. Sei o caminho, acho eu, ou nisso coloco uma vontade alegre, confiante, o melhor dos meus sorrisos, a minha verdadeira fé naquilo que sou e sinto com o corpo, a cabeça, o coração.

Não tenho dúvidas nem medo, estico os braços à frente e atiro-me, mergulho, perpasso, desvaneço, não tenho verbo para o como atravesso o meu próprio coração e vou janela afora ao seu encontro. 

Atravesso o espelho da janela e, através da noite, voo

15
Abr21

Pastor de sonhos

contosdoeste

prado.jpg

 

Ouço como você está já a respirar fundo, adormecida ao meu lado e é tudo tão calmo, tanta a paz que o aroma que transporta invade-me, e fico a respirar as fragâncias do momento: calmaria, cheiro da relva cortada, calor de verão antecipado, cães da aldeia a latir na noite que nos acompanham, numa cadência milenar, protetores, enquanto me entrego ao nada ser, nada fazer.

Sonho.

e em sonhos sou aquele

que aqui está,

o boi domado a remoer num prado,

o garrano a dormitar de pé, encostado a um carvalho, sombra, apoio, abrigo face ao sol que cai a pino sobre a erva .

ser-i-estar,

presença

o olho de vaca, um poço sem fundo, a língua que sega a relva com o mesmo som do foucinho. Ovelhas lá embaixo balem a chamar pelas crias, a temer sempre a surpresa do lobo. Ao meu lado a cabra, despreocupada, o chocalho a tinir enquanto se levanta sobre duas patas, a procura dos rebentos mais jovens duma silva.

Há mais: abelhas a zunir nos seus afazeres, sempre apressadas de aqui pra acolá, grilos, gafanhotos e a erva verde que ainda a transpirar deixa atrás o orvalho da manhã.

Eu com uma palha na boca, um caderno nos joelhos, caneta na mão, sonhadora, à sombra dum castanheiro centenário.

Cá está, tudo 

10.000 anos de história

a vida, a morte,

quem fomos, você e eu,

quem eu sou.

Continuo a descobrir você

a descobrir-me eu próprio.

Sei que partirei com o rebanho em direção ao pôr-do-sol,

pastor do neolítico  

viajante, peregrino que já não busca respostas

observador de nuvens de formas caprichosas

pastor de sonhos, entregue,

presente,

ausente de tudo o mais que a existência,

quebrando a linha do tempo e do trabalho

 Cá esta tudo presente como nunca, 

10.000 anos de história mesmo à nossa frente,

com só acariciarmos a palma duma mão com o indicador da outra: 

a vida, a morte

a dualidade

eu,

você e eu,

a singularidade,

o nada.

15
Abr21

À Janela

contosdoeste

luajupiter.png

 

Da minha janela, observo.

A lua no alto

como um sorriso pintado por uma criança

como um pequeno movimento na minha cara

enquanto os meus olhos faiscam, sorriem também.

Brilham a pensar em você,

a olhar nos olhos a você

quando nos deitamos juntos à noitinha, 

após um dia de trabalhos.

À luz ténue do candeeiro uma certeza me invade:

que sorte que eu tive na vida,

soube por fim, parar 

e mais nada fazer além de procurar,

um lugar para mim,

sem me mexer.

Sentado, quietinho como uma rã, sem pressa,

vejo dúvidas a resolverem-se sozinhas

sem eu nada perguntar.

Fico a olhar o céu limpo em que aos poucos desabrocham, a cintilar, pirilampos

pequenininhos, verde, azul, brancos e vermelhos, amarelo pálido, cor de amêndoa, como os teus olhos.

Não foi sorte não, o ter eu batido consigo por mero acaso numa festa das letras. Poesia e música nas veias, que nos fez dançar, beber, refrescar-nos, rebeldes recitando poesia sem mordaças. Não, não houve máscaras no nosso encontro e foi assim, numa versão jovem e confiante, que as nossas almas se avistaram pela vez primeira.

Eu sei que o amor é uma coisa boa, e sou eu que hoje pressinto que boarei à moda do norte, até você, nesta viagem, de alma limpa, inocente e de olhar renovado e experiente. Escrevo de olhos fechados, às escuras comigo próprio, este meu poema para nós, romanceado, e é neste mesmo ponto, na última das vírgulas que irei escrever hoje (ei-la que já lá vem, pressinto-a e deixo que se aproxime, sem pressa, acompanhada dum pequeno pontinho) onde sei que pousarei a minha caneta.

A minha escrita cala, nada diz da sua companhia, mas sem poder evitá-lo esclarece-me, tranquilizadora: saiba, o ponto é para não se sentir uma vírgula no fim dum texto tão sozinha.

Calo também eu e continuo a rabiscar este final apenas para contar, enquanto tu já dormes, que é aqui, nestas linhas, que me entrego, de coração aberto , ao nosso abraço, a você, enquanto eu também me deito, ao seu lado, ponto e vírgula sonhador, em silêncio;

 

 

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