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contos d´oeste

Aprendiz & Caminhante

contos d´oeste

11
Fev21

Festa da primavera

contosdoeste

melro.jpeg

 

 

 

Do alto do meu ramo vejo chegar de novo o terror inesperado que me vigia,

Sei que sempre andou à espreita, mas nunca soube encará-lo.

Hoje não desvio o olhar, não fujo a correr, não procuro passar desapercebido.

Hoje sou eu que observo também.

E escrevo, falo

de ti

 

Olhos vermelhos no escuro, ponta de cigarro acesa,

não procuro o desafio,

apenas sou eu quem já não finjo

não saber

de ti,

mas tu ainda nem reparaste

porque este é o meu poema,

 

sou eu que viajo.

 

Desço da árvore, apanho uns gavetos,

faço lume vivo em silêncio

 

Ficas onde a bóveda de luz se espatifa,

onde já nascem as sombras,

 

Sou eu que escolho deixar-te à minha direita,

é assim que me dou a minha vantagem.

 

Umas tiras de presunto, uns pimentos, um chouriço ao espeto.

Gordura que pinga nas brasas e arde com brilho

Amigos de quatro patas cheiram de longe com gula,

vêm ter comigo

dois, três, quatro, línguas que se relambem o focinho.

 

Não abro a boca mas falo: hoje não, hoje não há muito para vós

e também não é convosco que eu hoje caminho.

 

Amigos curtam a noite mas deixem-me agora

não contem comigo.

 

Atiro-lhes longe quatro ou cinco chouriços.

 

Em silêncio ouço a disputa e sorrio,

sei bem quem ganhou e deixa só os restos para os outros amigos.

Eu como em silêncio, sem pressa.

Sozinhos de novo eu e ele, ela, isso, quem for.

 

Silvas vivas de letras vermelhas crescem da sua origem, rodeiam o lume, cercam-me

sobem pelas árvores os seus espinhos

Sinto um calafrio, um ar gélido se alevanta.

Sei que hoje vai vir ter comigo.

 

Quebro mais lenha miúda, avivo o lume e espero.

 

As letras em silva, vermelhas de sangue roxo, fecham o circulo.

Bóveda de espinhos que engordam.

Não ficam saídas.

 

Sonho uma armadura, uma espada ao cinto,

duas adagas, um elmo, setas,

um arco, um escudo.

 

E de novo sorrio.

Aparto a imagem com uma mão, nada disso interessa.

Apareço-me sentado numa pedra,

de branco as calças,

cabelo comprido, uso barba.

O torso nu,

os pés descalços,

as mãos abertas,

avivo o lume com um simples gesto da mão direita.

O calor é insuportável,

gotas escorrem pelo meu rosto, pelo corpo, caem no chão.

O chão seca-se e a erva arde até onde a luz alcança.

 

Ardem as silvas no alto.

Envio com força uma voz sem falar

É melhor deixares ĺivre o topo ou a silva queima-se”.

Ouve-se um grito de dor, de raiva, silvas que se retraem um pouco.

Uma mínima abertura abre-se no alto e o calor que nos derrete acha uma saída.

Banhado em suor fico à espera, já se aproxima. Pelo canto do olho vejo uma armadura preta. Elmo fechado, da pele nada se enxerga. Estende as mãos ao pé do lume e aquece-as. Ou rouba o calor. É isso que procura. E o lume abranda.

Percebo o seu jogo, mas não interessa.

Caiu na armadilha, está no meu poema.

 

A minha voz envolve o seu corpo:

Hoje é suficiente com saberes da mudança,

não é o dia que eu vença, é o dia em que eu comando.

Tu ficas e sou eu que parto.

As silvas que enviaste são a tua prisão,

até eu mudar de ideias serão o teu destino.

Tu já não me podes seguir. “

 

Vejo a mudança nos seus olhos, primeiro uma pequena dúvida, logo a compreensão repentina.

O medo, a raiva, tudo a avançar num segundo.

Olha para o alto, a confirmação:

Lá está uma pequena frincha.

 

Procura-me, sai a correr. Estica o braço veloz

para mim….

mas já não me vê,

sou corvo no escuro a voar,

sou dono do meu poema, do meu voo, das minhas penas.

atravesso o fenda, fecham-se as silvas sobre os meus passos.

 

Vejo o som do grito de raiva a subir atrás de mim, mas viro o rumo veloz e deixo passar.

Do alto, a bater as assas observo a cena.

 

Uma gaiola de espinho numa pequena floresta troca do rubro ao metal.

Aqui sente-se bem o pouco que é o medo

 

Vou embora, ligeiro feliz,

Imagem de triste gaiola que olho do alto

Aqui sente-se bem o muito que é um homem.

