Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

contos d´oeste

Aprendiz & Caminhante

contos d´oeste

31
Ago21

Oásis

contosdoeste

url(18).jpg

 

A caminho do futuro todos fomos deixando pegada, na floresta, na montanha, ou talvez fomos parando naquilo que deixa pegada em nós, a observar maravilhados libelinhas construindo um coração perfeito azul e verde durante a cópula a céu aberto no bico duma espadana, imagens que só um fotógrafo ou um olhar enamorado daquilo que a vida tem para dar consegue enxergar.

Ou talvez fomos escolhendo o melhor dos percursos em barrancos perigosos sempre à beira do abismo, esfolando pernas e joelhos em cada queda ao encalço dos nossos sonhos inocentes de juventude.

Seja como for, a vida é só para a frente e a cada curva do caminho haverá novos encontros, desafios e situações para as que nunca estamos prontos e elas apanhar-nos-ão por surpresa a cada passo. Nada a fazer além de saber estar em paz consigo próprio, ser gentil e aproveitar o império dos sentidos que se estivermos abertos nos alcança e invade de paz, amor e gratidão até ao âmago que apenas intuímos, ali, bem fundo e bem adentro, onde não há grandes diferenças nem passagem do tempo.

A alma, que não cresce senão ficando apenas renovada e lembrando a cada pouco pedaços de si própria até aos poucos enxergar o quanto somos energia pura, tapada sob diversas fardas, peles, experiências, traumas, cargas e heranças. É assim que as almas brilham, vibram em sintonia, intuem sons inaudíveis na escala humana e ligações que atravessam eras e gerações e se encontram, amam.

Eu sei, que você também terá passado por dificuldades, frustrações, encontros com o absurdo de não existir qualquer percurso lógico para o que a vida, sempre a brincar connosco, traz a cada dia. É bom por isso vierem à tona livremente antes de irem embora como tudo que carregamos às costas sem as vezes darmos por isso.

Eu sei, há dias em que tudo fica difícil, bué difícil, e nada faz sentido dentro de nós apesar das lógicas, das conquistas, das vitórias que ganhamos a nós próprios a custo de saúde e tempo dedicado, e a escrita não alcança a nos dar paz e aí, nesse ponto, até a caneta cai da nossa mão.

Que me acontece? Porque é que me sinto assim se ontem estava correndo para chegar a este novo patamar de paz & amor & segurança? Perguntas que invadem qualquer um, e é bom por isso deixá-las pairar o tempo que elas precisarem antes de atravessar como abutres famintos de esquerda a direita a abóbada celeste do pensamento.

E sim, eu sei, você ou eu poderíamos dizer passado o tempo certo: consegui, mais uma vez, de novo estar em paz e calma, e sabermos que não tem qualquer mérito nem nada de especial, apenas o esforço certo como tantos outros antes do que nós fizeram.

Tantos, tantas, há tantas vidas a lutar sempre para a frente... para a frente a atravessar qualquer espaço pétreo rodeado de desertos eternos sem mais vida do que nós. Nós, em solitário a avançar porque nada fica atrás dos nossos passos, para a frente. Para a frente pelos meus, os meus sonhos ou sobrevivências.

É assim para mim: Eu nada teria conseguido sem os apoios certos na altura em que mais precisava. Não fossem as amizades que nesta nova normalidade dificilmente convivem e à distância nos enviaram forças e energia e onde é que teríamos desistido de avançar? Em qual falésia nos teríamos deixado ficar ofegantes, sob o sol que nos queima através da roupa e desidrata? Daí a gratidão que nos sustenta e faz um muro de gelo e proteção contra qualquer demónio ou terror quando as dúvidas surgem e olhos vermelhos nos querem paralisados em pesadelos que nos encharcam em suor e coração a palpitar de medo.

Há dias assim, ou meses, e às vezes, sim, eu sei (e talvez também você) mais tempo... a caminhar no deserto fruto da necessidade e momentos ou semanas em que o esforço de estarmos isolados cada um no seu casulo finalmente nos atrapa e faz pagar as consequências.

Quando a trovoada finalmente vai embora ou quando o mais duro do deserto começa a ficar atrás e tudo parece calmo por fim o tempo suficiente. Sim, nesse momento, quando senão? Ao descurarmos nos manter alerta e prontos à batalha de sorrir a cada dia chega o desânimo da solidão.

