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contos d´oeste

contos d´oeste

25

25
Abr22

25

contosdoeste

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Hoje é o dia, 

e um sol vibrante chega para quebrar, cadeias 

e estalar, cadeados

após compridas noites de incertezas.

É, 

e apesar de alguns,

precavidos, resistentes,

veteranos de mil encruzilhadas insuspeitas

ainda desconfiarem,

 um coração, gigante, sobrevoa prados, casais e montes 

e rubro sobre verde lateja

sob um sol amarelo de justiça

a iluminar o novo dia.

 

E é azul e branco o firmamento

limpo e transparente

e rubro norte a sul,

de lés a lés, o latejar gigante.

E a manhã, submersa em cantos de esperança e de namoro,

constrói em bicos de pardais

pousados em flores de amarelo intenso

um hino à paz e à alegria do futuro.

 

As máscaras caíram,

o ar que se respira e o tempo é novamente todo nosso

e no entanto, 

sim, 

Mandem para norte,

por favor, urgentemente
algum cheirinho de alecrim...

 

Amanhece hoje 25

Porque depois do nosso adeus

à noite, ao frio e à chuva crua,

ramos diminutos de esperança floriram, poucos, 

aos poucos

para nós,

e abelhões zuniram hoje entre grelos floridos

todo à nossa volta

matando a sede com minúsculas pingas de orvalho e mel.

 

É um pequeno sinal que a rádio enviou pelo país todo,

e pastores de sonhos a recebem confiantes

pois sabem que é desta vez que de aqui ninguém se arreda

o futuro já se enxerga ou, se agora fracassarmos, tudo rui e acaba.  

 

Sim, hoje o dia grande encher-se-á de vida

e a vida aos poucos encher-se á de dias alegres, prazer e folia

apesar de alguns olharem ainda, clandestinos, renitentes e desconfiados

como é natural, por trás de vidros embaciados. 

 

É 25

e a alvorada que clareja,

cegando carros e motocicletas 

que hoje cheios vão também de flores

amarelo gesta, amarelo tojo,

amarelo intenso da carqueija

(a celebrar em breve o maio que lá vem)

ilumina em alvorada intensa 

como holofote no palco do teatro

um galo negro que canta uma, duas , três,  25 vezes sempre

seguro do seu poder, beleza e liberdade. 

 

Quem fosse sempre galo!

E estivesse também tão certo de tudo como um 25 que vinca e permanece exemplo já para toda a eternidade

Sim, um abril como todos mereciam e ganharam,

que conquistasse maio e junho e

no qual 

até para os mais reticentes, sombrios ou golpeados pelos sofrimentos

alguém guardasse um ramo,

um cravo, 

uma pétala de flor que fosse.

 

E enquanto alguns estamos ausentes

guardem uma flor, um simples recado que nos deixem

Guardem sim um cravo para nós,

para mim

para todos nós.

 

Capitão, hoje e sempre, feiticeiro, operário,

surfista ou pirata ébrio e feliz na sua ousadia,

um homem comanda um último sortilégio,

um batalhão de livre verso

e letras blindadas,

a melhor guarda real,

a tropa de elite, da poesia,

guardada sempre-pronta

justo para este momento

aqui onde ninguém nos põe a pata encima

e o alento é o último que nos resta.

 

Lá vai sereno

atirando contra o vento brochuras, cravos,

gritos de esperança

e um tudo ou nada à risca, poema livre,

companheiro, camarada.

  

E ele é o alento, o sol,

o coração amigo, o galo,

as sete cores deste dia

ou um simples cravo vermelho,

que nos devolve 

poema, feitiço, sortilégio

visões dum futuro pleno.

 

Um coração-poema também tranquilo e calmo que lateja e se aproxima já

e inunda de cor, calor e mensagem certa

peitos a respirar, aroma de limão, pinheiro, arçã,

cravo e pimenta.

E é assim que,

coração-poema, chi-coração-poema, poema-abraço latejante,

ao chegar ao pé de nós

com uma voz que

                                   inunda

a nossa mente,

                                                vísceras e entranhas,

                                                                                       até tocar o fim das unhas

   e a última ponta dos cabelos,  

É assim que, finalmente, fala: 

sim, a esperança é uma arma carregada de futuro.

eu sei o que o futuro vos traz,  

vocês merecem. 

