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contos d´oeste

Aprendiz & Caminhante

contos d´oeste

28
Jun21

Caminho

contosdoeste

pascualcampionart.jpg

©imagem:Pascual campion art

Num novelo de emoções que se recolhem com o melhor dos feitios ofereces-me um percurso, um fio de cores no chão, uma linda partilha que sem hesitar aceito.

Um roteiro aberto em caminhada.

Nada tenho de divino ou mitológico. Eu não sou Teseu. Sou apenas um simples homem nu igual a qualquer outro que caminha.

E caminhar é um verbo afouto, poderoso, fértil.

Avanço nos meus sonhos desse modo, caminho entre a floresta que acorda comigo para a vida por trilhos invisíveis, de manhã, sem minotauro nem labirinto. Maravilhados, com os primeiros ruídos de pequenos ratinhos e pássaros que levantam voo ao meu passo, o meu ser, o meu corpo, a minha mente estão presentes com todos os sentidos enquanto gotas de orvalho caem no pinhal ainda húmido da nossa última noite. Não sou Teseu e sinto que recolher o fio estendido à minha frente é, não a minha salvação, mas a minha escolha confiante.  

Vou.

E enquanto caminho ao teu encontro seguindo o fio de lã composto de todas as cores existentes o ar envia-me uma mensagem clara do lugar ao que pertenço.

Ainda no pinhal, uma brisa ousada afaga o meu cabelo, o rumor calmo das ondas que batem contra a areia chega aos meu ouvidos, o cheiro a mar entra pelas narinas adentro... e o sol? O sol já nasce lá no alto com vontade ainda de brincar às agachadas.

É o verão em festa que me chama desde a praia. Mas eu estou hoje no pinhal imerso, presente por vontade própria.

Presença.

A minha vontade consciente olha apenas para o chão que nasce diante dos meus pés pois não adianta querer enxergar além de cada passo. Ao longe a bruma é por instantes cegadora e  os olhos de todo e qualquer ser humano seriam incapazes de sustentar o resplandor branco do sol refletido nos seus lençóis.

Não importa, o presente que recebo de coração aberto é quanto baste (mas nem por isso menos empolgante e evocador). Aceito-o como ele é, quer seja ou não prelúdio daquilo que virá.

Enquanto avanço, à direita e à esquerda de mim brumas se esfianham em farrapos que ao meu redor rodopiam numa escrita árabe. São elas que molham a minha pele, que me devolve calafrios. 

Sentir. Sinto a maresia.

Cheiro a sua presença e sei por experiência dos que comigo falam que na língua doutros vê-se a floresta, o gelo, as altas montanhas inertes ou o deserto que permite encontrar-nos com um mesmo. Da minha vê-se o mar, a mar, e és tu o sentimento que encontrei submerso baixo as águas. Separo sílabas à toa e envio uma mensagem deste modo, só para souberes do que falo. Não é preciso desta parte do oceano mais nada do que dizer a verdade nua. Desculpa se nisto sou ainda um aprendiz em falar com a tua graça ou em dizer tanta coisa como tu consegues com apenas duas palavras, pois pouco sei, por muito que o intentar, de tais manhas. No meu caso preciso sempre me estender e Bla Bla Blah, b_lah, bilah, belah, belav, belov, belovd, beloved, amor, amar, quem sabe? Simplesmente talvez palavras sem sentido, mais nada além de mar e namorar, saber amar o mar e perdermos por um momento o fio...

Saber. Saber às vezes é tudo quanto baste e não como ouvi em repetição num fado belo e triste, esquecer, apenas, por um dia.

Imagino sempre quererás saber mais de mim tal e como eu de ti.

O que dizer?

Pertencemos a uma tribo antiga onde tudo fica sempre a descoberto e da qual partem todos os nossos laços primigénios. "De quem vens sendo?" é palavra de ordem para o nosso reconhecimento onde eu moro, povo acolhedor e navegante para quem o globo inteiro nunca foi o estrangeiro. Sei isto que partilho: Somos um povo de artistas.

Mas não é nada de especial donde vimos mas sim o que faremos com aquilo que a vida nos depara à nossa frente. Agora o mundo irá saber mais de nós pois temos muito ainda para contar, dar e partilhar.

Uma dádiva, presente.

Um presente, de partilha.

Não sei aquilo que o futuro nos trará. Sei que graças a ti carrego Paz, sensualidade, desejo apaixonado, uma olhada renovada, consciente, inteira, uma confiança nas coisas belas que a vida nos traz de maneira inesperada. 

