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contos d´oeste

Aprendiz & Caminhante

contos d´oeste

15
Mai21

O homem nu

contosdoeste

castanheiros.png

 

O homem nu aparece deitado numa clareira, num prado rodeado de árvores centenárias por todo o lado.

Relva cortada a rente, margaridas, botões d'ouro a inundar o prado, papoulas aqui e acolá. 

Acorda, mas, sem pressa em abrir os olhos, deleita-se antes com os outros sentidos: a erva morna do prado, a carícia do sol que atravessa as pálpebras, os sons do bosque, pássaros e silêncios imperceptíveis que ele compreende e ouve.

Sabe onde está. Voltou aonde já antes esteve. Donde teve que partir às pressas. Já não precisa de você para aqui voltar, nem de ninguém, como noutras vidas passadas.

Você sabe disso.

Simplesmente foi a você que escolheu de novo numa nova curva da vida, e ao pensar nisto uma imagem de você, a sorrir, meiga, feliz com a sua nova vida invade o seu coração num instante e confirma a escolha.

Ele já renovou votos mais uma vez consigo próprio, com o seu desejo.

E uma paixão mais comedida, experiente, verdadeira, agora livre, aberta ao mundo, consciente, habita no seu seio.

Sabe-se amigo de coração cheio, sem muros, grades ou cães de guarda, que observa, quietinho e atento, como uma rã, aquilo que acontece ao seu redor. É também ciente da enxurrada e a calmaria de emoções a partes iguais que nos habitam. Não todos somos cíclicos, mas sim seres complexos que transportamos um universo dentro de nós.

Não, não é preciso mapa algum para certas viagens, apenas tempo e presença; mas é importante não se perder na eternidade. Ele também sabe isso e você.... você já sabe disto tudo porque tem mais experiência.

Hoje... hoje é momento doutros reencontros a sós. 

De braços abertos e interior brilhante, poderoso, pleno de vida, o seu ser transporta uma luz amarela como um sol de agosto que pinta a clareira em tons alaranjados.

Era preciso voltar aqui para se reencontrar e ele é totalmente consciente agora de porque precisa voltar, aqui, anos passados, a este lugar, novamente, agora de olhar renovado.

Abre os olhos, olhada limpa a escintilar, confiante, olhos jovens, verdes e castanhos, com meninas negras como poços sem fundo, como o olhar duma vaca em que desapareces. Olhos experientes como lagos em que se poder perder por horas a ouvir contar histórias doutras vidas, doutros mundos, doutras eras.

Incorpora-se, observa ao seu redor e já sem pestanejar escolhe um rumo certo. Caminha sem tempo nem sons por um trilho que atravessa a floresta, enquanto reconhece aos poucos a vegetação, o cheiro do ar, a humidade o chilrear dos pássaros que domina a floresta. Está na terra, no Marão, na serra do Alvão, num parque das merendas em Ermelo, nos Ancares, não interessa, é aqui na montanha, cujo nome não pronuncia, que reconhece a sua verdadeira morada. Sim, ele é também um homem da montanha, capaz de gritar sem vergonha contra as paredes do vale um urro enorme de saudação, confiante; alguém que poisa os pés descalços com passo firme na sua caminhada alheio aos picos das sílvas ou dos ouriços das castanhas.

É outono e a luz é amarela a atravessar as folhas dos castanheiros enquanto estes deixam cair algumas a rodopiar numa bela dança coordenada ao seu redor. É como numa resposta ao seu passo, uma saudação de quem reencontra um velho amigo, que sussurram o seu nome entre os galhos enquanto algumas castanhas caem também conforme ele avança.

"As Castanhas: Tirar a fome, essa foi a verdadeira gesta dos Eoas e não outra", a sua mente infatigável quer iniciar o discurso, mas nada disso interessa, já se reconhecem uns e outros, o discurso apaga-se, e mostram-se alegres, júbilo que alastra pelas copas com a simples presença do homem nu.

Ser-i-estar, numa conexão que atravessa os seus pés e liga como hifas brancas com as raízes dos seus iguais, ser_i_estar ocupa tudo plenamente, não precisam nem se lembram de rememorar tempos idos nem reinos esquecidos.

Pára na sua caminhada e deixa-se embalar pela conversa. É demorada, sempre há muito que contar numa língua milenar com mil nuances, tons e giros e que não conhece, não possui, o conceito de ter pressa.  Senta numa pedra ao pé dum velho amigo centenário. No centro eles e ao redor, em círculos concêntricos que alastram por hectares, a conversa pausada é ouvida por todos, que entram e saem da conversa para pontualizar ou esclarecer, anuir ou mostrar dissonância. Mas tudo se passa devagar, muito devagar, como um imperceptível roçagar de folhas e ramos tenros. Aos poucos o seu cérebro reduz o ritmo, adequa-se à linguagem, o coração bate menos, menos ainda. Os seus pés desprendem pequenas hifas brancas e penetram no solo húmido. A madressilva e a hedra crescem asinha rodeando as pernas, num abraço amigo, e logo param sua ascensão sem afogar a meio do peito. 

O seu corpo todo adquire um tom esbranquiçado, castanho lenhoso, esverdeado. Musgo se aproxima aos poucos para abrigá-lo, protegê-lo de correntes de ar frio. Em breve não se distingue do resto doutro mato do monte. Está em casa, protegido, rodeado de amigos.

Só pra ver como decorre a conversa fora do tempo conhecido, apenas a saudação antes do que a conversa, intraduzível, cá vai uma probre tradução aproximada:

Sauda-vos com honras quem caminha. Eu vivi aqui minhas amigas, vocês já me conhecem, lembro-me bem, sem pressa, sem tempo nem horas. Eu posso nomear as vossas moradas todas, as de antes e as de agora, a chã, pena chousa, a cheda,

o boco, a vitoreira, a puxa, o cabeço

o val da laga, o castrilhom, a pontezinha.

Saudo-te velho sábio barba de uz e a ti rebento verde e galho novo. Boa tarde dona branca e braço torto. Como está sr. ileso ao pé da freita?

Sei também dos vossos nomes todos e feituras, desculpem se não citar a todos na ordem certa, rapadas, negreinhas, verdeais, vermelhas, minhas amigas.

A de presa que enche a mão e tira a fome primeira e dás as boas traves nas casas dos homens,

a humilde pataquilho e a ti ó branca, a dona branca exigente, senhora da mesa, a guloseima por todos escolhida.

A minha amiga vermelha de folha gigante, que tudo oferece e nada pede. Quantas vezes me encheste de castanhas a moradia!

Reconheço as vossas marcas feitas a machado por quem se acham os vossos donos. O X do Raposo, as quatro petadas doutro,

o V de Ventura, ali com uma, ou duas, ou três petadas, tantas como partilhas,

o símbolo dos Paradinheiro, mostra da riqueza doutrora, com o seu pé de galinha,

Marcas de camponeses como as dos marinheiros ou canteiros lavradas em seiva viva. Queiram desculpá-los amigas, o mundo dos homens é feito de territórios, limites, fome, obrigas.

Vim cá descansar mais um bocado, ouvir de novo a vossa grata ladainha. Em honra da vida, do universo, das estrelas, da espera paciente e sábia, da vida simples, da simples alegria,

sauda-vos com honras quem caminha.

 

 

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