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contos d´oeste

contos d´oeste

25

12
Abr22

Abril

contosdoeste

turbilhão.jpg

É abril,

É abril e o vento zoa entre as telhas, levanta paixões e arrasta cadeiras e papéis velhos com a tinta a escorrer...

É abril, e dói

e um turbilhão de emoções alastra e a lua no alto comanda uma nova conjunção de estrelas

a olhar aflita para nós.

É abril, e o inverno e a luz

as sombras e os monstros

digladiam-se

por atrapar o que reste de nós nesta maré que ressona entrando pela rocha adentro

no buraco do inferno

na cova da piedade

Na lágrima fria que escorrega duma lua esbelta de marfim e mármore.

Nada que ela não tenha visto antes

e no entanto a compaixão a invade.

É abril e a vida desalmada rasga a seu passo quaisquer papéis ou regras que outrora quisêssemos manter.

Nada resta (de novo? Sim de novo, qual hipótese senão?) senão fincar os pés bem firmes no chão, olhando para o torvelinho cá de cima e

segurar no alto crianças e convicções

entre as mãos rudes.

Mãos-ninho, mãos-escudo, mãos-balança e equilíbrio....

e nuvem de algodão e construção firme onde brincar e ser, adormecer e deixar vir o sono inocente onde se tecerão os sonhos todos e sementes e aventuras crescerão, abrigadas do vento leste

enquanto a água escorre e pinga dos cabelos, da barba e peito nu e de antigos papéis e sonhos, ruídos, que descem procurando novas formas sulcando a minha pele.

Eu,

gigante,

nu,

com veias de azul do mar intenso e corpo rijo e branco

David de mármore que cobra vida apenas dedicado agora ao resgate doutros,

sou dono do meu génio, de feitiços e poemas.

Eu, entranhas-mármore, de mármore as mãos, a pele, o sangue, as veias

observo o redemoinho da banheira a escoar pelo buraco, e o turbilhão de emoções que abalam o nosso espaço,

enquanto as minhas mãos no alto seguram crianças, sonhos e brinquedos.

Os meus lábios hoje frios

outrora carregados de luxúria e decisão,

também hoje estão selados.

Pelas suas obras os conhecereis...

Cultivemos pois, a sabedoria dos céus.

IMG_20220420_162837.jpg

Nada resta senão recomeçar do zero

Mais firme, mais sábio,

num tempo algures, alhures, além, aqui no centro da existência que criei e rego, abrigo e cuido, aqui mas no futuro,

Futuro

onde é que ele vem?

u-lo?

Ali, talvez, nesse novo não-lugar

onde  eu-outro, talvez,

pastor de sonhos infantis

guardião da paz

e feiticeiro oculto entre névoas, lagos e montanhas

Talvez ali

serei por fim dono de mim por inteiro,

livre enfim para falar de novo

 e me entregar sem receio ou medo

Senhor de barco próprio a navegar

e dono do meu tempo.

Sei,

compreendo agora

mestre-hora,

Sábio entre os mais sábios:

Neste beco escuro onde o tempo se escreve às avessas

quanto mais devagar eu andar

maior o avanço e maiores serão os nossos passos

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