O meu desejo é que como bolos de pão no forno os nossos corações cresçam e também, sim, a graça pelo mundo todo.

É só isso e mais nada.

Sei que temos muito ainda para oferecer. Afinal somos tão semelhantes naquilo que em verdade interessa! E tão diferentes naquilo que acrescenta crescimento interior, intriga, tempero, sal e nos apimenta...

Não tenho palavras para te dizer tudo que deveria e sei. Sei sim que estás à espera, tal e como eu, de caminharmos juntos à descoberta.

Homem-nu, menino também, na íntegra, sem qualquer medo, recolho por inteiro o teu novelo,  guardo a caneta e acelero os meus últimos passos. Hoje não quero me estender mais se não for para falar das coisas que interessam.

Cheguei à orla do pinhal, aonde tu estás à minha espera.

Abraço-te, beijinhos de bem-vinda, damos mais dois passos já a andar lado a lado, em silêncio, no caminho.

Acabando o meu texto enquanto os nossos pés caminham juntos, sem palavras inecessárias, a caneta... essa que não é capaz de se estar quieta, agora cala, guardada no meu bolso.

Sem nada dizer, de mãos livres e hoje na melhor das companhias, talvez oferecer-te-ei a minha mão enquanto andarmos juntos, numa qualquer curva próxima deste novo trilho.

E tu? Dar-me-ias a tua?

Desconheço. Só o tempo nos trará tais respostas.

Por enquanto, livres para todo o sempre, caminhemos.

25
Jun21

Paz

contosdoeste

 

 

ilhadosantodoMar.jpg

 

Paz.

Aquilo que sentes quando tu próprio te acompanhas e o coração se abre.

Gentes e amizades logo chegam contentes por te ver assim, na praia.

Paz.

Que quero partilhar contigo, que lês e me acompanhas.

Paz.

Bebé no colo que adormece com canções de embalar, cantadas uma após a outra num tempo indefinido.

Noites em que os filhos invadem a cama de casal com lápis, marcadores, estórias por contar.

Primeiras letras e perguntas sérias acerca de como o mundo funciona que nos colam o sorriso à cara.

Partilha de ideias geniais duma criança, perguntas e perguntas, piadas inventadas, mais perguntas inocentes, sábias.

Paz,

Menino em bicicleta a cantar canções de alegria sem palavras.

Lembrança intensa do nascer do filho, do seu grito primário, primeiro.

Lar.

Olhar primeiro duma mãe a um filho no minuto zero.

O tempo que se rasga, abre num abismo musical e vai embora.

Paz.

Um lugar seguro, um refúgio certo, morada, família a que pertences.

Lar.

Nadar no mar sem pausa e esgotado estender o corpo frio na toalha.

Verão, eterno tempo do descanso juvenil e de toda e qualquer infância.

Andar de bicicleta, ténis... futebol na praia.

Pai a ler um livro enquanto toma banho uma menina

num alguidar cheio de água ao pé do mar salgado.

Crianças que a ti se abraçam com um amor eterno e puro.

Paz.

Beijinhos de bom dia que recebes carregados de ternura.

Memórias,

Lembranças, saudades,

saber matá-las com um sorriso alegre para que renasçam.

Paz e calma

das tardes eternas, leituras de ficção numa sala fresca.

Grilos, zumbido dos insetos, mar de palha que logo irá ser cortada. Casa na aldeia, avós, casa sim, um lar, também, na praia. Ilha do santo do mar, santa maria de aguas santas, cotobade, cidade das muralhas,

a primeira bicicleta, monte louro, pontevedra,

Casa

Aventuras numa barca a remos, 

lugo, braga, barcelos, cabedelo,

mergulhos com óculos e barbatanas,

flutuadores de rodas de trator a enfrentar as ondas.

Lar.

Fazer queiques com a mãe, avental tamanho de criança,

a grande confusão na cozinha por inteiro enfarinhada.

Primeira namorada, amigos para todo o sempre,

eternos compromissos inconscientes

primeiro beijo num banco de pedra à noite na alameda,

inexperiente, mágico, fazer amor apenas com a boca.

Viajar de comboio a sós, apenas quatro adolescentes, ao cabedelo.

Sim, sozinhos, "ao estrangeiro" (é a sorrir que escrevo estas palavras)

ovos moles, manjericos, viana do castelo....

Sim, até o meu pai cá está em recordações, nem que fosse uma vez só, contente e brincalhão,

também ele tem dias

Lembro-me bem, fomos até, uma família, em tempos....

Sortudos

inconscientes de tal fortuna, da vida à nossa frente.