Poderá ter sido "apenas" o confinamento, criarmos um bebé a sós, lutar contra a doença do que for, mantermos o pavilhão bem alto para o barco não perder a origem, razão de ser, rumo, ou identidade, ou aquilo que se espera de nós, ou apenas talvez tentar chegar a mais um novo mês com as continhas certas, tudo pago, ok, em regra, conseguimos mais uma vez com a água ao pescoço viver.

Acredito que só pelo facto de ainda lutar por melhorar o pouco que pudermos já merecemos alguém nos dar os parabéns e apoiar no rumo certo. No mínimo nós próprios bem merecemos um abraço connosco, sincero. É bom fecharmos os olhos e fazê-lo.

Há tanta solidão no dia a dia hoje que PIB, lucro ou qualquer montante  ou percentagem deviam ser deitados fora para todo o sempre e apagados da história humana e em sisudas analíticas dos países fosse ateado um novo ranking que olhasse para aquilo que a todos interessa, um top dez de bairros ou aldeias de todo o globo a categorizar felicidade, tempos livres, horas de sono e balanço interanual de preocupações ou percentagem de coisas públicas, atividades lúdicas, alegrias partilhadas e vida comunitária, sonhos e desejos, número de amantes e montante total de sorrisos meigos.

Quanto tempo livre é que realmente tens para ti? Quanto partilhado com quem você ama? Quantas vezes você se sente acompanhado por semana? Quantas a partilhar um mesmo rumo, jogo, roteiro de novas experiências ou fontes de desejo? Quantas vezes você se tem sentido uma pessoa amada plenamente por inteiro, alguem a segurar você, seu corpo, ao completo, ou acariciar seu pénis ou sua vulva como se fosse a coisa mais sagrada que alguém pode ter entre as suas mãos e pensamentos? Quantas canções você canta acompanhada ao ano em festas e convites? Ou quantas músicas frescas você ouve lá embaixo na rua, janela aberta enquanto fumega cálida a sua chávena, recende e inunda a sala com o seu aroma a café, baunilha, canela ou pimenta e quantas vezes o vapor da sua bebida húmido e quente se aproxima ao seu pescoço para ser ele agora que, ousado, cheire você?

E já que apareceu em cena, muito logo, asinha, malandro como sempre, venha agora afagar o seu cabelo e susurrar no seu ouvido novos sonhos, sonhos que você talvez irá modelar depois em letras e suspiros. 

Quantos abraços recebe no dia a dia? Quantas crianças inundam a sua vida? Já dançou mais do que uma vez neste 2021? Perguntas do inquérito da Junta de freguesia do meu bairro da nossa senhora da estrela sobre as esperanças e a vida comunitária.

Eu sei. E você, se ainda está a ler, se até aqui chegou, talvez também saiba. Sentimentos encontrados e mais uma palavra que paira também hoje no ar o tempo todo.

Solidão. Hoje tocou falar também disto, mas nem por isso perdi o fio da meada nem o novelo de brilhantes cores que comigo carrego, nem quero desatender tudo que me faz sorrir quando estou só, acordado à noite, fora da cama.

Solidão.

Será daí que vêm as saudades, mas, se dermos volta à mesma moeda, também as mais autênticas viagens todas? Em Idades idas doutras eras em que o grupo tinha como mais cruel castigo o degredo longe da tua terra, hoje na velocidade em que vivemos não há mais permanências de gentes, laços familiares, lugares, trabalhos, terras... e a infância é um lugar sagrado a que muitos se ligam com fervor religioso porque a inocência nos fazia acreditar na eterna vivência imutável dum tempo todo nosso. Solidão, que devemos abraçar como um espaço nosso de refúgio e paz ou perderemos a cordura e a grande oportunidade de abrir o coração a meio e sentir a Gratidão sagrada.

Isto foi o que aprendi, como sempre é tudo tão simples que até faz rir: crescer é a a sós e só depois mostrar a nossa graça ao mundo.  É talvez por isso que alguns, ousados caminhantes, sem nada que perder, procuramos entre areias rudes e sóis a pino velhos trilhos escaldantes e marcas secretas deixadas por antigos peregrinos. E fomos lá, vamos lá ainda agora, como podemos, antes, com a nossa pouca habilidade inicial e, felizes, agora criando novos mapas do tesouro, de oásis para oásis e a cada passo crescemos em altura com novas fardas frescas e elegantes a agachar vergonhas e medos, primeiro, que, depois, foram superados e olhados como aquilo que verdadeiramente são, pequenos seres e barreiras colocados por nós próprios sem qualquer importância que olharemos com prudência, surpresos, por lhe termos dado tanto espaço.

