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contos d´oeste

Aprendiz & Caminhante

contos d´oeste

06
Mar22

Guardião da Paz

contosdoeste

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A paz no meio ao peito me acompanha, mas às vezes o coração fraqueja, faltando-me o ar, e respirando ainda à custa quando deixo vir à tona o puro sentimento.

Aflito perante tempos convulsos que chegaram para permanecer, construo um escudo protetor à minha volta com letras tiradas das sopas das crianças.

Não, não deixarei ninguém de fora, sei bem quem amo e quem também me faz sonhar com as suas canções, belos poemas, ideias de esperança e belos sonhos doutrora que inscritos já nas grutas e desenhos das cavernas e ao mesmo tempo em naves espaciais que só surgirão daqui a duzentos anos connosco viajam. Tal e como nessa terra de outrora, de hoje, e sempre, que em sonhos me visita, não peçam que console ninguém ou mude o foco agora para outros que não os vulneráveis que eu protejo.

Proteger e cuidar doutros, compaixão, olhares carregados de beleza, e um mundo de ensonhações reclama há bem tempo da minha presença sempre adiada pela maldição dos homens cinzentos. E afinal é tudo tão simples como estar em paz e deixar correr, estar em, ser&estar, ser e deixar correr rios de tinta,

será?

Uma dor quer fazer-se presente através das letras, talvez para não serem lidas por ninguém, mas lá que ela quer, quer: incomodar, desentoar, com outras melodias que sempre cá viveram em paz, ritmo de tango e harmonia. Não tenho medo, abro as mãos, estico os braços e atiro-me do alto dum penhasco contra as pedras afiadas como espinhas ou hastes rochosas lá no fundo.

Não tenho medo, abro as asas e pairo, nu, ciente do tambor que lateja profundo e firme no meu coração, observando a cena.

Nada dói mais que aquilo para o qual nunca estávamos em verdade à espera, apesar de avisos recorrentes dos profetas. É uma dor surda, em retardo, que acompanha como um cancro sempre à espreita dum despiste, olhando para fotos velhas, lembranças, melodias, rotinas quebradas, letras.

Coitada desta dor, pensa ela que tem qualquer hipótese de me vencer, mas eu deixo-a vir quando me apanha e quando quero num piscar de olhos, num triscar de dedos afasto-a e sopro-a de palma estendida enquanto observo como esvoaça o resto do seu fumo azul e inofensivo. Não, não aceito a derrota, pois não estou em guerra, e a paz me invade por saber-me completo e a fazer as coisas certas. Sem dúvidas, ciente do meu lugar de homem finalmente humilde quanto baste e sábio quanto é preciso nesta hora, eu sei que o meu presente é a minha espera.

E se é pra estarmos vivos, viver a vida enamorado da sua beleza e cuidar daqueles a quem amas uma só palavra basta: gentileza.

Observo a conjunção de estrelas... Marte cavalga encabritado, mas eu firmo o meu olhar e vejo claramente, não é a mim que procura mas outras terras. Tenho dó deles, dos de sempre, inocentes no meio de gigantes a atirarem, insensíveis, pedras e derruir montanhas, estradas, prédios, vidas, terras... no país da língua dos passarinhos, será que existe nome mais lindo para uma outra língua tão complexa?

Mas não, não é a minha luta, é sim o meu abrigo que aparece, tipi de indígenas americanos, que ofereço a quem dele precisar em tempos de furacões e vento enraivecido.

E eu, protetor deste recanto diminuto da galáxia, atiro um sortilégio com o movimento dum só dedo e abrigo entre peles, à luz dum lume manso que escapa pela portinhola da tenda de campismo, sob esta abóbada estrelada, pequenos rebentos inocentes que de mim dependem.  Envolvo assim numa esfera de energia cintilante dentro desta tenda, uma casa pequenina, de brinquedo onde brincam com as suas bonecas, e lá está tudo quanto é preciso nesta hora, com os quartos, as camas, os lençóis que brilham por segundos em luz cor-de-laranja, rosácea e amarelo vivo a proteger o seu descanso quando adormecem um por um os seus bebés, bolas de futebol e tudo o resto. É um gesto pequenino, insignificante, como também são os nossos problemas.

Paladino duma nova era, concentro o meu olhar no lume crepitante, olhando solitário para toda a escuridão à minha volta.

O lume se reflete nos meus olhos, perfilha a minha silhueta de pensador de punho a segurar o peso por inteiro da expressão em maxilares apertados, a linha da boca numa retidão inconsciente. Não é severidade, mas concentração, não desafio senão entrega ao que a vida trouxer nesta hora incerta.

É a hora em que corvos levantam o seu voo grasnando com violência e desacordo com a cena e comigo.

Coitados eles também, não, não me importo com a sua presença, sei quem sou, qual a razão de aqui ter vindo ao meio do deserto de pedras e morraça. Palavras ecoam na minha mente: Faz aquilo que puderes fazer conforme a tua consciência.....um passo de cada vez, depois o outro.... não tentes consertar aquilo que de ti não depende... O teu destino apenas a ti pertence...cuida quem te cuida.... A matilha de lobos no alto de penas elevadas saúdam o luar que tenta em vão iluminar a cena com luzes de esperança, e em vão eles clamam pela minha presença.