Não tenham nunca mais medo ou incertezas

o futuro é vosso. 

Sim.

Haverá primavera

 

12
Abr22

Abril

contosdoeste

turbilhão.jpg

É abril,

É abril e o vento zoa entre as telhas, levanta paixões e arrasta cadeiras e papéis velhos com a tinta a escorrer...

É abril, e dói

e um turbilhão de emoções alastra e a lua no alto comanda uma nova conjunção de estrelas

a olhar aflita para nós.

É abril, e o inverno e a luz

as sombras e os monstros

digladiam-se

por atrapar o que reste de nós nesta maré que ressona entrando pela rocha adentro

no buraco do inferno

na cova da piedade

Na lágrima fria que escorrega duma lua esbelta de marfim e mármore.

Nada que ela não tenha visto antes

e no entanto a compaixão a invade.

É abril e a vida desalmada rasga a seu passo quaisquer papéis ou regras que outrora quisêssemos manter.

Nada resta (de novo? Sim de novo, qual hipótese senão?) senão fincar os pés bem firmes no chão, olhando para o torvelinho cá de cima e

segurar no alto crianças e convicções

entre as mãos rudes.

Mãos-ninho, mãos-escudo, mãos-balança e equilíbrio....

e nuvem de algodão e construção firme onde brincar e ser, adormecer e deixar vir o sono inocente onde se tecerão os sonhos todos e sementes e aventuras crescerão, abrigadas do vento leste

enquanto a água escorre e pinga dos cabelos, da barba e peito nu e de antigos papéis e sonhos, ruídos, que descem procurando novas formas sulcando a minha pele.

Eu,

gigante,

nu,

com veias de azul do mar intenso e corpo rijo e branco

David de mármore que cobra vida apenas dedicado agora ao resgate doutros,

sou dono do meu génio, de feitiços e poemas.

Eu, entranhas-mármore, de mármore as mãos, a pele, o sangue, as veias

observo o redemoinho da banheira a escoar pelo buraco, e o turbilhão de emoções que abalam o nosso espaço,

enquanto as minhas mãos no alto seguram crianças, sonhos e brinquedos.

Os meus lábios hoje frios

outrora carregados de luxúria e decisão,

também hoje estão selados.

Pelas suas obras os conhecereis...

Cultivemos pois, a sabedoria dos céus.

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Nada resta senão recomeçar do zero

Mais firme, mais sábio,

num tempo algures, alhures, além, aqui no centro da existência que criei e rego, abrigo e cuido, aqui mas no futuro,

Futuro

onde é que ele vem?

u-lo?

Ali, talvez, nesse novo não-lugar

onde  eu-outro, talvez,

pastor de sonhos infantis

guardião da paz

e feiticeiro oculto entre névoas, lagos e montanhas

Talvez ali

serei por fim dono de mim por inteiro,

livre enfim para falar de novo

 e me entregar sem receio ou medo

Senhor de barco próprio a navegar

e dono do meu tempo.

Sei,

compreendo agora

mestre-hora,

Sábio entre os mais sábios:

Neste beco escuro onde o tempo se escreve às avessas

quanto mais devagar eu andar

maior o avanço e maiores serão os nossos passos

09
Abr22

Mar de névoas #1 - histórias de ida e volta#

contosdoeste

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Do alto do promontório observo de novo o horizonte e pelo canto dos olhos, à esquerda, o meu navio varado no meio do areal.

O vento salgado a entrar pelas narinas traz hoje cantos de sereias que atiram as suas redes à minha procura... Ai, vocês nem imaginam o como o seu canto é belo e estonteante!

Ondas alegres, juvenis, batem contra as rochas aos meus pés e pequenas gotas ascendem rochedo acima refrescando os dedos dos pés, os braços, a minha longa barba.

Estava um lindo dia para sorrir, sentar ao pé do mar e amar tanta beleza à minha volta. Mas, contra todo o pronóstico eu, hoje, continuo em pé olhando bem ao longe.

Sei que ali na linha do horizonte está o meu futuro e foi ali que enviei guardado a sete chaves um coração de boi gigante a latejar.

Hoje em que já nada me acalma nem me enerva recebo mensagens de futuros alegres e sorrisos meigos que batem contra o oco das paredes duma caverna onde as ausências lavaram a jato todos os cantinhos secretos que ficavam aonde jovens iam namorar.