Sei, que no caminho algumas amizades ficarão para trás e outras irão já lá na frente, marcando o rumo e deixando marcas do melhor percurso para quem vamos ao seu encalço. Outras, se houver sorte, partilharão o nosso ritmo ao andar e gosto pelas coisas simples como o desejo palpitante que surge durante as noites ao montarmos uma só tenda para dois baixo palmeiras cheias de tâmaras doces. O seu cheiro adocicado e quente, se houver sorte e água bastante, fará com que a nossa viagem demore estações e decénios entre risos e suspiros, leito humilde de areia e noites de paixão eternas até esgotar energias, cálices e fantasias antes de continuar caminho de mãos dadas, talvez até ajudando no percurso outros peregrinos novos que, como antes nos fizemos, se tenham lançado por vez primeira à viagem.

Viageiras, todas as almas que se lançam com palavras de ordem renovadas que areias do deserto atiradas contra os olhos por rudes ventos do leste não conseguem apagar e apenas indicam que vamos no caminho certo com slogans verdadeiros: Gratidão, o coração aberto em flor, Esperança no futuro e confiança em nossa paz que a custo conseguimos.  Para Norte. Gratidão e caminhada.

Para Norte, eis o caminho que leva ao Mare nostrum onde todos querem ir à espera de paz, comida e segurança. E você e eu, juntando novas amizades, talvez fujamos aos enganos do deserto e às suas miragens com pequenas palavrinhas humildes, só nossas, que sementem esperanças e novos vegetais à nossa volta: apoio mútuo, beleza, compreensão, magia, ouvir o outro, acompanhamento, sexo é saúde e mimo e desejo satisfeito e ser parte dalguma coisa maior do que nós próprios ao se dar ao outro e ficar maravilhados lendo a alma e as letras de quem nos faz suspirar vibrando em sintonia.

E no meio disso tudo, a escrita que nos liga e tece uma rede de vontade e conexões que nos fazem rir e nos sentir amados, novos elos que aparecem por magia à frente dos meus olhos enquanto escrevo: o sabor das tuas palavras, sílabas soletradas que arrebatam os sentidos e nos fazem sonhar. Gratidão. Por tudo e todos que comigo caminham e me envolvem em emoções de pertença que eu devolvo confiante e onde te reconheço, você a destacar entre palmeiras no meio do deserto de Atacama.

Reconhecimento dum olhar comum à beleza das coisas simples que tanto custa alcançar desprendendo-se de fardas e roupagens velhas.

Sim, reconheço-te.

Reconheço-te, sim, numa ligação profunda que me permite escrever em enxurrada sem saber parar tal e como outros comerão cereijas roubando um ao outro o doce fruto à sombra duma árvore centenária. Conhecemo-nos algures, você e eu, e sentimos qualquer coisa como o som duma tigela tibetana distante a chamar por nós quando por primeira vez qualquer coisa vibrou escrita num poema qualquer, numa partilha verdadeira, como pedra atirada no meio do lago que criou as ondas primeiras. 

O lago. Foi você que me trouxe de novo recordações doutras vidas e da sua existência. O lago que eu mostro aos poucos com todo o seu poder para você onde talvez o abraço fundo como o dos amantes nos fará desaparecer numa consciência onde o eu e o tu tirem as roupas e unidos em comunhão desapareçam alcançando a roçar com a ponta dos dedos a singularidade por segundos de clímax transformados em eternidade celebrando, la petit mort, a grande Vida.

Em silêncio, ao pé do lago, numa noite sem lua carregada de estrelas, talvez hoje partilhemos o chapinhar de mais uma pedra. Abriremos os olhos, sorriremos acordados para a noite que nos chama e o lago que nos diz para entrar na água de mãos dadas.

Uma nova palavra invadirá a nossa mente e nascerá para nos ligar enquanto os nossos pés descalços avançarão sentindo cócegas entre as águas. Antes da água nos envolver com o seu manto negro e cálido ainda ouviremos uma voz, um susurro a abanar as espadanas onde pousam descansadas as libélulas e o seu sopro nos fará cócegas na orelha e arrepios na nuca com uma só palavra milenar carregada de todos os significados primigénios.

Oásis.

26
Ago21

Acordar

contosdoeste

IMG_20210826_091651.jpg

O verão, que não quis vir quando era a sua hora, chegou agora carregado de calores querendo devolver às pressas tudo que não trouxe no seu momento. Sei que mais um dia quente virá acompanhado de tarefas sempre adiadas e que agora já é preciso realizar. Mas neste amanhecer calmo e fresco, onde o orvalho ainda molha os meus pés descalços, eu passeio pela relva e por um novo solo firme que me sustenta e refresca.

