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contos d´oeste

Aprendiz & Caminhante

contos d´oeste

11
Mai22

Inabalável

contosdoeste

rosa.jpeg

Uma mesa branca domina a imagem lá no meio da cozinha, a louça arrumada e tudo pronto, sol pela janela, belo dia de folga a contraluz sem nada para fazer ou padecer, maresia, paz e arrumação que se respira em cada cantinho e bem no centro da toalha de flores estampadas

um vaso

que de improviso cai no chão e quebra em mil pedaços

e a mancha-d´-água alastra rubra,

e uma flor a rubro e verde lá no meio pede para ser tirada do cenário

E você voltou,

assim,

assim sem avisar, de um dia para o outro, doente e a pedir ajuda

E você voltou quando já menos esperávamos e fez com que tudo quebrasse e rebentasse em mil pedaços finalmente.

Ou talvez você quebrou tudo em mil pedaços por dois meses para que a vida voltasse aos inícios dos inícios..... e em trovoada de verão a fontesseca rebentasse enfim e a água nasça a chorro novamente por outros dois mil anos.

Sim, também você já foi fonte e sabe disso

E eu, dique seco e coração inabalável, de ferro,

de ferro a saúde, de ferro as entranhas

e prestes a ficar já esgotado e enferrujado mesmo com isto tudo,

e com tudo que carrego

eu, eu que odeio falar de mim próprio

eu, que hei de eu dizer?

 

Eu

Eu amo você.... e agradeço novamente

e intento compreender

e o silêncio sábio me acompanha...

e, enfim, não era para ter sido assim, pois não?

ou quem sabe? 

Muito bem-vinda emigrante, retornada

cá tens a tua casa, angolana,

filha-da-terra,

mulher sábia e xamã da tribo,

Minha amada, indómita, viageira.

 

O que é que tu fazias afinal lá por essas terras?

Perdida na imensidão do mar, agora voltas

e pra que venças eu por fim me deito e aceito, que a vida é assim, pelo menos para si, ingovernável,

Tal e como você no seu melhor.

Você venceu novamente o seu sino quando perdeu tudo e se entregou braços em cruz

e escolheu virar o leme totalmente e retornar.

Abraçando a sua escolha você abraça o seu destino eleito

e eu,

eu perdi o leme, o rumo certo, e uma nau solitária em mil pedaços quebrou no meio da rebentação ,

mas não a arca da aliança, não o reino do futuro nem a barca bela, não o aconchego, a terra nossa farturenta com sítio para tudo e todos, não...

nem o lar refúgio de sonhos inocentes.

No fracasso é que se sabe onde é que tínhamos triunfado

apesar de estar bem presente, à vista

à vista de toda a gente, à vista, bem à vista,

menos para você ....

 

Você agora é quem fala, e eu escuto

e o silêncio sábio me acompanha agora, e sim, também não posso negar, certa raiva e vontade de ser eu a desaparecer, sair ao mar sem avisar, mergulhar nele e sob as suas ondas berrar de lés-a-lés um berro seco, imenso como um trovão marinho, primigénio, que asustasse baleias e quebrasse rochedos, ruindo templos e movendo marés e cascos velhos e cofres com moedas douro.

Um berro seco que permitisse nascer de novo qualquer novo começo,

porque eu mereço, sabe? eu mereço também qualquer um lugar onde ninguém observe ou me precise e poder descarregar a fúria de formigas e de vespas enraivecidas que me invadem.

E protegido pelo mar, e  lá no alto o sol beijando à tona a espuma branca, a salvo de tudo e todos, acompanhado por golfinhos e corais que a distância prudencial observassem e compreendam tudo, dar por fim murros e patadas q.b. no areal submerso.

Talvez assim a música viesse logo à minha procura.... só ela, ela sim, poder-me-ia proteger enquanto estendesse os seus tentáculos, braços cálidos e sons amigos que alastrassem sob as ondas pelo pensamento, afagassem e me devolvessem algum do meu cabelo. Sons que acarinhassem a minha barba e soprassem novos sonhos como diminutas borbulhas de ar assobiando melodias no meu lobo esquerdo....

A música ou qualquer uma outra poesia que me devolvesse à praia, ao areal, ao sol na pele e o cheiro a mar e sal na cara.... e se eu, aflito e figo passo e fruto seco, virado pra careca e cheio de rugas, passando a mão pela cabeça, a barba branca,longa e encaracolada....voltasse a rir com letras de canções e sons inocentes, e se peixinhos de mil cores viessem para se agachar na minha barba entre as suas mil camadas.... e se eu de novo começasse a rodopiar e dançar com eles

E outros viessem bicar-me os pés e fazer-me cócegas nas mãos e nos joelhos e tirassem toda e qualquer nódoa e pele morta e enchessem de cor azul brilhante, vermelho brilhante laranja o peixe-palhaço e amarelo o sol gigante sobre a minha cabeça, um sol que me permitisse enfim ver a tua chegada em barco não como nau que me deixasse em sombras mas como barca bela, cheia de flores, músicas e folias, enfeitada e vista de relance num misto de alegria e esperança....

Sim , talvez assim a minha proclama fosse outra.

Por isso sê bem-vinda emigrante, retornada, deixa apenas, um tempinho só, apenas, e só, que seja eu quem me faça a ideia, pois há muito que reatar, muito que contar, entender, atender a vida e semear de novo....

E sei que bem mereço escrever a minha queixa, e também levantar a mão nem que seja um dia só a exigir silêncio.

...............

................

 

Não, não pensem que me fui embora, não. Cá estou passada a raiva, os pés bem firmes olhando para tudo quanto é belo.  A rainha do inverno, coitada,  pensa que venceu, como se alguém pudesse congelar o mar!

Mas se hoje fico sem palavras de esperança, é sempre a música que nos pode vir salvar.

"

você precisa possuir um coração inabalável
simplicidade
E o dom de fazer alguém sorrir

O segredo da felicidade é encontrar em você o barulho da paz
E o silêncio do caos "

E no meio disso tudo, mergulhar,

mergulhar, sim, sorrir e desfrutar do que a vida nos traz.

A vida não tem volta atrás, não.

Não, não pensem em cair de novo ou em nenhum outro lugar,

vamos respirar bem fundo, confiar nestes pulmões e certezas,

Coração

e, sim,

com você,

Que voltou para estar comigo

Você que voltou das sombras

Até ao fim do mundo com você,

Com você de novo

mergulhar

pascalcampionart.jpeg

©Pascalcampionart

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