A cena é duma beleza e frio insuportável. Não para mim, nem me importo com o frio, apesar de avaliar o como este deserto é imensamente belo e cruel; não para mim, com o meu poder e as minhas convicções.  Convoco toda a força dos quatro seres que em mim encontram o seu lugar certo: o sábio de brancos cabelos e olhar calmo, o jovem sonhador e divertido, a criança brincalhona e inteligente e o amante protetor, o melhor dos amigos. Um tempo novo urge medir bem as palavras e os silêncios, e afora desabafos necessários, é tempo de espera, proteção e resistência e pouca conversa.

No alto, em contraste com uma lua gigante de fevereiro, ao chamado dos lobos e duma noite limpa, clara, cheia de luz e estrelas, uma coruja veio, e com ela o redemoinho de folhas secas, um vento rude que atira pedra e pó nos olhos de quem anda em terra. Poucos seres poderão existir mais donos do silêncio, e ela, sábia como poucas, dona da noite e do seu tempo, chega em silêncio e em silêncio mostra todo o seu poder e graça. É duma beleza incomparável, mas sou eu que não posso com a minha cara suja, cheia de pó e areia olhar para ela nem atender ao seu feitiço, muito menos entrar no poço eterno da sua bela olhada onde perder-me-ia feliz por toda a eternidade. Pousa num galho seco duma árvore morta, ali espetada há décadas, e em silêncio, silhueta a contraluz de tudo quanto e belo e vale a pena, observa tudo e cala. Às vezes ouvir em silêncio é quanto baste...

Sou pai e nesta hora fecho os olhos ao exterior e, contudo, a minha visão é alargada: Há inocentes a morrer em cruentas guerras novamente, e eu, num ponto de egoísmo inevitável sinto uma pequena tranquilidade da que não ouso envergonhar-me por atender problemas cuja solução está ao meu alcance. 

É amor e mais amor, paciência, compaixão e compromisso. A livre determinação ligada à gentileza.

As coisas importantes são sempre poucas e carregadas de simplicidade; casados com a vida e com uma só palavra de ordem que interessa: proteção dos olhos inocentes, sonhadores, brilhando no meio desta noite em segurança.

Gentileza.

Si vis Pacem para pacem dizem sabiamente alguns políticos nesta incerta hora

E eu a paz duma esperança inquebrável alimento enquanto mantenho aceso o meu lume na lareira.

Também eu digo, a paz é o único caminho, e cada um toma conta do seu próprio fado.

O meu é ser dono de meu sino, Turim turambar, amo do destino fincando firme os pés em terra, esse sou eu, nunca até o de agora por ele dominado.

O resto, tal e como a amizade verdadeira e o verdadeiro amor dependem de si próprios e dalgo maior que todos nós.

Esperará você por mim nesta hora incerta?

Contra toda esperança, mais uma vez,

eu, guardião da paz,

Espero.

 

16
Nov21

Queixa Das Almas Jovens Censuradas

contosdoeste

 

Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
Mais um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma de uma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prêmio de ser assim
Sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras das avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa historia sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo

Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Somos vazios despovoados
De personagens do assombro

Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco
Dão-nos um pente e um espelho
Pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
Um avião e um violino
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida, nem é a morte...

Composição: Natália Correia letras/José Mário Branco músicas

 

10
Out21

Corrente

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A corrente arrastra feliz desgostos, seixos e pedrinhas enquanto a queda das folhas em forma de coração dos vidoeiros alastra floresta adentro.

Choupos de casca branca deixam também cair o seu confete de outono a nosso passo criando um tapete macio e luminoso: amarelo, castanha, laranja... e numa das voltas do caminho, um carvalho americano vira já as folhas a rubro na nossa homenagem enquanto nos saúda com um galho tenro, mão a abanar, num gesto gentil, animado por uma brisa fresca vinda do norte.

Hoje temos sim, finalmente, tempo a um passeio demorado a sós, em paz, e o rio à nossa espera escolhe fazer meandros em forma de Us ou Esses como se o teu nome estivesse repetido uma e outra vez, letras malandras ao ziguezague em curvas impossíveis, enquanto ordena às águas ficarem calmas e gorgulhar de mansinho, apenas como fonte pequenina de sons e letras atiradas só para nós ouvirmos, como música, passeios por um parque ou poemas, que embalam os nossos pensamentos.

O rio é de novo o nosso amigo num dia calmo em que pontes suspensas ou feitas de traves improvisadas e pequenas tabuinhas nos permitem saltitar de um meandro até ao seguinte.

Vou por um caminho que você traçou para partilhar comigo e leio nos seus olhos amor pelas coisas belas, calmaria, confiança e eu sorrio como um pateta enquanto tudo brilha ao nosso redor na luz do entardecer que nunca acaba.

É tudo feito à medida simples e humilde dum passeio alegre e ensolarado de domingo.

No rio, que atravessa floresta e preocupações, não há lugar para mais nada senão a presença dum tempo tudo para nós, que hoje feliz nos obedece.

É por isso, que cada palavra conta, e cada letra fica quietinha no seu cantinho baixo o arvoredo, a espreitar agachadas entre o mato, fascinadas, pelo nosso avançar sem pressa.

Em silêncio, mão e coração, cabeça e pés, pernas e atenção se concentram apenas na beleza da caminhada, nas pequenas coisas banais que acontecem sem ir à procura, como o encontro duma vara apanhada ao acaso, apoio e bengala sempre útil, ou, sem dar por isso, o retorno ao lar em passo acompassado,

lado a lado,

com a simples maravilha a acontecer

das nossas mãos,

a brilhar 

à luz do entardecer,

entrelaçadas. 

 

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