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contos d´oeste

contos d´oeste

25

14
Set21

Ligação

contosdoeste

IMG_20210914_155601_898.jpg©cosmosastronomia

 

Sinto que há um fluxo de Energia de que somos feitos unha e carne com a vida. Há magia num olhar primeiro entre bebé e mãe logo após o parto, mas não dá para acreditar nisto ou em qualquer uma outra coisa verdadeira sem ter sido sentido ou vivenciado.

Energia que atravessa o ar da sala por inteiro e faíscas invisíveis que fazem explodir uma esfera de silêncio onde o tempo pára e o chão se abre baixo os nossos pés mostrando o rio da vida a fluir em enxurrada e uma nova compreensão nos arrebata: a vida era isto. Não há música mais elevada do que aquela que acompanha este silêncio, a compreensão dum momento único, o quanto se abre o coração, o peito, a espinha, a sala, o tempo num ribombar ensurdecido que faz estremecer a cada pouco os alicerces dum prédio asséptico em que os bebés são nascidos.

Não dá não, para descrever a descoberta ou o sentido iluminado de ver nascer o amor e uma criança nem com imagens, poemas, palavras belas ou textos escolhidos.

Há magia também, num mamilo, botão em flor, fruto maduro pelo que escoa um rio de vida de luz azul e branca, eletricidade que flui das estrelas até a boca dum novo membro deste clã humano e daí viaja a acalmar o coração e traz o respirar manso duma criança adormecida entre sonhos de algodão, útero, cova, alimento, a salvo, vida protegida.

Há magia, sim, gigante, quando um pai olha em silêncio por minutos eternos, filhotes a dormir, luz ao mínimo a afugentar monstros e sombras de medos... e que logo crescem! in ictu oculi, e a vida avança num piscar de olhos, mas hoje uma abóbada protetora de cristal gigante engole a casa por inteiro e impede a entrada de sons, luzes, tronos ou quaisquer outras presenças milenares contra quem nos mantemos firmes, em vigília, guardiões de paz serena e proteção inabalável armados de ouro e prata e autoridade contra olhos vermelhos e distantes. Presenças ocultas a olhares inocentes que ao nosso mandado obedecem contrariadas e se afastam ainda a rosnar de longe, sim, sempre à espreita, mas não têm outra hipótese senão a aceitação e obediência.

A salvo. Eternamente estão nossas crianças num sono por nós protegido, tal e como continuam a velar por nós almas  que já lá se foram e que nos fazem olhar para as estrelas com sentido novo, pousar as armas e armaduras, e nos entregam um lugar também novo num mundo renascido, pleno e cheio de esperanças.

É através delas também que a vida se renova a cada olhar e nos mostram a nós, simples aprendizes, a ligação à vida verdadeira em correrias e brincadeiras por fora da caverna e risos e genialidades que marcam o caminho certo quando perdemos o rumo com excessos de frio raciocínio, medo do futuro e atenção dispersa.

E você, você sabe tal e como eu disto tudo e mais ainda.

Há magia sim, quando olho também para você em fotos, o meu coração sorri e os meus olhos escintilam.

Você, que me encontrou e acompanhou no meu percurso de pesquisas em roteiros da eterna procura atrás dos sonhos, e me ligou de novo ao estádio primigénio da existência.

O prazer do encontro. Como ninguém inventou ainda nome certo para coisa tão fulcral nas nossas vidas?

A ligação maior. Um misto de pertença e novidades. A vida vista através do prazer primeiro, alegria e sentimento pleno, império dos sentidos em que a verdadeira descoberta se produz. A curiosidade primigénia, o sorriso da entrega, o tempo inexistente que obediente, a nosso comando, pára olhando fascinado para o nosso barco, o mar, a vida de olhos bem abertos, o tempo, sim, que, a contragosto e resmungando, obedece e nos sabe, a partir de agora, segurando o leme, o vento às nossas ordens, e o rumo? Por nós traçado. 

