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contos d´oeste

Aprendiz & Caminhante

contos d´oeste

14
Mai21

O túnel das horas livres

contosdoeste

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Viajo num túnel perfeito de paredes azuis pelo que escorrego e a vertigem me invade enquanto a velocidade toma conta de mim, do meu corpo nu com o cabelo comprido, arrepiado, a esvoaçar.

Não estava à espera e a sensação de surpresa me apanha e não me larga mais.

Há quanto tempo isto começou? Não lembro. O vento gélido a entrar pelas narinas, as paredes, o tecto é tudo frio, azul, ou branco, da cor do gelo.

Onde estou? Devo estar por baixo dum glaciar nalguma passagem estranha e apressada da minha vida. Quero parar a viagem e finco as mãos, os pés, tento encontrar alguma saliência, em vão. Desisto, entrego-me aos desígnios do que a vida me traz. Não tenho como remar nesta corrente.

Como aqui cheguei? Não guardo na memória o porque, mas aos poucos lembro, sim, sei, aonde quero ir. Há espaços que preciso revisitar mas não encontro a saída. Nem sabia desta paragem inesperada.

Não me importo. Fecho os olhos e deixo-me levar enquanto o meu corpo é arrastado. Desconheço o porque destas certezas, mas sei que não irei me magoar nesta queda veloz.

De olhos fechados, o escorregar é cada vez mais rápido e o túnel mais íngreme a cada passo. O tempo passa e o meu coração marca a presença. Cá estás. Confio em ti. Ouço o latejar, pausado, sereno, dono de si. Concentro-me nele e a imagem do meu corpo sentado frente a uma vela no escuro toma conta de mim e me protege das sombras. Já nada me assusta ou me apressa. Tudo acontece quando tem de acontecer. Não antes.

Ouço um canto sem palavras, uma voz quente que me chama e de olhos fechados vejo a saída. Mais duas curvas na descida e ali estará, à esquerda, um buraco na parede, pequenino, o nascimento duma bifurcação.

Neste tempo estático em que a minha vontade comanda vejo muito mais, mais saídas, mais ramificações que quero também transitar.

Mas hoje não, hoje sei qual a minha escolha. Já vem aí uma curva, duas, e a saída eleita, mesmo no início duma queda a pino.

Agora é o momento. Abro os olhos e sem duvidar dou volta ao corpo, a cara contra o gelo, e com toda a força de que disponho espeto os dedos contra ele, as unhas crescem, como garras, no gelo.

As mãos primeiro, os pés, depois, deixam sulcos da tentativa de reduzir a velocidade. Ouve-se ou assim imagino o gelo a protestar. Também eu grito.

É agora! Vejo o buraco e uma corda com nós atados na distância certa a sair dele. Fui eu que criei para mim. Apanho-a e seguro-me com força enquanto me preparo para a dor inevitável, nas costas, os braços, nas mãos e coxas que se queimam no passar veloz da corda. Aguento-me, não desisto, a palma das mãos esfoladas, as coxas com assaduras, um frio que queima a pele, aguento-me.

 Consegui. Fico ali, esgotado, pendurado, a baloiçar. Nem sempre é fácil parar.

Recomponho-me, subo pela corda acima, aos poucos, enquanto a dor cresce.

No buraco encontro uma passagem a um espaço pequeno mas que permite colocar-se em pé. Um cantinho, uma antessala. A presidir o espaço um espelho que brilha com luz própria, amarela. Mais uma bolha, geleia de sonhos, vidro de desejos e vontades adiadas.

Olho curioso pois nada lembro neste momento, como se não tivesse visto nunca antes. Aproximo-me, toco o vidro com as gemas dos dedos e imagens me invadem. Umas atrás das outras, vejo: telhados ao sol, risos de jovens a namorar, dias de chuva morna e dias limpos de sol brilhante. O trânsito a passar numa ponte de liberdade e um barco, pequenino. Sinto que carrega qualquer coisa muito valiosa. Foco aí a minha atenção e o meu olhar se aproxima enquanto um vento quente me afaga o cabelo.

Um barco a vela a sair ao mar, enquanto a tardinha cai.

É tudo tão calmo nesta imagem, tão sereno, tão morno, um dia tão amarelo.

Amarelo como a luz do entardecer reflectida nas águas calmas em que o barco veleja.

Como uma canção da Nara Leão que ressoa na memória.

Amarela também a tardinha cai enquanto no barco dois namorados em silêncio sabem, e eu, através do vidro, sei aquilo que sentem um pelo outro, que Amar é o único verbo que interessa. A imensidão do mar é tão grande e o barco tão pequenino que parece um desafio. 

Uma voz poderosa, serena, profunda, cósmica, atravessa o meu cérebro no meio da canção "No princípio era o verbo" e nessa nova compreensão a humildade me invade e fico comovido e grato.

É tudo tão belo. 

Atravesso o portal e a geleia me envolve curando-me o corpo todo.  Perco a visão e fica tudo escuro, mas duma escuridão que me aconchega. Uma enorme gratidão me abraça e não mais me solta.

Um vento do Sul, um aroma a café, um abraço cálido, pressentem-se algures entre dois desconhecidos que se atraem e sentem admiração um pelo outro.

Com essa emoção presente a visão começa já a ficar embaciada enquanto parto, num novo salto, mais uma vez no espaço e no tempo, sem saber ainda qual será o seguinte cenário ao que irei chegar.

Puxar os travões nem sempre é facil. 

 

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