Vivíamos no paraíso e nem sabíamos,

cabanas no pinhal, jogos secretos,

ninhada de primos sem qualquer medo.

Faziamos fogueiras ali na praia, areia fria,

ilha de ons na linha do horizonte,

pôr-do-sol como não existe em nenhum outro lugar.

Trouxe cá uma foto para te mostrar.

Luar na praia, barcos atrassados que retornam à noitinha do trabalho.

Paraísos dos tempos dantes,

fartura de pele salgada, areias na cama, acordar cedo,

ir de novo à praia abençoada.

Sonhos

sem maldade alguma, de praias virgens como nunca mais existirão nos tempos de hoje.

Partilhas

de eternas tardes e conversas a passear o cão doutros amigos

Precoz maturidade , olhada limpa

que mantivemos nas causas justas, em firmes convições, irmandades sinceras

homens e mulheres que nos acompanharam e deram mil certezas.

Partilha, da mesma identidade honrada

sem medo dos perigos,

energia, compromisso sem fissuras, disciplina militante alegre e inocente

amigos que partiram já muito antes do que em rigor correspondia.

Tempo jovem, elástico, alargado, eterno

Passado de ventura, lembranças que voltam à mistura.

Agora, que ele volta aqui e bate à nossa porta,

respiro completo, íntegro, grato,

entregue à aceitação do eterno navegar em que o nosso ser flutua,

ser que foi crescendo como era inevitável

e sei, sim, agora,

que você e eu, que estás a ler aqui comigo estas linhas,

poderemos voltar sempre ali, sim, ali, a esse lugar sagrado de que viemos, cada um de nós.

À paz da nossa praia que, connosco, caminha.

 

22
Jun21

Quem diria

contosdoeste

tinta.jpg

III

Quem diria. Quem diria que fosse possível fazer o amor por telepatia, ecoa, entre músicas árabes que começamos a ouvir por vez primeira.

Cavalos ao galope, a trote, agora a passo, sobem encosta acima por caminhos de chocolate. Trovoada, eletricidade estática. Planalto. Crinas ao vento e chão encharcado, vou ao encalço e tento superar-te mas mordiscas-me pondo ordem. Quem marca o rumo e o ritmo que bate com os cascos és tu e mais ninguém.

Raios lostregam entre as nuvens. Subida ao Pico Sacro sem saída. Ao passo, a trote, ao Galope. No topo da montanha perco-me nos olhos duma égua fora de si que me segura pela crina, de olhos bem abertos que escintilam. Um raio cai em terra ao pé de nós, ensurdecedor.

Abraçados, caímos para o abismo.

Não há palavras no escuro, apenas um tinteiro de chocolate que se derrama, folhas ao vento escritas pelas duas caras, borradas em traços impossíveis. No meio do transe recupero o meu poder. Não há verdadeira dança sem esse equilíbrio a dois que agora encontraremos.

Dançamos no chão ainda unidos ali onde se fez a tua vontade. Um quadro vivo em espiral, redondo, de braços e pernas que se lambem e dançam entre véus de fumo ao som dum ritmo árabe. Luar, Incenso, sândalo, música envolvente que invade a escuridão. O copo da mesa entornado, há tempo que a tinta das folhas escorreu em aguarelas pretas e nódoas circulares encharcando o chão. Um murmúrio, uma respiração acompassada. Nusrat fateh ali khan em modo infinito, as gemas dos teus dedos, o teu cheiro. Encontro por acaso o pincel e sou agora eu quem pinto com restos ainda quentes desta tinta, o teu corpo por inteiro. Enquanto isso, dançamos, colados em silêncio.

Completa harmonia. Meditar era isto também. Pinturas minhas na tua pele em espiral eterna. O vácuo da Presença consciente. Não é a pequena morte, é tocar a singularidade na entrega. Dervixes amadores feitos tantra. Quebramos a linha do tempo, o fluxo, tocamos com a ponta dos dedos a verdadeira nada a que só a dualidade chega. Era isto que eu queria, e também tu. Sabes disso, sempre soubeste. Um sozinho não consegue passar mais do que da primeira porta.

Tatuo no teu braço uma mensagem nova.

Égua empinada, este sou eu, está é a minha graça. Foste tu, égua selvagem, que a acordaste. Ela estava aqui para ti,  à tua espera.

É a tua vez. Mostra-te para mim.

Nada é maior do que a Presença. 

Presença. Eis o que eu quero de ti.

Encontra-te comigo nas tuas telas.

 

I-Pinta comigo

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