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contos d´oeste

Aprendiz & Caminhante

contos d´oeste

31
Mai21

Borboletas como beijos

contosdoeste

 

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Borboletas como beijos 

eu te envio

enquanto sonho com um passeio a pé do mar sereno,

Um fim de semana

Em silêncio, por inteiro.

Borboletas como beijos 

nos teus olhos 

A acordarmos para a vida dentre os sonhos.

mas você já sabe, não sabe?

Saiba agora,do que eu

Gosto é de imaginar os nossos corpos 

como gatos

Que se esticam ao uníssono

Bem juntinhos num ilhéu

A sós,  a nu, à luz do frio da manhã que penetra o cortinado insuante.

Gosto, sim, dos teus dedos,

e mais das gemas desses dedos que me queimam

Nos mamilos 

Teus e meus,

com paixão ardente o leito

Um frémito de união que alastra 

do centro da barriga até ao peito.

Quero ir bem ao fundo contigo

Onde for, donde vieres, junto a mim, novamente, aonde quiseres,

Com amor até na corte 

é o lugar certo.

Estou pronto à aventura 

sem limites

E é por isso que te envio

mulher da motosserra e da montanha,

Da aguarela, o matafrangos e os poemas,

mulher sábia da paz serena,

dos sonhos 

                      que vivemos,

Borboletas 

                    como beijos.

Também sou homem novo

que veio da mata, da montanha, do trabalho manual,

Desarmado

Aprendi a perder para ganhar

E volto agora de poemas na mão

E é por isso que te envio

Poemas

              como beijos

Borboletas

                da barriga aos cotovelos

E morangos com natas e laranja

Chocolates, queijo com marmelo,

Aquilo de mais simples, verdadeiro,

Compromisso e liberdade

Com um mesmo

O carinho e a amizade

Plenamente

E Cafuné,

até dormires,

no cabelo

 

27
Mai21

O belo acaso

contosdoeste

IMG_20210527_130327.jpg

 

(continua)

Uma lembrança humana nasce dentro de mim. Convencido, partilho a resposta que produz asinha cócegas de alegria em todos os nós da comunidade:

"Chove, para que eu sonhe".

"Chove, para que eu sonhe". Sim, temos isso em comum e por um momento o arvoredo se surpreende com a ideia de existirem homens sábios. Nunca teriamos imaginado! Uma mensagem corre, alastra pelas conexões das raízes e salta de ramo em ramo até o mais profundo da Devesa. Quem é? Quem é? Quem fala assim como resposta? "Aqui sente-se bem o muito que é uma floresta. Eu conheci esse homem e não eras tu". O grande teixo milenar, rígido guardião da paz, acorda, entra pelo meu ser adentro e vasculha o meu coração. Quem és tu? Como entraste na união sem eu ter percebido?

Sou um simples aprendiz, um convidado, diz o homem atirado violentamente para um outro plano da existência num piscar de olhos. Numa clareira primigénia, aquando ainda nem a lua tinha nascido, sob estrelas há muito desaparecidas os dois a sós olham-se desafiantes. O seu corpo é o dum roedor minúsculo, um simples ratinho frente a um gigante arbóreo, monstruoso, de boca aberta e olhos como poço sem fundo. Esse olhar agarra-o e engole-o, mergulha-o numas águas negras, gélidas que lhe impedem respirar. Prestes a desfalecer uma mão invisível agarra-o pelo pescoço e atira-o contra as estrelas.

Ratinho, como vieste aqui parar? Se deres um passo em falso devorar-te-ei.

Não tenho nada a ocultar, não tenho medo, a verdade é mais forte que as algemas. E tu não me podes prender.

Que algemas? És antes barco abandonado, na praia ao pé do mar.

Não há ferros que impeçam navegar nos sonhos verdadeiros. Nada me podes fazer

Prestes a partir o que é que te ata à terra?

Confio muito em quem estou à espera, ela virá, e o seu coração é como o sol da primavera.

Que pode haver mais importante do que o nó?

A minha escolha, a minha firme vontade. E eu tenho tempo, ainda, quem tem pressa?

Ouves o rumor das vagas a baterem ao fundo? Ouve-las lambendo já a proa, marinheiro? Que fazes aqui no arvoredo, como ousaste acordar-me sem motivo? Que pode haver mais importante do que a partida?

