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contos d´oeste

Aprendiz & Caminhante

contos d´oeste

01
Fev21

Gaiola de ferro

contosdoeste

IMG_20210131_164151.jpg

 

II Remédios para enfrentar uma gaiola

Sento-me no centro da minha prisão, acendo a chama e observo.

Lá vem ele, ela, sei lá,

Pelo canto do olho chega,

o gato pelado, 

o gato-papão, o medo informe, a dor.

Eu já sabia que andava à espreita.

-Vens de novo ter comigo?-digo

Senta sem mais à minha frente, nada diz, cala.

Olhos nos olhos,

Olhamo-nos em silêncio.

"Tarde demais é só um exagero".

Não responde. 

"Há sempre novas maneiras, novos roteiros"- não diz nada.

O tempo passa

e eu espero.

Não é com palavras, mas com imagens que pronúncia o seu discurso:

-Há só uma coisa certa, saiba.

Uma só vida,

E todo o mundo teve medo, 

Teve mãe

e teve pai.

(E também você e eu, minha amiga.)

Todo mundo foi criança,

Mas você não é a sua dor

Deixe de se comportar como se não tivesse alternativa, não houvesse escolha,

não fosse você próprio quem constrói os seus poemas.

Não é no galope que sai deste lugar. Tome de novo as rédeas, são suas.

Não pense,

sinta,

antes de avançar.

-Vai ser extenso de mais.

-Não importa, você tem muito que contar.

 

Abro os olhos e avanço.

Cada um deve saber onde se colocar.

Já honrei o pai, a mãe, a tribo.

Eu não sou

                                            a minha dor, 

Já fui cristão, paciente, servil, obediente, prestável,

                                                                 avô.

 

Fazem faltas certezas para ser forte.

Coerências,

já manteve o relato até ao fim, que mais querem de mim?

sempre o relato que importa nas vitórias dos homens,

nas mentes dos homens, nas histórias da história dos homens. 

Infeliz quem ficar apenas no relato.

Farto de ser homem.

Não serei eu quem caia nisso, não de novo.

Faz falta ser forte para...

Para que?

Para que homens, para que?

Que escravidão.

Soluço.

Farto caraças!

No meio das lágrimas vejo ao fundo um menino,

uma criança.

Faz beicinhos? Uma perna atrás da outra, retraído?

Nada disso, arrasta um taco de beisebol, roupas grandes de mais,

sujo, não se importa, sangra por uma mão

quebrando vidros de carros estacionados nalgum lugar

Sim, eu vejo-te por fim.

Eu sei de ti, ei, menino

(Vira a cara para me ver)

tranquilo, olha, eu conheço-te

(Ignora-me)

sei quem te traiu,

eu também o vi

estava ali, lembras?

eu conheço-te, ei

ei, rapaz, vem cá

(atende)

menino, confia em mim

Sim, também me reconheces,

estás a ver?

Vem cá, vem que te abraço,

dá-me a tua mão

shhh,tranquilo.

Eu sei,

ficaste sozinho, ssshh,

Vem,

vai ficar tudo bem.

Vem rapazinho.

Em mim podes confiar, vem,

Sshhh, nunca mais estarás sozinho.

-Chegas tarde

Sei a chave,

sou sincero:

-Tarde demais é exagero,

mas não podia vir antes

Deixa essas roupas, ficam-te grandes,

deixa tem estas,

não, não te preocupes,

eu não tenho vergonha de andar contigo

Comigo estás a salvo, fica tranquilo.

(aproxima-se, nada diz,

olhar desafiante, o taco bate de leve nos ferros da gaiola)

Não vens por causa da gaiola, destes ferros no meio?

Deixa que eu a aparto, vem não tenhas medo.

Surpreendido, ele estende a mão e na sua palma vejo uma outra gaiola, pequenina, de ferro.

Esta? - diz

Sim, essa também.

Estas gaiolas, que são? Eu levo-a sempre no meu bolso. É um brinquedo?

Não menino, é coisa de grandes, deixa que eu carrego.

(Dá-me a gaiola, minúscula por entre os meus ferros)

e eu deixo-a no chão.

E sem saber como nem porque

sei

exatamente o que fazer

dou-lhe a volta com as mãos

e me liberto. Espaço aberto.

Senta aqui no colo,

vem, 

eu te protejo,

Há abraços grandes nos contos,

nenhum como o que nos demos.

Vai ficar tudo bem, dorme, descansa,

eu não te abandono, tranquilo, eu te carrego....

 

Nada me resta mais do que ser eu.

Tenho tudo pela frente, sou eu

Que escolho a vida, escolho a espera,

escolho o fracasso,

não a derrota, mas as letras

já disse, sou eu que escolho.

Aprendo dele,

nunca mais terei pressa,

Sou quase um cara-inteiro, mais completo

agradeço.

Tudo bem,

já caminho,

obrigado.

Me abraço, respiro.

Faz falta ser inteiro para amar,

Eu não sei como se faz,

qual o destino

mas sei sim caminhar

Maior o avanço, maior é a gratidão

Preenche o espaço todo

o coração a rebentar.

Há que saber ganhar e fracassar,

mas não me sai na conta te perder.

Amiga, o meu presente é a minha espera, o equilíbrio,

a morna

que mostrava esse caminho longe.

Não me importo da velocidade nem do virar o rumo, mas sim da companhia.

Tenho o tempo todo do mundo,

um rol de planos a correr

e tanto para partilhar... você nem imagina

Sou aquele que não se move,

Sou a mais grande valentia,

que irá você fazer?

Em cada degrau, em cada linha,

você me aparece de novo, aí eu não decido

é você quem me aparece

sem eu pedir, 

em cada novo trilho.

Eu hoje já dou sozinho volta

e volta e meia à minha gaiola.

Obrigado,

não fosse você e nunca teria conseguido

me enfrentar, começar de novo,  navegar.

Levarei isso presente sempre comigo,

venha agora ver a nova imagem que já começa,

sente aqui, veja o que fazem sozinhas estas letras

não vá embora, depois eu volto, tá?:

 

De torso nu,  sozinho no areal,

em pé

a luz é intensa,

gaivotas, sol e nuvens,

o vento move o meu cabelo comprido

vejo a minha mão direita

Palma da mão estendida, com a ponta dos dedos 

por baixo do mamilo esquerdo

Toco a pele,

sinto o latejar que chama

dedos rijos penetram a carne

Seguram o músculo quente,

cheio de sangue

Tiro o meu coração latejante.

Repousa na minha mão diante de mim,

aberto como nunca a ser feliz

Vasculha a mão esquerda

pelo furo aberto no interior,

não há nada,

pedras, nada escuro,

apenas luz.

Hoje eu sei
Que quem me deu a ideia
De uma nova consciência
E juventude

foi você.

Maravilho-me, 

uma imagem e tanto, kintsukuroi

o meu coração à minha frente cosido com linha dourada.

Seguro-o com as duas mãos

só para ver como lateja, alegre,

contente, brincalhão

cheio de luz

que sai pelas costuras

Pede-me continuar, 

Vá lá, coragem, sempre em frente!

Que vou dizer! Não sou o músculo do medo mas do amor.

Coloco de novo no interior,

coso o corte, fecho bem

Cabeça & coração

tudo volta ao seu lugar

Ter medo, do quê?

Nunca mais.

Confiança

Quero isso, é preciso, eu não vim cá pra me laiar. 

O meu coração é inabalável,

A minha cabeça, lúcida,

O meu corpo um lugar sagrado

o meu sentir limpo como nunca

Ó gente,

não viemos aqui para sofrer mas para amar.

Temos ainda sempre mais meia vida

pela frente.

Habitamos cada um de nós um coração gigante, enorme,

cabem tantos amores lá dentro!

Sou verme no casulo, sou girino,

sou cágado?

Nada disso,

passei já para a frente,

Aluno avantajado, sortudo, rápido?

Sei lá,

dá na mesma sofrer agora do que antes.

Sento-me no areal, cabelo ao vento

agora está de novo comprido, coisas!

Fecho os olhos

três, cinco vezes cinco, duzentas e quarenta luas,

catorze anos juntos,

sou um homem sedente, inteiro, a hibernar.

O tempo pára ao meu comando,

                                                             pertenço-me

ouço gaivotas chiar,

o vento assovia nas dunas, muda de rumo ao acaso,

Nuvens de areia voam pela praia, colam-se ao corpo,

batem-me na cara, nas orelhas, no cabelo

não me mexo 

sou completo,

Sou cão? Sou lobo?

Sou.

 

Peraí.... ?!?

Mas era da minha gaiola que ia falar...

deixem-me lembrar, esperem, já volto lá

volto ao fio da meada, acho que era tal que assim:

Já dei volta à minha gaiola....

Como era? Vou por aí a procurar / eu preciso andar...

Trago imagens do futuro só para me lembrar.

Cá Estou.

Saiba, já fui labrego,

camponês,

da minha casa já ouvi os pássaros cantar

Já dei sozinho volta à minha gaiola....

Dei volta com as mãos à cupula de ferro.

Lembram? Ficou ao avesso.

Dias andados, ou anos,

atrás ou adiante, que importa?

Adubei, rompi a terra, sementei,

iá, sou rápido, mas é estranha esta linha do tempo até para mim.

Da gaiola de pernas para o ar fiz uma grade, atei cordas

coloquei na testa....

qual o nome?

o jugo, a canga, a cabeçada?

Imaginem, a gaiola atrelada.

Sou minhoto, galego, trasmontano

o homem-boi domado, eu domei o boi, eu sou quem guia.

Chamo adiante o boi, puxo da grade,

grado com ela a terra

Quente, sazonada, sem torrões.

 

Sei, talvez já se perderam.

Quanta cousa diferente pra contar

ando à roda da gaiola como imagens sem sentido

e a dança apenas acaba de começar.

A promessa duma semente vale pouco a olhos dos outros,

o caos, a desordem é parte da vida, da viagem, da partida

mas a gente cá da terra sabe reconhecer a boa lavoura dum igual. 

Sou proprietário, sou michaux

Mes propriétés

a leira está pronta,

o terreno, sadio,

por hoje o trabalho acabou.

A esperança duma semente

é suficiente a olhos do lavrador

Sou dono da terra, do cereal

Não preciso mais fugir a nenhum outro lugar.

Agora é só ficar à espera ver que sai.

(Continuação: III Remédios para partilhar frutos duma gaiola)

 

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