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contos d´oeste

Aprendiz & Caminhante

contos d´oeste

09
Abr22

Mar de névoas #1 - histórias de ida e volta#

contosdoeste

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Do alto do promontório observo de novo o horizonte e pelo canto dos olhos, à esquerda, o meu navio varado no meio do areal.

O vento salgado a entrar pelas narinas traz hoje cantos de sereias que atiram as suas redes à minha procura... Ai, vocês nem imaginam o como o seu canto é belo e estonteante!

Ondas alegres, juvenis, batem contra as rochas aos meus pés e pequenas gotas ascendem rochedo acima refrescando os dedos dos pés, os braços, a minha longa barba.

Estava um lindo dia para sorrir, sentar ao pé do mar e amar tanta beleza à minha volta. Mas, contra todo o pronóstico eu, hoje, continuo em pé olhando bem ao longe.

Sei que ali na linha do horizonte está o meu futuro e foi ali que enviei guardado a sete chaves um coração de boi gigante a latejar.

Hoje em que já nada me acalma nem me enerva recebo mensagens de futuros alegres e sorrisos meigos que batem contra o oco das paredes duma caverna onde as ausências lavaram a jato todos os cantinhos secretos que ficavam aonde jovens iam namorar.

Eu... à beira do abismo feito falésia e rocha viva em baixo dos meus pés, sei que preciso é antes de mais andar ou o frio tomará conta de mim durante séculos. E, todavia, não sou capaz de me mexer nem dar um só passo atrás, ou à frente....

Homem das cavernas, pescador da barca vela, homem-árvore, construtor de gaiolas e torres de marfim, boi-domado, outrora camponês e pastor de sonhos, sou, claro, também pirata, bandido e ladrão de corações.... eu bem me lembro disso tudo num meio sorriso inevitável... mas hoje (desculpem-me se não gostarem desta minha nova face), o meu cabelo é curto, muito curto, e a minha barba cresceu mais da conta até esconder o meu pescoço por inteiro e me chegar ao peito.... e deixando vagar o pensamento é que encontro as primeiras respostas: navegar, navegar até o vento gretar e o sol torrar a tua pele, até o cheiro a argaço entrando pelas narinas limpar cada cantinho escuro da tua alma.... Navegar, fechando por momentos os olhos ao presente.... afinal tem que haver sim algum Deus ou diabo à espreita em algum lado nem que seja para troçar dos nossos planos materiais, emoções ou vontades primeiras...

 

Acordo para o relato que acontece sob as pálpebras fechadas à maresia e lá vou eu, peregrino, novamente, a caminhar montanha acima, entre uzes, brumas e  lages primigénias.

Eu lembro aos poucos ao caminhar que viajo sozinho pois tirei do peito e atirei num sortilégio protetor o coração para um futuro distante até onde nada que eu sentir fará qualquer mossa num corpo firme de aço e platino desprovido de quaisquer emoções.

Aqui? De novo? O que faço eu aqui neste passado que mais uma vez cresce forte em mim, hoje, outra vez, novamente?

Chocado pelo inesperado retorno, aceito tal cenário e entrego-me. Homem da montanha, homem-dos-bosques sei bem onde estou e posso assim nomear um por um regatos, árvores, e leiras, assim como os donos que já de lá partiram para o sono eterno. Surfista sem prancha, os meus pés descalços galgam a reta da chamuscada, uma estrada humilde entre as mais humildes sem nome para quem não for indígena destas terras; nada a ver com ranholas, a 25 de abril ou as filas em aguassantas. Aqui ouve-se bem o motor dum carro muito, muito antes dele aparecer, pontinho minúsculo e distante lá ao longe. Avanço, e já o Busto se aparece entre a neblina e ao pouco tempo de andar, acolá, ao fundo, se intui a pista do Carvalhal e a seguir uma fonte de água pura que poucos conhecem antes das Cruzes e lá descendo a estrada, mas ainda no alto, por cima sempre das névoas invernais do Lor, Vilamor.

Cheguei, e no alto, dominando tudo e todos e o meu destino, a porta entre os dois mundos e fronteira, cá está, cheguei e eis que se mostra por inteiro em todo o seu esplendor, cume do monte, Pedra do destino, terra firme sobre o mar de névoa que domina a esta hora o mundo todo enquanto ele aos poucos acorda para um novo dia formando-se diante dos meus olhos pedaço a pedaço. Cá estava à minha espera: a Pedra da seara.

Pedra do destino onde idades, planos e existências separadas por milhares de anos ou quilómetros se encontram, ou estão apenas a um passo, dois passos a pé ao todo, se soubermos como e formos na direção certa.

Pedra da Coroação, pedra Scone, Ara solis da montanha no sopé do alto da Louseira, ali onde signos invisíveis dos templários se perderam arrancados à montanha para todo o sempre e lages imponentes foram assim usadas para teitar humildes sequeiros fumegantes. Cabanas onde se fez o amor, secou-se o pão dos pobres para poder sobreviver ao inverno, filhos foram engendrados durante séculos e houve festa grande cada fim do outono aquando a pisa das castanhas.

Pedra da Seara, eu te pertenço, por inteiro.

E agora que renovo os meus votos o teu poder para viajar em sonhos é também novamente meu por inteiro.

Quantos nomes.... Quantos,  de tempos passados me servem para me nomear por dentro: os covalhôs, o caminho da travancada, o souto pequeno, o cabezo, o val da laga e a pontezinha, e contra o vento, protetora, a pena curuxeira. Amigos daqui da terra, ai, se eu vos contasse que Leixões é um porto comercial e não uma leira abandonada, ou que o bolo do Castrilhom tem filas e faixas de carros engarrafados durante horas numa cidade-ilha de 200.000 habitantes..

Bendito espaço feito à medida dos homens com a sua enxada ao lombo, a sua matança, a sua partia, o seu dia de atar os chouriços, sequeiros e castanhal, o seu tear de ouro oculto baixo as pedras dos mouros e a sua história viva onde cada pessoa conta, cada um de nós é alguém e isso importa.

Isso importa sim.

Muito

 

 

 

 

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