A minha amada, confio nela, temos muito ainda que viver. Pressinto o enorme poder daquilo que já está a crescer. Sou um ser completo e novo. O meu presente é a minha espera.

Poderia-te atirar eu próprio para a água, e ainda acabavas por mo agradecer.

Não podes não; hoje, agora, já não tens hipótese. Ficaste atrapado aqui nas minhas letras, e aqui, nesta conversa. E eu ratinho ou barco, vinho verde ou feixe de luz, eu, sou eu que parto, sou eu de novo, no comando.

Ei-lo raivoso que salta bravo, para a frente a tentar fechar as garras sobre ele, mas o corpo do homem já não é o dum rato. É um ser azul de luz, uma névoa elétrica, pura energia que se agacha, dilui, foge  entre a rede viva. "Escolho o navio da canção" diz e a rede gosta e repete como um eco que oculta a sua passagem. De novo viaja e agora salta de elo em elo. A sua consciência habita na rede e já não podem encontrá-lo. "E vou direito ao coração de toda a gente" dizem as folhas contentes por terem encontrado um novo leque de melodias. Saltitantes, brincalhonas, como riso de criança à espera do desfecho olham agora com atenção àquilo que acontece. Fazia muito tempo que não se interessavam por acontecimentos apressados daqueles que caminham.

O homem ousa ainda, a risco de se mostrar de novo em perigo, enviar uma despedida, uma mensagem rebelde que alastra pelo arvoredo, que agora percebe como junção perfeita de compromisso e liberdade mas carente de propósito:

"Sem os sonhos, utopias, a realidade tende a fossilizar-se em formas esgotadas como velhos teixos gigantes. E nós, sonhadores, descemos das árvores não para ficarmos quietos, mas para caminhar.

Zé ninguéns sonhadores, a nossa escolha, hoje e sempre, será esperarmos contra toda esperança".

E as folhas, os rebentos novos, os fentos, as hedras e madressilvas, unida toda a juventude da floresta repetem numa balbúrdia que apaga a conversa das velhas árvores. Uma e outra vez como palavra de ordem que altera a paz dos cemitérios vegetais. "Esperamos contra toda esperança" como uma preze que ecoa o dia inteiro e pela noite afora, numa revolução de sonhos inesperados e imagens novas e inventadas. A floresta renasce e caminha e como mensagem que nunca tinham ouvido as conversas atrapalham-se todas, todas a quererem falar ao mesmo tempo. Sentem-se mais uma vez como no princípio dos tempos, como crianças renovadas a saírem da escola, o mundo é outra vez todo delas, imparáveis na sua correria juvenil de vozes agudas que tudo o preenchem.

Por hoje já ninguém prestará atenção ao velho teixo carrancudo que com passo firme volta para a sua toca a resmungar.

Mas às escuras, quando já ninguém olha, ouve lá afora a nova rebeldia que se impõe na floresta e acaba, ele próprio, por fazer troça da sua própria imagem esgotada. Primeiro num meio sorriso sorrateiro, depois num sorriso amplo, gigante, que transforma por segundos a sua cara na dum ser quase fofinho e terno.

"Esperança" segreda baixinho para si próprio, para mais ninguém ouvir, com a ternura dos idosos nos lábios e um brilho muito antigo nos seus olhos. Sim, nos olhos negros como carvão um pequeno brilho, vibrante, juvenil, alegre, escintila com recordações rebeldes que o invadem doutras eras.

Também ele conserva ainda, indestrutível, num recanto da memória, qualquer coisa chamada juventude.

 

27
Mai21

Serendipidade

contosdoeste

arvoredo.jpg

Sem olhos para ver, protegido pelo musgo da floresta, a pele fica insensível à dor ou aos problemas do mundo. Através dos seus pés descalços uma nova conexão gigantesca, uma rede nunca dantes partilhada invade-lhe o corpo e pulsa como uma energia elétrica que atravessa o seu ser. Perde-se de si, esquece-se, oblitera-se a si próprio.  Qualquer referência pessoal fica apagada por um sonho lúcido em que navega. Esvae-se num anonimato vegetal que o abraça no seu colo e desaparece.

