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contos d´oeste

Aprendiz & Caminhante

contos d´oeste

07
Jul22

Entardecer

contosdoeste

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Entardecer.

Entardecer consigo.

Eu quero entardecer consigo de mãos dadas.

Num belo entardecer que nunca acabe.

E enquanto a vida estivesse a passar apressada à nossa frente, os nossos passos demorar-se-iam num passeio de pernas à vista, mão entrelaçada, finos tecidos e pele bronzeada ao sol.

As meias de lã grossa teriam ficado atrás, numa outra vida dura e agreste, como um longínquo sonho juvenil que sempre nos trará saudades.

E você e eu, um dia tal e como hoje, em silêncio, caminharíamos no planalto, serenos, a ouvir a água a correr num rego, em mil regos, que ao nosso redor estariam, por todo o lado, alegres e a gorgulhar montanha abaixo. 

E já cá estariam também os grilos por todo o prado, e abelhas a zunir e correr pra lá e pra cá .

O sol do belo entardecer iluminaria as nossas faces e nós, deuses gregos em linho branco e sandália romana caminharíamos num jardim cheio de flores silvestres num verão encantado. Haveria pampilhos, papoulas carmesim e botões-d'ouro por todo o lado, mil-folhas de cor branca e algumas poucas (como sempre) cor-de-rosa. Também lá estariam as roseiras bravas. E flutuando através da brisa quente, o orégão selvagem invadiria narinas e encheria o peito de desejos.... e numa explosão de cor lilás um pouco de alfazema que eu trouxe para si na minha outra mão logo apareceria por magia no momento exato em que estivesse a escrever estas letras.

E você, que não quer ficar atrás, numa curva do caminho estenderia a mão e convidar-me-ia para a sua exposição improvisada que nascesse à nossa frente.  São quadros em lenço e cavalete ou fotografias, às centenas, aos milhares, por todo o terreno até perder de vista.

Um pouco mais à frente, à nossa espera, lá estaria, até onde a vista alcança, gigante, o eterno lago. E a pé do caminho, no lago, um banco de madeira. E ao pé do banco de madeira,  um grande relógio de torre, afoito e feito em buxo, a dar as horas.

Para quando ali chegássemos já saberíamos o como fazer parar os ponteiros, o quando fazer voltar atrás o tempo e viver como se fôssemos crianças ou, mais arriscado ainda, o para quê fazer andar as horas para a frente, com muitas precauções, vendo o nosso cabelo ficar todo comprido e branco.

Mas hoje é o belo entardecer eterno, dourado, a hora certa em que você e eu finalmente tinhamos marcado um encontro e fomos convocados. Um encontro anunciado nas estrelas e em noites de insónia, um encontro sussurrado ao luar como mão a passar meiga entre os cabelos, um encontro insinuado pelo sol fazendo cócegas na nossa pele, beijando os nossos olhos fechados e impregnados dum vermelho intenso.

Um reencontro como se dois gêmeos finalmente unissem peças a que não encontravam qualquer sentido e construíssem desse modo um propósito maior por milénios esperado.

A máquina do mundo, cheia de rodas e engrenagens, avançaria com a nossa caminhada mais um passo, um novo movimento, e ao toque do relógio à nossa frente constelações alinhar-se-iam, novos mundos surgiriam nesse instante e outros nesse mesmo movimento explodiriam entregando a sua energia às nuvens cósmicas.

Chegamos,

nós,

firmando um presente de certezas

e numa ordem mental indiscutível fazemos o relógio ficar tranquilo, quieto e em silêncio pois há um banquinho ao sol à nossa espera.

E ali sentados, você e eu 

finalmente reencontrados

Finalmente em paz e calmos

à espera do luar e das estrelas, abraçados num belo entardecer eterno,

Dizemos um ao outro:

Nunca mais.

Nunca mais.

Nunca mais voltaremos a ter pressa.

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