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contos d´oeste

Aprendiz & Caminhante

contos d´oeste

10
Out21

Corrente

contosdoeste

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A corrente arrastra feliz desgostos, seixos e pedrinhas enquanto a queda das folhas em forma de coração dos vidoeiros alastra floresta adentro.

Choupos de casca branca deixam também cair o seu confete de outono a nosso passo criando um tapete macio e luminoso: amarelo, castanha, laranja... e numa das voltas do caminho, um carvalho americano vira já as folhas a rubro na nossa homenagem enquanto nos saúda com um galho tenro, mão a abanar, num gesto gentil, animado por uma brisa fresca vinda do norte.

Hoje temos sim, finalmente, tempo a um passeio demorado a sós, em paz, e o rio à nossa espera escolhe fazer meandros em forma de Us ou Esses como se o teu nome estivesse repetido uma e outra vez, letras malandras ao ziguezague em curvas impossíveis, enquanto ordena às águas ficarem calmas e gorgulhar de mansinho, apenas como fonte pequenina de sons e letras atiradas só para nós ouvirmos, como música, passeios por um parque ou poemas, que embalam os nossos pensamentos.

O rio é de novo o nosso amigo num dia calmo em que pontes suspensas ou feitas de traves improvisadas e pequenas tabuinhas nos permitem saltitar de um meandro até ao seguinte.

Vou por um caminho que você traçou para partilhar comigo e leio nos seus olhos amor pelas coisas belas, calmaria, confiança e eu sorrio como um pateta enquanto tudo brilha ao nosso redor na luz do entardecer que nunca acaba.

É tudo feito à medida simples e humilde dum passeio alegre e ensolarado de domingo.

No rio, que atravessa floresta e preocupações, não há lugar para mais nada senão a presença dum tempo tudo para nós, que hoje feliz nos obedece.

É por isso, que cada palavra conta, e cada letra fica quietinha no seu cantinho baixo o arvoredo, a espreitar agachadas entre o mato, fascinadas, pelo nosso avançar sem pressa.

Em silêncio, mão e coração, cabeça e pés, pernas e atenção se concentram apenas na beleza da caminhada, nas pequenas coisas banais que acontecem sem ir à procura, como o encontro duma vara apanhada ao acaso, apoio e bengala sempre útil, ou, sem dar por isso, o retorno ao lar em passo acompassado,

lado a lado,

com a simples maravilha a acontecer

das nossas mãos,

a brilhar 

à luz do entardecer,

entrelaçadas. 

 

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