Hoje pequenas margaridas minúsculas e humildes flores de trevo branco fazem-me cócegas e saem entre os dedos dos meus pés que, sem querer, arrancam algumas ficando assim enfeitados de branco e amarelo. Um abelhão solitário de cauda também branca e amarela, inicia o seu voo de reconhecimento com os primeiros raios de sol. O cão no seu cantinho escuro abana o rabo que bate contra o chão de madeira num som conhecido, calmo, repetido, de bem-vinda, ao cheirar o dono que se aproxima. E como todas as manhãs apenas sai de meio corpo para pedir uns mimos e voltar para o calor aconchegante da casota.

Penso em você, e em todo o que nos trouxe até aqui num caminho de rosas bem cheias de espinhos. Mas o quê seria da luz sem as sombras?

Há pessoas que nos fazem bem e nos iluminam com a sua luz dourada que sái bem do centro do peito. Há risos, sorrisos, cumplicidades, palavras meigas de orelha a orelha que nos fazem arrancar para o trabalho contentes por tanta partilha, tanto crescimento, tanto respeito, tanta vida. E há ainda os sonhos comuns, aquilo que nos faz vibrar na mesma sintonia e, entre planos da existência ocultos aos mortais por um veu que não nos é permitido destapar, nos liga. A vida é feita também de grandes momentos gigantes, encontros ao acaso, conexões desconhecidas, intuições, ligações entre diferentes eras e vidas...

Um sentimento, que nada entende de sofrer ou de lamentos, paira no ar entre brumas de algodão.

Gratidão, por este sol manso que aos poucos se eleva saudando de bons modos às montanhas, ao pinhal, às estradas sempre cheias de curvas que levam a dunas de areia fina. A manhã está fresca e em t-shirt, sem camisola, os meus braços, estimulados pelo frio e por um sentimento de pertença, arrepiam.

Gatos esticam-se e bocejam e andam logo à minha procura, mianhando, também mimosos a pedir carícias e enroscarem-se nas minhas pernas. Creio que em verdade acham que sou eu que lhes pertenço dum modo contrário a como o cão se sente bem tendo um dono. É mágico perceber como essas diferenças criam uma ligação maior entre nós todos. Inútil querer lutar contra a verdadeira natureza de cada um, até o cão sabe disso e por isso aceita os novos gatos da casa, quere-os, e, só quando eles se deixarem, irá deitar-se ao seu lado, brincará com eles, e quando ganharem confiança passados muitos meses como já fez com os anteriores lambê-los-á com mimo entre as suas patas. Talvez não sejamos nós os proprietários de terra, leira, casa, lugar sagrado, emoção ou quinta alguma. Talvez somos nós que a ela pertencemos.

Corvos sempre à procura de alimento levantam voo ao sentir a minha presença. Os poucos carros que nesta hora vão trabalhar passam com os seus feixes de luz a iluminar as últimas sombras do pinhal próximo e os seus olhos vermelhos faiscam quando param antes de acederem à estrada principal. Há tanto silêncio que cada elemento entra e sái da cena isoladamente, com espaço próprio tal e como a bruma que começa a elevar-se com a saída do sol e adquire vida, marca presença, respira-se fria num momento atemporal que nos liga ao princípio dos tempos e aos sentimentos mais fundos que connosco caminham. 

Saindo das cavernas ou de abrigos feitos de madeira ou peles, ou com as primeiras casas circulares, a mesma bruma, o mesmo lento acompassar dos acontecimentos terá sido repetido uma e outra vez por milhares de anos enquanto homens e mulheres acordavam para não deixar morrer o lume no lar primigénio e sem pressa preparar o pequeno-almoço. Em qualquer das épocas, bebés mamariam ainda em sonhos em leitos de peles e calor materno sem acordarem e cães saudariam o despertar da sua matilha de humanos em que confiam. E ali, como em todas as idades, cada amizade, cada pessoa importante marcaria também um antes e um depois no caminho dos sonhos e da utopia.

Num tempo antes do tempo, grupos de humanos isolados, conetados com a vida e com outros grupos amigos, não teriam conhecido ainda grandes guerras nem trabalho escravo e veriam o passar da vida contando luas e estações, o nascimento de novas crias, a morte de pessoas queridas. E a cada dúvida, dificuldade em conseguir o alimento, conflitos entre jovens e velhos, ou esperanças numa nova vida, o sol indicar-lhes-ia o caminho de novos sonhos e novos desafios. 