Eu... à beira do abismo feito falésia e rocha viva em baixo dos meus pés, sei que preciso é antes de mais andar ou o frio tomará conta de mim durante séculos. E, todavia, não sou capaz de me mexer nem dar um só passo atrás, ou à frente....

Homem das cavernas, pescador da barca vela, homem-árvore, construtor de gaiolas e torres de marfim, boi-domado, outrora camponês e pastor de sonhos, sou, claro, também pirata, bandido e ladrão de corações.... eu bem me lembro disso tudo num meio sorriso inevitável... mas hoje (desculpem-me se não gostarem desta minha nova face), o meu cabelo é curto, muito curto, e a minha barba cresceu mais da conta até esconder o meu pescoço por inteiro e me chegar ao peito.... e deixando vagar o pensamento é que encontro as primeiras respostas: navegar, navegar até o vento gretar e o sol torrar a tua pele, até o cheiro a argaço entrando pelas narinas limpar cada cantinho escuro da tua alma.... Navegar, fechando por momentos os olhos ao presente.... afinal tem que haver sim algum Deus ou diabo à espreita em algum lado nem que seja para troçar dos nossos planos materiais, emoções ou vontades primeiras...

 

Acordo para o relato que acontece sob as pálpebras fechadas à maresia e lá vou eu, peregrino, novamente, a caminhar montanha acima, entre uzes, brumas e  lages primigénias.

Eu lembro aos poucos ao caminhar que viajo sozinho pois tirei do peito e atirei num sortilégio protetor o coração para um futuro distante até onde nada que eu sentir fará qualquer mossa num corpo firme de aço e platino desprovido de quaisquer emoções.

Aqui? De novo? O que faço eu aqui neste passado que mais uma vez cresce forte em mim, hoje, outra vez, novamente?

Chocado pelo inesperado retorno, aceito tal cenário e entrego-me. Homem da montanha, homem-dos-bosques sei bem onde estou e posso assim nomear um por um regatos, árvores, e leiras, assim como os donos que já de lá partiram para o sono eterno. Surfista sem prancha, os meus pés descalços galgam a reta da chamuscada, uma estrada humilde entre as mais humildes sem nome para quem não for indígena destas terras; nada a ver com ranholas, a 25 de abril ou as filas em aguassantas. Aqui ouve-se bem o motor dum carro muito, muito antes dele aparecer, pontinho minúsculo e distante lá ao longe. Avanço, e já o Busto se aparece entre a neblina e ao pouco tempo de andar, acolá, ao fundo, se intui a pista do Carvalhal e a seguir uma fonte de água pura que poucos conhecem antes das Cruzes e lá descendo a estrada, mas ainda no alto, por cima sempre das névoas invernais do Lor, Vilamor.

Cheguei, e no alto, dominando tudo e todos e o meu destino, a porta entre os dois mundos e fronteira, cá está, cheguei e eis que se mostra por inteiro em todo o seu esplendor, cume do monte, Pedra do destino, terra firme sobre o mar de névoa que domina a esta hora o mundo todo enquanto ele aos poucos acorda para um novo dia formando-se diante dos meus olhos pedaço a pedaço. Cá estava à minha espera: a Pedra da seara.

Pedra do destino onde idades, planos e existências separadas por milhares de anos ou quilómetros se encontram, ou estão apenas a um passo, dois passos a pé ao todo, se soubermos como e formos na direção certa.

Pedra da Coroação, pedra Scone, Ara solis da montanha no sopé do alto da Louseira, ali onde signos invisíveis dos templários se perderam arrancados à montanha para todo o sempre e lages imponentes foram assim usadas para teitar humildes sequeiros fumegantes. Cabanas onde se fez o amor, secou-se o pão dos pobres para poder sobreviver ao inverno, filhos foram engendrados durante séculos e houve festa grande cada fim do outono aquando a pisa das castanhas.

Pedra da Seara, eu te pertenço, por inteiro.

E agora que renovo os meus votos o teu poder para viajar em sonhos é também novamente meu por inteiro.

Quantos nomes.... Quantos,  de tempos passados me servem para me nomear por dentro: os covalhôs, o caminho da travancada, o souto pequeno, o cabezo, o val da laga e a pontezinha, e contra o vento, protetora, a pena curuxeira. Amigos daqui da terra, ai, se eu vos contasse que Leixões é um porto comercial e não uma leira abandonada, ou que o bolo do Castrilhom tem filas e faixas de carros engarrafados durante horas numa cidade-ilha de 200.000 habitantes..

Bendito espaço feito à medida dos homens com a sua enxada ao lombo, a sua matança, a sua partia, o seu dia de atar os chouriços, sequeiros e castanhal, o seu tear de ouro oculto baixo as pedras dos mouros e a sua história viva onde cada pessoa conta, cada um de nós é alguém e isso importa.

Isso importa sim.

Muito

 

 

 

 

04
Abr22

Rochedo - histórias de ida e volta#

contosdoeste

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O mar.

O mar chama por mim de novo mostrando em espelho-d'água a paz das suas ondas eternas e o seu riso meigo. E eu com um sorriso gigante na cara e tristeza no olhar, observo.

Observo enquanto és tu quem se vai embora e parte, à procura do desconhecido, adentrando-se nua num mar distante.

No alto dum rochedo que conheço bem, sentado, eu, sozinho, observo.

Camarinhas, Lage, Cabo Vilão.

Outrora batiam durante a noite fortes tormentas e trovoadas borrifando de espuma branca por inteiro o promontório.

Hoje não, já não, hoje é um tempo novo no qual desconheço tudo, novo e silencioso onde a calma arrasta uma dor como o golfinho morto que varado no areal a nova maré trouxe e não acaba de decidir o que fazer com ele. Deixará na praia esse cadáver? Leva-lo-á de volta para ser aproveitado pela imensidão do mar?

Fisterra, um farol a penetrar na imensidão.

Nada se move, não há pássaros, nem cães, nem surfistas, nem peixes saltitando. É uma solidão absoluta dum tempo morto que não quer trazer trégua nenhuma. Será? 

Contudo, há sim outras presenças, e deuses doutro tempo assobiam nos ouvidos incautos ali, no alto do rochedo donde se intuem os seus risos malvados enquanto troçam a várias vozes das mais firmes convicções.  

Como se tivessem qualquer hipótese de me magoar nesta altura. Pobre da solidão que nada percebe de sonhos e utopias.

Um homem nunca está sozinho de todo.

Sentado no meu altar improvisado canções do paraíso pretendem em contrapartida agasalhar o meu corpo, dar aconchego ao coração e trazer à tona um futuro terrenal cheio de boas partilhas, melodias eternas de cantares redescobertos uma e outra vez ao redor dum jantar improvisado, bons petiscos em cantina amiga,  bom vinho gentil e generoso, cantores abraçados que brilham com luz própria na penumbra....

E, nesse cenário, lindas estrofes nascidas séculos atrás nos acompanhariam por horas a fio à mistura com novas letras desta língua renovada. E na lareira um lume manso estaria já a crepitar por toda a eternidade. Ai, se você quisesse!...

Eu quero ir, para o altinho que daqui não vejo bem, quero ir.....

Dono do meu presente, sei qual é hoje o nome que melhor me assentaria em tudo que fiz até ao momento, Luigi, Gigi, Girolamo, menino-Rei do nada perdido num presente insólito.

Ao passar a ribeirinha pus o pé, molhei a meia, pus o pé....

Rei destronado do reino farturento do Futuro onde tudo era sempre possível; Gigi o contador de histórias solitário, construtor de sonhos impossíveis a inventar o mundo uma e outra vez, e sempre novo e diferente, com belos truques de magia inesperados, fogos de artifício de mil cores, tudo que fosse preciso para agradar a criança por quem ele estava apaixonado por completo. Você. Você...

Eu quero ir, minha gente, Eu não sou daqui....

Gigi apaixonado por você, você, tu, que sempre tinhas uma outra missão mais premente do que nenhuma outra. E afinal tinhas, não tinhas? Pois ainda tens, não tens? Ver-se-á.

Espero bem que sim e o que eu poderia ou hei de dizer além de: tudo de bom para ti e apita se precisares de ajuda, pois cá estamos como sempre, eu é que não tenho intenção de ir a nenhum outro lugar mais do que àquele ao qual pertenço. Sim, eu estou com os pés bem firmes no chão plantados. Só desta maneira é que se pode voar sem medo às alturas.