Mamilo, vulva, mão a segurar por trás você, o peito seu que encaixa à perfeição na minha palma, calor, suor, a transpirar... e lábios que sussurram o seu nome hoje feito de curvas sesseantes numa voz de homem, que atravessa a sua mente e brinca, com cerejas feitas brincos que baloiçam ao tentar ser apanhadas com a língua. Brinca, você também comigo deitados ao relento no convés, e retira esguia o seu pescoço ao sentir um calafrio, segura também você parte de mim, entre as suas mãos. Com força e olhos de avelã que escintilam e respondem: toma cuidado ou brinco eu também contigo. E a seguir já narinas se saudam, bochechas são exploradas, nariz em ponta delgada, antes sempre amar livres que viver em paz sozinhos, sorriso já bate com sorriso, enquanto inventamos novo lema para as nossas ilhas açorianas...

É isso que os dois queremos e nossas línguas se saúdam, boca a boca, num sôfrego respirar apertando mãos e nádegas e coxas e tudo o mais....primeiros socorros de salvamento marítimo e reanimação de almas solitárias, finalmente a sós, na intimidade e cara a cara. E a noite faz-se dia uma vez e outra e a sós voltamos uma e outra vez ao tempo demorado em que há um universo inteiro à nossa espera, constelações traçando linhas imaginadas com os dedos de um a outro sinal ou marca como estrela negra em nossas peles. Jogo a descoberto entre a penumbra e o sol a tentar entrar agora em camarote de luxo almofadado e atravessar stores e formas de tratamento e convenções, tu, eu, você, sotor, dono de casa, sra.engenheira, como é que está sr.Dr.?.... e nós feitos de pele só, tu a tu, fardas fora e corpos trajados apenas pelo sol às riscas, de tigresa ou de pirata vagabundo, apenas...

Apenas Carpe Diem, Carpe ad eternum, sem terra à vista, letras a nomear o nosso barco recém pintado, em aguarela, para nós, novinho em folha, de papel, e a cada passo olhando através dos tópicos todos de renascimento num mar em águas calmas, revisitado sim, dum modo inteiramente novo. Em arabescos roubados do barroco a nau avançará por entre um mar de ardora deixando rios de tinta, imagens e espuma branca de tirar o fôlego. Não são unicamente fogos de artifício mas indicações para marinheiros novos ou aprendiz de feiticeiro.

Eu contínuo na viagem, aprendiz de sonhador feito piloto, lembrando como me foi mostrado por um propósito maior o rumo... entrelaçando as mãos com as suas em silêncio e partilhando sonhos com palavras escritas a fogo no meu peito. É assim que vamos hoje flutuando por um lago eterno, enquanto antes caminhávamos em direção incerta e passo leve carregado de prudências, lembra?

Rumo ao mar soprando o vento as nossas velas, para o Oeste, a flutuar no lago eterno, seguindo o pôr-do-sol, o rumo é sempre ao oeste, e foi assim que encontrei de novo o trilho certo, percurso inscrito às noites em mar de ardora azul e a branca paz interior que achava em falta.

Estrelas no mar, no lago e no firmamento, estrelas sim e luz azul e branca que nos atravessa feita apenas de elementos surgidos dos primórdios da existência. Escadas ao céu, cá estão entre nós, agá, agá-e. A dualidade. 

Hélio e hidrogénio a escintilar também em luz azul à noite em águas calmas e o resto de elementos posteriores que criaram a magia de estarmos hoje vivos. Foi há milhões de anos num momento de explosão perpétua que em cada coisa simples, cada unha, pelo, ponta do cabelo ou dos dedos ainda nos acompanha.

Isso tudo há em nós, latim em pó a sair da nossa boca, corpos surgidos de planetas feitos doutras rochas esbatidas, pó de estrelas no brilho dum olhar ou dentro do teu peito a escintilar, platino, ouro, quartzo escaldante... ou um pênis que lateja também carregando em si uma ligação profunda a que se chega no topo da sensualidade, farol e mastro de salvação em meio de tormentas que o reclamam e exigem um mergulho por inteiro. 

Olhos, mãe, mamilo, amamentar, ternura e proteção, viagem, comando e direção eleita, encontro e desejo, tesão e como fio de prata uma palavra simples e ondulante que esguia se nos tem escapado a tantas vezes... Prazer.