Às portas das cavernas, no melhor dos miradouros, na praça comum com os melhores lugares e vistas, nos postos de vigia... por milhares de anos milhares de almas teriam estado sempre orientadas ao lugar certo para em silêncio despedir o sol do verão e olhar em verdadeira paz a sua partida. Para o Oeste.

Não, não é por acaso que as nossas igrejas olham sempre para o pôr-do-sol e deixam que o amanhecer lhes aqueça as costas e os ossos húmidos onde guardam os seus mais profundos segredos enquanto o adro sagrado esperará pacientemente pelo seu momento ao fim do dia. Para o Oeste, antes de o equinócio marcar o abalar da magia. Para o Oeste a cada dúvida no caminho, a cada paragem da tribo esfomeada ou com sede, a cada barragem intransponível que faça desviar o nosso rumo.

Para o Oeste. Ali dirige o seu olhar o farol milenar da cidade aonde em breve me dirigirei, cabeça, guarda, chave e antemural, como num conto de fadas, cabeça principal ainda hoje dum antigo reino de todos escondido.

Hoje é de manhã e de olhos fechados e de costas ao sol que amanhece, também eu recebo o seu calor com um gatinho ao colo, olhos postos em direção aonde sei que fica o mar e milhares de sonhos ocultos baixo as pálpebras.

No maior dos silêncios, o canto do galo vem para quebrar o feitiço.

Sim, é muito hora.

Hora de ir trabalhar e por isso o galo canta uma, duas, três, cinco vezes, sem pausa, exigente.

Toca obedecer ao seu reclamo, abrir a portinhola às galinhas e deixar nascer o dia.

 

19
Ago21

Poesia

contosdoeste

 

Imagem: web Aldeias de Gralhas

 

Nem sempre de dores,

incertezas, sofrimento,

é feita a tua ementa,

poesia.

Eu fui convidado,

comes e bebes, à festa

de sonhos e esperanças,

antes adormecidas.

Alegria festejada,

desejos e vontades,

de partilha.

 

Petiscos a puxar do apetite,

curiosidade, gula,

pecados inocentes.

Como roubar batatas fritas

do prato ao meu lado

 e oferecer depois para as ver quebrar

fascinado pelo aroma e o sorriso,

hot & spicy, crocantes,

vontades carregadas de prazeres,

entre os teus dentes.

 

Estaladiças, de sabor apimentado,

puxarão da bebida a nos acompanhar,

celebrando um brinde em copos plenos,

que transbordam

de

sen-

         sual-

                    idade

enquanto fios de cor gritante, aguda

num ritmo demorado, estonteante,

pelo gargalo descerão,

jovens e ousados, como num escorrega.

 

Vermelha a língua,

sem pudor, vergonha ou medo cénico,

alçarão os braços o cálice de tinta cheio:

ao sol, à lua, à noite e às estrelas!

Proclamas feitas contra o céu azul,

ao pé dum mar de águas cristalinas 

enquanto lá do alto,

o sol, que tudo invadirá, de mãos abertas,

irá afagar as mesas num leve roçagar,

contente e anuindo,

a apreciar o branco linho.

E roxo de desejo, ali estará o Alentejo,

Douro o teu cabelo,

Ribeiro fresco de letras que já farão soltar a língua,

tagarelas, Tinta fêmea,

um Porto adocicado,

ou apenas uma humilde água das Pedras

que oculte o mar

entre as tuas sílabas.

 

Salgadas,

as minhas palavras tentarão te alcançar, poesia,

fazer sorrir e escintilar nas tuas meninas,

trazer talvez certezas atiradas ao vento

que nas pálpebras soprará, para ti,

borboletas,

se fecharmos os olhos,

em silêncio.

Gotas com sabor a mar, amadas,

que o ar te atirará contra os cabelos,

és tu a dona dos meus passos,

dos tempos nossos,

das notas musicais, e dos silêncios.

 

Pode ser numa ilha, numa praia ao pé do mar, 

num barco a vela, a navegar

ou num pequeno jardim privado

com mil rosáceas, orquídeas, alfazema,

ou se quiseres, alecrim,

cheiros a baunilha,

flores de jasmim.

 

Eu já nada sei,

de grafítis pintados em paredes,

de vidas anteriores a esta paz,

que consegui, partilho e quero.

 

Mais nada do que caminhar sorridente,

fé nas letras, no sol amigo e no presente

e naquilo que,

graças a ti,

partilho,

Poesia

 

Pág. 1/4

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub