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contos d´oeste

Aprendiz & Caminhante

contos d´oeste

19
Fev21

Sonho

contosdoeste

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No meio da rua um dia de sol brilhante, encontram-se.

Ele vai com as crianças,

a rirem-se das piadas do mais grande

e a tomar gelado, de baunilha, limão, morango, cada um tem seus gostos definidos. E ao verem-se livres, completos, saudam-se num grande abraço, um beijo na face. Oi, que saudades!

E ela num arrebato inesperado, com um sussurro ao ouvido, convida-o ao seu novo lar.

Mete a mão no bolso e dá-lhe um cartão pequenino, com letras douradas escrito. O seu nome com letras redondas e em baixo o novo endereço. Ele sorri e assente. Esta noite sem demora apareço.

O endereço novo é exatamente o mesmo de sempre, e ele percebe, mas nada diz, deixando-se a flutuar no prazer do convite.

Já à noitinha, crianças a cuidado da família, ele vai, sem pressa, até a casa de sempre, em bicicleta. Toca a campainha e uma porta abre-se. o aroma pode-se intuir a atravessar o espaço, dentro cheira a chocolate e a um jantar com espécias,

caril, cúrcuma, pimenta. 

Jantam na cozinha, pequenina, o jantar sem sal, o chocolate doce de mais, mas ele nada diz, veio para partilhar e para ele tudo está no seu lugar. Demoram-se na conversa da sobremesa, duas taças de vinho frizzante enchem-se três vezes.

Mas são tudo cerimónias alegres de quem procura o reencontro. Não precisam de palavras para se darem as mãos e de mãos dadas vão finalmente pro quarto, de sempre

e como sempre ele o encontra,

nada mudou, apenas ele é diferente.

Sente-se bem no seu novo corpo, na sua mudança, no seu novo poder. Afinal é agora ele quem domina  por fim as suas letras, dono do seu país, do seu território.

Brincam pela superfície do lago, demoram-se a navegar nas suas barcas, criam ondinhas de prazer que sobem a temperatura da água, são barquinhos de ferro vivo ao rubro que flutuam. Água que borbulha a 90 graus, escaldam-se à vontade, com frémito. Contentes de gozar na natureza há porém um ruído, uma distorção,

que se faz cada vez mais grande

nas suas cabeças.

E cada vez que mergulham juntos nas águas cálidas alguma coisa estranha acontece,

perdem o ar em seguida, não se lembram como nadar, assustam-se do mergulho,

suam temerosos

e voltam sempre cada um a seu lugar.

Não se abraçam na água, sentem frio, descem dos barcos e voltam à beira para se abraçar.

Gozam do encontro, mas sem falar nisso sabem que alguma coisa está a faltar.

Não se importam, é uma noite para celebrar, a alegria de se atrever, de retomar o que o coração lhes diz, de partilhar quem são, perfeitos nas suas imperfeições, alguém a quem amam plenamente apesar dos seus conflitos, misérias, lugares escuros e medos.

No dia a seguir, chove na rua um dia triste, os dois olham pela janela com uma chávena a fumegar.

Ele na calma de estar ao abrigo,

ela na tristeza de alguma coisa lhe faltar.

-Foi um erro ter-te convidado, olha, achei que iria fazer sol, mas agora chove fora e não podemos ir passear, desculpa-me. 

E ele:

-Amiga, eu gosto de estar contigo, com chuva, com sol ou com frio. Mas daqui visto da janela só dá vontade de se meter de novo entre os lençóis à procura de mais calor.

-A mim dá-me tristeza ver o dia estar triste, e dá-me vontade de te pedir ires-te embora, sinto mas é isso que sinto. 

E então ele não responde, com palavras, mas com imagens, olhos nos olhos, por fim se ligam e ele fala livre, sem palavras

em imagens e sons que ecoam na consciência:

-Abraço, calor, de que tens medo amor?

-Rechaço, desencontro, vai-te embora, choro

-Sol e estrelas, o meu peito suado.

As mãos tacteiam-te, as pontas dos dedos que se beijam.

-Milhares de mãos sujas que me manuseiam, de moco verde impregnadas, nojo, reclamo, exigências

-Uma energia que empurra mas outra que não devolve, deixe-se abraçar, lamber, amar. 