E hoje em nome masculino como amantes de  Ain Sakhri se quer presente. Pênis, o ritmo é dele desta vez e sem pressa obedecem águas, coxas e vontades de preencher o espaço por inteiro ficando entregues ao seu comando. Energia em espiral de sexo tântrico e vibração de gongo tibetano, não pode haver entrega e dualidade sem todas as presenças e energias a obedecer ao nosso comando. É a dois que surge a partilha, a união num ritmo novo, consciente e acompassado. Há mais, muito mais do que isso e do que o abraço de depois, e a magia da ternura que nos embala em corpos de veludo, aconchegados em posições inverossímeis e tardes ao relento, cafuné no meu cabelo.

Tanta paz que o prazer também nos traz, tanto que desaprender daquilo que na escola e na família incutiram, escravos da necessidade e da carência a tentar sobreviver num mundo em guerra consigo próprio, cegos à ventura verdadeira que nada tem a ver com jóias, pertenças ou obediência.

Pênis e tesão, pênis e ternura numa mão segurado a latejar pequenino, molhado e ainda quente de ter entrado na cova, refúgio, lar e moradia.

Olhar a vida com olhos de criança é um estado de alma que poderíamos cultivar de coração escancarado em qualquer esfera da vida.

Eu hoje graças a você, sinto, logo existo, e as minhas intuições são o método científico que governa a minha vida.

Qual o nome para a conexão fruto do prazer e das certezas que nos dicta a nossa alma em sonhos e palpites que nos fazem latejar o coração.  Como foi que com o passar do tempo perdemos a necessidade duma tal palavra?

Não há nome para um tal ligação que nos faz andar com passo leve como em nuvens de algodão sob nossos pés enquanto no asfalto caminhamos.

Já ouviu o estralar do tojo a deitar sementes na vaga de calor de agosto? cri, cra, cra, cri ao nosso passo com olhos escancarados para a vida.

Já o barulhinho estaladiço de árvore cortada à espera duma brisa que incline a balança para a queda inevitável ?  cra.. craa....craa.... e um sopro, uma lufada de ar quente e poderoso que fiuuu nos sopra na cara e atira a sua força para a copa da árvore que cai no meio da floresta. E o estrondo alastra, levanta pó e faz sair a correr cães e gatos, tristezas, pássaros e borboletas.

 É nesse olhar enamorado que poderíamos viver a vida inteira se estivéssemos abertos e aos poucos desaprendêssemos tanta coisa.

Por isso com um mapa na mão com percursos, distâncias e proximidades e órbitas de todos os cometas, hoje, eu de pé no lago a flutuar, sob as estrelas, me mostro a você, grato, entregue, seu para o prazer.

Cá estou à sua espera.

05
Set21

Presença

contosdoeste

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Acordo flutuando na minha barquinha feita poema e penso em quanta sorte, quanto amor recebo, e que pouco pode significar aquilo que ainda não encontrou o seu lugar para crescer se comparado com o resto que já tenho. Tempo ao tempo e desfrutar a cada passo. Uma Nara leão com voz melodiosa interpreta uma canção conhecida em que a letra aparece toda trocada de propósito para mim, para me agradar, público único e maravilhado duma música que inunda os meus ouvidos e viaja até ao coração como um fluxo de luz azul e branca carregada de eletricidade:

Noite de luz, festa de amor
E o cestinho a deslizar
No laguinho azul rodar
Fim do verão, o amor se fez
Na partilha dum lugar
Que nos ajuda a ficar
Sem intenções, os corações
Vão saindo deste mar....
E o sol
Beija o teu lençol azul....

A noitinha cai carregada duma abóbada limpa e cheia de estrelas e o barquinho, a barquinha, redonda como um cesto, avança gigante e devagar, em círculos, pelo lago seguindo uma órbita preestabelecida, uma corrente invisível que faz com que não fique nunca encalhada ou perto da terra firme.

Na superfície do lago, espelho d'água feito de cristal fluído, estrelas surgem a brilhar intensamente e o nascer duma lua amarela, gigante, marca um caminho de prata que ilumina o meu pequeno cesto se comparado com a imensidão do lago e me liga à terra.

