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contos d´oeste

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Ago21

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O verão, que não quis vir quando era a sua hora, chegou agora carregado de calores querendo devolver às pressas tudo que não trouxe no seu momento. Sei que mais um dia quente virá acompanhado de tarefas sempre adiadas e que agora já é preciso realizar. Mas neste amanhecer calmo e fresco, onde o orvalho ainda molha os meus pés descalços, eu passeio pela relva e por um novo solo firme que me sustenta e refresca.

Hoje pequenas margaridas minúsculas e humildes flores de trevo branco fazem-me cócegas e saem entre os dedos dos meus pés que, sem querer, arrancam algumas ficando assim enfeitados de branco e amarelo. Um abelhão solitário de cauda também branca e amarela, inicia o seu voo de reconhecimento com os primeiros raios de sol. O cão no seu cantinho escuro abana o rabo que bate contra o chão de madeira num som conhecido, calmo, repetido, de bem-vinda, ao cheirar o dono que se aproxima. E como todas as manhãs apenas sai de meio corpo para pedir uns mimos e voltar para o calor aconchegante da casota.

Penso em você, e em todo o que nos trouxe até aqui num caminho de rosas bem cheias de espinhos. Mas o quê seria da luz sem as sombras?

Há pessoas que nos fazem bem e nos iluminam com a sua luz dourada que sái bem do centro do peito. Há risos, sorrisos, cumplicidades, palavras meigas de orelha a orelha que nos fazem arrancar para o trabalho contentes por tanta partilha, tanto crescimento, tanto respeito, tanta vida. E há ainda os sonhos comuns, aquilo que nos faz vibrar na mesma sintonia e, entre planos da existência ocultos aos mortais por um veu que não nos é permitido destapar, nos liga. A vida é feita também de grandes momentos gigantes, encontros ao acaso, conexões desconhecidas, intuições, ligações entre diferentes eras e vidas...

Um sentimento, que nada entende de sofrer ou de lamentos, paira no ar entre brumas de algodão.

Gratidão, por este sol manso que aos poucos se eleva saudando de bons modos às montanhas, ao pinhal, às estradas sempre cheias de curvas que levam a dunas de areia fina. A manhã está fresca e em t-shirt, sem camisola, os meus braços, estimulados pelo frio e por um sentimento de pertença, arrepiam.

Gatos esticam-se e bocejam e andam logo à minha procura, mianhando, também mimosos a pedir carícias e enroscarem-se nas minhas pernas. Creio que em verdade acham que sou eu que lhes pertenço dum modo contrário a como o cão se sente bem tendo um dono. É mágico perceber como essas diferenças criam uma ligação maior entre nós todos. Inútil querer lutar contra a verdadeira natureza de cada um, até o cão sabe disso e por isso aceita os novos gatos da casa, quere-os, e, só quando eles se deixarem, irá deitar-se ao seu lado, brincará com eles, e quando ganharem confiança passados muitos meses como já fez com os anteriores lambê-los-á com mimo entre as suas patas. Talvez não sejamos nós os proprietários de terra, leira, casa, lugar sagrado, emoção ou quinta alguma. Talvez somos nós que a ela pertencemos.

Corvos sempre à procura de alimento levantam voo ao sentir a minha presença. Os poucos carros que nesta hora vão trabalhar passam com os seus feixes de luz a iluminar as últimas sombras do pinhal próximo e os seus olhos vermelhos faiscam quando param antes de acederem à estrada principal. Há tanto silêncio que cada elemento entra e sái da cena isoladamente, com espaço próprio tal e como a bruma que começa a elevar-se com a saída do sol e adquire vida, marca presença, respira-se fria num momento atemporal que nos liga ao princípio dos tempos e aos sentimentos mais fundos que connosco caminham. 

Saindo das cavernas ou de abrigos feitos de madeira ou peles, ou com as primeiras casas circulares, a mesma bruma, o mesmo lento acompassar dos acontecimentos terá sido repetido uma e outra vez por milhares de anos enquanto homens e mulheres acordavam para não deixar morrer o lume no lar primigénio e sem pressa preparar o pequeno-almoço. Em qualquer das épocas, bebés mamariam ainda em sonhos em leitos de peles e calor materno sem acordarem e cães saudariam o despertar da sua matilha de humanos em que confiam. E ali, como em todas as idades, cada amizade, cada pessoa importante marcaria também um antes e um depois no caminho dos sonhos e da utopia.

Num tempo antes do tempo, grupos de humanos isolados, conetados com a vida e com outros grupos amigos, não teriam conhecido ainda grandes guerras nem trabalho escravo e veriam o passar da vida contando luas e estações, o nascimento de novas crias, a morte de pessoas queridas. E a cada dúvida, dificuldade em conseguir o alimento, conflitos entre jovens e velhos, ou esperanças numa nova vida, o sol indicar-lhes-ia o caminho de novos sonhos e novos desafios. 

Às portas das cavernas, no melhor dos miradouros, na praça comum com os melhores lugares e vistas, nos postos de vigia... por milhares de anos milhares de almas teriam estado sempre orientadas ao lugar certo para em silêncio despedir o sol do verão e olhar em verdadeira paz a sua partida. Para o Oeste.

Não, não é por acaso que as nossas igrejas olham sempre para o pôr-do-sol e deixam que o amanhecer lhes aqueça as costas e os ossos húmidos onde guardam os seus mais profundos segredos enquanto o adro sagrado esperará pacientemente pelo seu momento ao fim do dia. Para o Oeste, antes de o equinócio marcar o abalar da magia. Para o Oeste a cada dúvida no caminho, a cada paragem da tribo esfomeada ou com sede, a cada barragem intransponível que faça desviar o nosso rumo.

Para o Oeste. Ali dirige o seu olhar o farol milenar da cidade aonde em breve me dirigirei, cabeça, guarda, chave e antemural, como num conto de fadas, cabeça principal ainda hoje dum antigo reino de todos escondido.

Hoje é de manhã e de olhos fechados e de costas ao sol que amanhece, também eu recebo o seu calor com um gatinho ao colo, olhos postos em direção aonde sei que fica o mar e milhares de sonhos ocultos baixo as pálpebras.

No maior dos silêncios, o canto do galo vem para quebrar o feitiço.

Sim, é muito hora.

Hora de ir trabalhar e por isso o galo canta uma, duas, três, cinco vezes, sem pausa, exigente.

Toca obedecer ao seu reclamo, abrir a portinhola às galinhas e deixar nascer o dia.

 

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