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contos d´oeste

Aprendiz & Caminhante

contos d´oeste

27
Mai21

O belo acaso

contosdoeste

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(continua)

Uma lembrança humana nasce dentro de mim. Convencido, partilho a resposta que produz asinha cócegas de alegria em todos os nós da comunidade:

"Chove, para que eu sonhe".

"Chove, para que eu sonhe". Sim, temos isso em comum e por um momento o arvoredo se surpreende com a ideia de existirem homens sábios. Nunca teriamos imaginado! Uma mensagem corre, alastra pelas conexões das raízes e salta de ramo em ramo até o mais profundo da Devesa. Quem é? Quem é? Quem fala assim como resposta? "Aqui sente-se bem o muito que é uma floresta. Eu conheci esse homem e não eras tu". O grande teixo milenar, rígido guardião da paz, acorda, entra pelo meu ser adentro e vasculha o meu coração. Quem és tu? Como entraste na união sem eu ter percebido?

Sou um simples aprendiz, um convidado, diz o homem atirado violentamente para um outro plano da existência num piscar de olhos. Numa clareira primigénia, aquando ainda nem a lua tinha nascido, sob estrelas há muito desaparecidas os dois a sós olham-se desafiantes. O seu corpo é o dum roedor minúsculo, um simples ratinho frente a um gigante arbóreo, monstruoso, de boca aberta e olhos como poço sem fundo. Esse olhar agarra-o e engole-o, mergulha-o numas águas negras, gélidas que lhe impedem respirar. Prestes a desfalecer uma mão invisível agarra-o pelo pescoço e atira-o contra as estrelas.

Ratinho, como vieste aqui parar? Se deres um passo em falso devorar-te-ei.

Não tenho nada a ocultar, não tenho medo, a verdade é mais forte que as algemas. E tu não me podes prender.

Que algemas? És antes barco abandonado, na praia ao pé do mar.

Não há ferros que impeçam navegar nos sonhos verdadeiros. Nada me podes fazer

Prestes a partir o que é que te ata à terra?

Confio muito em quem estou à espera, ela virá, e o seu coração é como o sol da primavera.

Que pode haver mais importante do que o nó?

A minha escolha, a minha firme vontade. E eu tenho tempo, ainda, quem tem pressa?

Ouves o rumor das vagas a baterem ao fundo? Ouve-las lambendo já a proa, marinheiro? Que fazes aqui no arvoredo, como ousaste acordar-me sem motivo? Que pode haver mais importante do que a partida?

A minha amada, confio nela, temos muito ainda que viver. Pressinto o enorme poder daquilo que já está a crescer. Sou um ser completo e novo. O meu presente é a minha espera.

Poderia-te atirar eu próprio para a água, e ainda acabavas por mo agradecer.

Não podes não; hoje, agora, já não tens hipótese. Ficaste atrapado aqui nas minhas letras, e aqui, nesta conversa. E eu ratinho ou barco, vinho verde ou feixe de luz, eu, sou eu que parto, sou eu de novo, no comando.

Ei-lo raivoso que salta bravo, para a frente a tentar fechar as garras sobre ele, mas o corpo do homem já não é o dum rato. É um ser azul de luz, uma névoa elétrica, pura energia que se agacha, dilui, foge  entre a rede viva. "Escolho o navio da canção" diz e a rede gosta e repete como um eco que oculta a sua passagem. De novo viaja e agora salta de elo em elo. A sua consciência habita na rede e já não podem encontrá-lo. "E vou direito ao coração de toda a gente" dizem as folhas contentes por terem encontrado um novo leque de melodias. Saltitantes, brincalhonas, como riso de criança à espera do desfecho olham agora com atenção àquilo que acontece. Fazia muito tempo que não se interessavam por acontecimentos apressados daqueles que caminham.

O homem ousa ainda, a risco de se mostrar de novo em perigo, enviar uma despedida, uma mensagem rebelde que alastra pelo arvoredo, que agora percebe como junção perfeita de compromisso e liberdade mas carente de propósito:

"Sem os sonhos, utopias, a realidade tende a fossilizar-se em formas esgotadas como velhos teixos gigantes. E nós, sonhadores, descemos das árvores não para ficarmos quietos, mas para caminhar.

Zé ninguéns sonhadores, a nossa escolha, hoje e sempre, será esperarmos contra toda esperança".

E as folhas, os rebentos novos, os fentos, as hedras e madressilvas, unida toda a juventude da floresta repetem numa balbúrdia que apaga a conversa das velhas árvores. Uma e outra vez como palavra de ordem que altera a paz dos cemitérios vegetais. "Esperamos contra toda esperança" como uma preze que ecoa o dia inteiro e pela noite afora, numa revolução de sonhos inesperados e imagens novas e inventadas. A floresta renasce e caminha e como mensagem que nunca tinham ouvido as conversas atrapalham-se todas, todas a quererem falar ao mesmo tempo. Sentem-se mais uma vez como no princípio dos tempos, como crianças renovadas a saírem da escola, o mundo é outra vez todo delas, imparáveis na sua correria juvenil de vozes agudas que tudo o preenchem.

Por hoje já ninguém prestará atenção ao velho teixo carrancudo que com passo firme volta para a sua toca a resmungar.

Mas às escuras, quando já ninguém olha, ouve lá afora a nova rebeldia que se impõe na floresta e acaba, ele próprio, por fazer troça da sua própria imagem esgotada. Primeiro num meio sorriso sorrateiro, depois num sorriso amplo, gigante, que transforma por segundos a sua cara na dum ser quase fofinho e terno.

"Esperança" segreda baixinho para si próprio, para mais ninguém ouvir, com a ternura dos idosos nos lábios e um brilho muito antigo nos seus olhos. Sim, nos olhos negros como carvão um pequeno brilho, vibrante, juvenil, alegre, escintila com recordações rebeldes que o invadem doutras eras.

Também ele conserva ainda, indestrutível, num recanto da memória, qualquer coisa chamada juventude.

 

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