Rãs ensaiam o seu coaxar perto dela num barulho ensurdecedor à procura dos melhores cantores, que serão os eleitos. O resto do universo em sinal de respeito mantém nesta hora o silêncio e eu fico a observar cabeça afora, olhando para baixo, pura ensonhação, as estrelas sobre as que navego. Olho o relógio no pulso e verifico nas horas que marca o símbolo deitado do infinito, em horas, infinito, em minutos, e 41 segundos.

É a hora certa. À minha direita uma imagem começa a ser formada, e eu, que sei exatamente aquilo que vai acontecer, viro o meu corpo devagar, deito-me mãos atrás da nuca e desfruto da sua entrada em cena, lá no alto, no meio das estrelas, cabelo escuro, olhos da cor da avelã, a sorrir meiga.

Vejo apenas a surgir metade da sua cara e sorrio com o como a língua, essa malandra que gosta de fazer cócegas no meu cérebro, brinca sempre connosco e cria novos sentidos plenos de significados.

Sei desde o minuto zero que é você e ao ver escintilar um brilho no seu olhar celeste vejo que já cá está, também comigo, a ver-me a mim, homem-novo a nu, renovado e pronto para receber você como merece depois de me ter banhado em águas tranquilas que você e eu amamos.

Olho ao relógio novamente: œ:œ:41 e sei que estou no comando e viajo numa paisagem onírica que obedece ao meu ditado. Uma coruja branca confirma ao passar por cima do lago, anuindo para mim que o sonho é todo meu e não, não há hoje perigos, medos ou vergonhas à espreita neste cenário.

Quer vir comigo? E uma boca feita de estrelas desenha um sorriso meigo e você anui também e ouço bem adentro na minha mente, num sussurro duma voz cheia de forças  que me abalam e derrete o meu pensamento, como se você estivesse atrás de mim deitada, ou ao meu lado, e pronunciasse com o seu halito fresco, húmido e cálido ao mesmo tempo por trás das minhas duas orelhas, em estéreo:

Quero

e os pelos todos do meu corpo sentem o calor húmido do teu bafo quente e adocicado alastrar pelo meu pescoço e o arrepio do desejo.

Vem, fica hoje, aqui, comigo, está noite, vem, fica aqui ao meu lado, vem sentar comigo, digo, há muito para ver. Sentemo-nos juntos hoje, lado a lado.

E um ser de luz, metade luz, energia azul e branca, metade corpo nu e excitante, onde destaca o seio, um mamilo e um sorriso malandro e confiante que empolga o meu desejo, entra caminhando em cena com nuvens de vapor lambendo os pés descalços e, numa passarela dos sonhos que a lua mantém para nos unir, caminha sobre as águas da terra firme até o meu cestinho. E eu à sua espera dou a mão para a ajudar na sua entrada ao meu navio. Bem-vinda a bordo minha amiga, e ao entrar no barco o seu corpo se materializa por inteiro e lado ao lado a sua mão no meu braço pousada, cabeça no ombro sentamo-nos bem juntos e assistimos ao despertar da magia.

Dois seres pequeninos no meio do cesto que flutua enquanto o lago por inteiro, numa luz branca que nasce do mais escuro e profundo do seu seio, aos poucos cresce em intensidade até brilhar como holofote mergulhado que nos cega por instantes e faz fechar os olhos. Brilha e atravessa as pálpebras, a pele os ossos e pó de estrelas ascende ao céu ao redor nossa por todo o lado num tempo eterno que nunca mais acaba.

E no meio de tanta luz, rodopiando devagar, mantém-se firme e calmo o nosso cestinho e nós com ele, abraçados, agora finalmente acordados no plano da magia e juntos novamente para mais um novo dia de viagem e partilha.

É de manhã, e o sol surpreso por alguém ter chegado ao pé do seu leito saúda, mão no chapéu, ainda sonolento e diz: tomem cuidado, não toquem na água até eu ter ido embora... mmm... vejam lá se não se queimam, diz, numa voz como água em cascata cristalina. E ascendendo aos ceus, a pôr apressado calças e camisola azuis de bombazina,  diz ainda, entre nuvens de vapor que ocultam o lago: até logo, podem ficar até quando quiserem, ehm... estejam descansados.....mmm... Sejam bem-vindos..ehm..por onde começarei hoje...ah sim, por ali, era por ali nesta estação.. nessa montanha...

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