Da unha do mindinho no pé até às ponta dos cabelos, da barba ao pênis, às nádegas, ao nariz, às bochechas; dos mamilos ao lóbulo das orelhas, dos braços às coxas passando pelo brilho nos seus olhos ate aos cantos da boca, no corpo por inteiro,  impulsos como raios azuis a latejar percorrem, pausadamente, numa cadência elétrica constante, a sua imagem física a flutuar no vácuo. Sim, ainda, nesse estado onírico, ensonhado, etéreo, precisa de fixar esta imagem corpórea de si próprio para se rever.

São tantas as informações que a floresta partilha que se esquece de si num tempo irreal que não é capaz de calcular. Há tanto para ver, tanta informação! E é tudo tão pausado, numa língua de raízes construída apenas com imagens estáticas, isoladas, fixadas a partir daquilo que em verdade importa, imagens que se ligam, amontoam e acontecem ao mesmo tempo com sentidos, conexões e dimensão alheios à lógica humana.

Aqui apenas o verdadeiro se revela, partilha e permanece guardado. Um museu vivo baixo terra em permanente atualização. Emoções e aromas em conexão com imagens e vestígios doutros sussurros roçagados pelas folhas. Canções de todas as épocas humanas em mensagens que entram pela seiva adentro, descem da copa até às raízes e acabam na rede de hifas da terra.

Aqui não há você ou eu nem nada singular, apenas um nós difuso e inexplicável que não conhece os conceitos de antes nem depois.

No meio dum furacão que me empurrou bem ao centro de mim próprio, foi a escrita e o silêncio que por vez primeira me salvaram encontrando-me. Agora, hifas em rede me embalam com canções de todas as idades enquanto uma frase vegetal vai chegando como uma mensagem singular, um presente para mim, recém-chegado, uma compreensão que me invade e atira na cara uma certeza, talvez a única dentre tantas falsas dúvidas e misérias humanas que estão sempre à espreita: a incessante procura dum propósito maior.

"Serendipidade". "Serendipidade" ouço alto e claro e da ponta do cabelo às gemas dos dedos, essas que quase podem tocar você e acordá-la, uma nova descoberta, um vocábulo redondo, alimenta a minha seiva e a renova.

"Serendipidade". "Serendipidade. O belo acaso que desperta o sonho adormecido" e milhares de vozes agudas, rápidas, graves, pausadas repetem a mensagem em diferentes tons e velocidades que se amontoam na consciência.

"O belo acaso". A mensagem penetra o meu ser e me envolve a gratidão, a paz de não ter que remar a lado algum, apenas sentir, amar, ficar a pensar num bom vinho amadurecido, mestura de castas na proporção certa, ou sonhar com formas de mulher que me namoram.

Vejo o passar das estações. E vides que no inverno pareceram mortas rebentam em primavera e muito logo passam para o estio a encherem-se já de cachos dourados e vermelhos.

Ai a verdadeira beleza das vinhas!  No outono, da panóplia de cores que se mostram, do lilás ao laranja, dos tons de verde e amarelo todos, é na colheita que a vinha se entrega aos seus cuidadores e rebenta a festa do amor, da juventude inconsciente, do cantar alegre do vinho verde, da eterna alegria.

Poderá ser a vindima a maior das celebrações camponesas? Formas de mulheres e homens que se abraçam na noite, a adega ainda com a luz acesa, mais cubas cheias, música de gaitas a soar pela noite afora, o trabalho, por hoje, apenas por hoje, acabado; são festas à noite, trabalho duro de dia, é tempo de víndima. Poderá ser o Outono a melhor das idades? Sim, também eu já estive ali.

Você e eu sabemos que na escrita nada é impossível. E eu poderia imaginar você em qualquer nuvem ou sombra da floresta, ou nas névoas matinais que penetro pela estrada afora indo ao trabalho.

Imagino você e as suas curvas muitas vezes em silêncio enquanto você dorme ao meu lado e eu não posso pregar olho. Sinto-me incapaz de te descrever como não poderia descrever toda a beleza dos corações que palpitam ao uníssono.

"O belo acaso", olhar a vida com olhos de criança, amar, sentir, ser presente, viver plenamente consciente, sem nada pedir, mensagens que a floresta me envia e eu nem sei como pagar tanta bondade, labrego, galego, obrigado. Obrigado. É assim a palavra com que se agradece, obrigado fico, fico em dívida e não posso evitar o querer devolver à floresta qualquer mensagem de esperança naqueles que caminham.

(Continuação+)

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