 

Deixo atrás o passado,

quero aproveitar o tempo que resta

sei que do outro lado do mundo é sol,

sol!

já é a festa da primavera

para ali viajo e uma nova aventura começa:

 

Bom dia minhas amigas,

olhem para as minhas flores,

olhem que estou orgulhoso

do trabalho que aqui eu fiz

venham, venham,

venham ver o meu jardim.

Já voltei de novo, venham, olhem como cresce o capim

verde a relva, o sol no alto,

crianças a correr

e a rolar ladeira abaixo.

Pega-pega, esconde esconde, risos e aventuras.

Més propiétés são estas, já contei numa outra altura

aqui não há truques nem queixas.

Cecília desculpe a ousadia, eu cá não tenho um pomar, mas também é aberto a todos.

Tem prados de erva cortada, frutais em todos os lindes, castanheiros, e carvalhos, uma zona de berlindes. E também uma fonte fresca, água a correr num rego, até há um pequeno lago. Há barquinhos de nozes, crianças a soprar o avanço, há lirios e espadanas, bom já sabem, e também alguém a namorar por trás das canas.

 

Sou eu a caminhar de novo, toalha branca nas mesas, cadeiras para todos, bom vinho, cerveja. Amigos músicos que tocam algumas peças. Há mesas todas num círculo.

Taças de vinho, comida que baste, imaginem as sobremesas...

Os licores, as danças, cantar cantigas antigas. E quem ficou estafado a estombalhar-se na leira.

Conversas alegres, anedotas doutras eras, a partilha da amizade, apresentar companheiras.

 

Estão já aqui comigo? conseguem ver o que digo?

Aqui não há vento a virar-nos as quilhas

Sou dono certo da terra. Vejo melros a cantar, mulheres que são poetas. Amigas que me encorajam, a gostar das minhas letras.

Já não pertenço a ninguém e isso basta-me,

como me basta a vossa amizade sincera.

 

Vamos homens e mulheres a apanhar flores sem medo.

Pampilhos, camomila, mil-folhas, jasmim, ouregos, mentas, tomilho, rosmaninho, alecrim.

Fazem-se colares, flores por trás das orelhas,

bandoletes, coroas,

damo-nos como prendas.

Os corações brilham, rimo-nos nas entregas.

São flores sem dono que nos damos uns a outros e também isso nos basta.

E tanta a alegria que borboletas sobem do estômago pelo tronco acima e vêm pousar as suas patinhas no coração (sei, é uma imagem roubada mas que imagem para um coração que sente arrepios de calor e galopa feliz).

 

As crianças estão felizes, até sobem para a mesa.

Encenam uma canção, piadas, adivinhas, fazem rir com as suas lérias.

Entregamo-nos uns a outros: abraços, beijinhos, a mão, risos olhares, paixão.

Está lá uma grande amiga a brincar com o meu anel.

Abraçamo-nos na erva.

Ficamos a dormir a sesta.

Meus filhos com outras crianças na brincadeira.

Nada me falta

 

Entram em cena as aves, passam bandos a cantar.

Pardais a procura de pão,

melros a roubar biscoito,

uma pega apanha uns brincos,

chega a tarde passa o tempo,

alguns andamos na conversa

enquanto avança um passeio.

Passo por uma roseira brava, dessas que cheiram intenso e fico atrás dos amigos a pensar neste momento. Cheiram tão bem estas rosas que lhas quero dar a alguém.

Apanho rosas do jardim, duas guirnaldas douradas, um pouquinho de alecrim, faço um laço, com certeza, um embrulho de cetim,

Num momento de coragem ato num dos tornozelos,

saio a correr sem pensar e dou um salto dos grandes

alguém que me vê e me pergunta: aonde é que vais agora?

Volto já não me demoro, fiquem à espera por mim.

Vou agradecer uma amiga me ter seguido até aqui.

Saio ao alto chego ao céu, e daí é sempre simples.

Rumo ao sul, o mar por perto, chego à Praça do comércio. Passo o arco, o Rossio, o ginjinha, as marisqueiras.

 

Uma criança aponta ao céu:

Olha o melro que lá vai, que leva no tornozelo?

Deixo cair o embrulho, a confiar no seu destino:

Obrigado minha amiga por tudo que fez por mim,

continue a escrever letras que nos transportem assim.

Ouvi que gosta de flores por isso é que me atrevi:

as guirnaldas, o alecrim, com seu laço de cetim,

as rosas da roseira brava eu trouxe aqui para si.

 

Queria é partilhar com todos o quanto eu me sinto feliz

 



 

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