-Sinto nojo

-Reme também você, seja rainha do meu barco, comande o navio contra as pedras. Atire-o com violência contra elas, abrace a tripulação que saia a rir ou a chorar de prazer no naufrágio. Somos muitos num corpo só. Sinta a força excitante de comandar, ter o poder, dirigir, guiar. Ou leve-me à beira do abismo e, pendurado duma corda, faça-me sentir vertigens loucas. Mantenha-me aí pedindo cair ou voltar até a corda se quebrar.

- Isso é o que tu queres, eu não.

Amiga, escute, é você quem se bloqueia, tem um poder generoso, gigante, transformador que não quer usar. Eu sinto como ele está preso dentro de você, liberte-o e governe. Viaje aonde quiser e leve consigo da mão a quem consigo estiver.

-Solta-me! Vai-te embora!Fora!

-Eu não estou aqui, sou só palavras, uma consciência.

Quer ouvir, entrar no que lhe chateia?

-Não, deixa-me sítio! Não.

Espera, não sei... nada tenho a perder, talvez possa agora ouvir, que acontece?

-Que tudo muda quando a gente muda e a gente muda na mudança da mente.

Encontre as suas novas roupas e mostre-as. Caminhe para a frente orgulhosa, partilhando com quem ama o poder do seu corpo, da sua essência, do seu ser.

-Como? Não sei como se faz, qual o caminho...

-Ninguem sabe o dos outros, só não adianta olhar pra trás, nem virar a cara para não ver. Sinta, faça, escreva, não para si, mas para os outros, sonhe a vida imaginada, pinte rascunhos, quebre as folhas, pinte de novo e de novo outra vez!

- Não quero, me deixa, bora!

-Desculpe a ousadia, boa tarde amiga, vou-me, já saía...

Deitada no sofá, esgotada pela viagem, ouve o clique da porta fechando-se, o descer as escadas, o apanhar a bicicleta, o portão da rua pesado a bater forte ao fechar.

A transpirar, o cabelo colado à pele, fica dormida por horas.

Em sonhos sonha de novo e de novo sai o sol. Vê pessoas a andarem em bicicleta, canteiros cheios de flores, fontes a jorrar as suas águas, gorgulhando, crianças a jogar à bola ou de trotineta, risos, saúdos, vendedores de gelados, balões de hélio. Uma música de carrossel e é claro, um carrossel com crianças e miúdos grandes. A viajar nos seus cavalinhos, nos carros, patos, cisnes, pássaros, baleias.

Uma criança a chorar, um balão que fugiu da mão e se perde entre as nuvens. Uma mãe a consolá-la com um conto do país dos balões.

Sorri, ela também conhece a história..

Numa esquina da avenida vê uma loja de quadros dalguma pintora na moda. Umas mãos numa tela bem grande fazem lembrar qualquer coisa que não identifica. A tela chama a sua atenção. Aproxima-se.

As mãos nojentas pintadas em destaque na montra, um coração de ouro no céu a voar noutra, um abraço de duas águias além, muitas águias a planar livres ao sol, uma brincadeira de levar da mão alguém, com fita de cetim nos olhos 

de mão dada, sorrisos na cara, sedução, e muitos quadros femininos

tudo sensual poderoso, sentido.

Repara nas mãos odiadas, reconhece-as,

e ao redor delas subentende-se uma gaiola insinuada,

subtil,

translúcida

 quase transparente,

feminina, poderosa,

indestrutível

que as encerra.

Em baixo a legenda:

"Fecho-vos no meu quadro e eu me liberto."

E compreende, e chora, e ri e chora,

de alegria.

Acorda do sonho e ao acordar descobre num golpe seco na mente que tudo tinha sido mentira. Não passava dum sonho tudo que até ali sentira: não encontrou o amigo, não jantaram juntos, juntos não se deitaram nem falaram sem palavras. 

Esta-se a fazer noite, tem frio, levanta-se do sofá e ao ligar a luz maravilha! Encontra um cavalete, uma nova mesa, pinturas, pincéis de muitos tamanhos e uma tela enorme.

E no meio, colado com fita-cola um postal do seu amigo,

uma foto dele

a sorrir,

Mãos na bicicleta. "É a sua vez amiga, tem trabalho a fazer pela frente, desfrute dele como eu faço.

Fique à frente de mim

e mostre,

ao mundo,

a graça que flui dos seus olhos. Encontre-se,

comigo,

nas suas telas"

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