Sabe-se lá o que é que poderia haver mais importante na vida do que amar e ser-se amado.... você é que sabe, e eu é que nada sei do que em tempos soube. Ou talvez sim, talvez sempre soube que não sabia. Eu... Talvez não queria saber, sabe?

Penso por um momento nesses sentimentos que num frenesim doentio me perseguem sobrevoando a cena e o meu corpo, rodopiando à minha volta, minúsculos seres.... seres  procurando uma falha nas defesas com as suas trajetórias de voo em forma de ovo, com as suas agudas vozes querendo entrar peito adentro e me roubar o ar e a minha alma. Não podem não. É preciso coração aonde se dirigir e alguém que queira impedi-los de entrar. Pelo contrário eu deixo atravessar corpo e defesas pois sei que nada encontram senão o espaço vácuo, escudo de metal e pedra dura, rocha inexpugnável. Hoje não, hoje vocês nada podem fazer.

É preciso coragem para arrancar o coração a duas mãos, olhar bem de frente o seu latejo e falar assim:

Desculpe meu amigo, mas não é boa ideia agora estarmos juntos. Eu... vou-te proteger, mas não aqui, senão num cofre a sete chaves bem longe, numa rocha humilde e inesperada, num lugar do futuro, espigão longínquo à frente do mar desafiante. Fonforron, Felgueiras, Cabedelo, ai o mar! 

Guardado numa cova qualquer ou neste meu rochedo, num espaço secreto doutra era, num nicho bem quentinho a prova de marés e furacões você estará a salvo, pois manter-nos-emos em planos diferentes da existência. Este é o meu poema sortilégio. Assim eu protejo você e ficarei, assim, tranquilo e calmo.

Observo.  E vejo cenas sobrepor-se, imagens doutros tempos, dum futuro inexistente. Enxergo mãos apaixonadas que se entrelaçam num passeio ao pé do mar. Razo, Caiom, Fisterra Riazor... quanta vida, quanto mar....

Quanta história comum partilhada que parecia eterna, agora submersa como livro de memórias mergulhando as ultimas folhas e fotografias velhas num mar de tons oleosos que cintilam ao pôr-do-sol do fim desta jornada.

O Mar.

O mar. Uma mulher de passo firme escolhe decidida entrar nele sem trocar de roupa, ousada, rebelde, dona de si própria e o seu destino, e cá vêm os adeuses que finalmente chegaram para se tornar realidades.....

E atrás deles um homem ao desespero: Espera por mim! Espero eu por ti, queres?! Leva-me contigo! Fica aqui comigo.... só mais um pouco!...

Palavras ocultarão palavras e a raiva gritante da mudança que as marés vivas trazem e que encherão tudo de vermelho sangue, novas constelaçoes a surgir violentamente no firmamento e o cheiro a ferro que negará o último abraço.

O homem de lata sabe bem do que eu falo.

Cá do alto observo tudo e todos e vejo o quanta sorte eu tenho de ser quem eu sou. De estar onde estou. Agora sei finalmente o meu verdadeiro nome e o sol vem já na minha ajuda derreter a face de cera dum Gigi solitário.

Manuel meu Manuelinho, Manuel feito de cera....

Canções que aumentam em intensidade e olhos que choram mas mantêm o sorriso perante as crianças, pois unicamente choram porque tiveram de cortar cebola e mais cebola para aprontar o almoço, é só isso, sim, apenas isso e mais nada. É.

Cebolas-das-gaivotas florescem no areal num segundo, chamando a atenção de quem sabe ler na palma das mãos abertas. Flores-de-uma hora que derretem e ardem também perante um sol impiedoso e abrasador. Roupas ardem igualmente deixando a nu o rei, dono e senhor por inteiro do seu firme rochedo a beira-mar plantado. Marés vivas batem contra as pedras onde sol e a lua se alinharam para tecer o seu destino.

Eu conheci Man, sim, o alemão, o homem-solitário de Camelhe a morar num pedregal a beira-mar deitado.

Tal como ele recupero agora eu o meu verdadeiro nome que não pronunciarei. Não aqui, não agora. 

Não. Não minhas amigas....não, não sou eu esse homem suplicante que vi no areal. 

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