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contos d´oeste

Aprendiz & Caminhante

contos d´oeste

05
Set21

Presença

contosdoeste

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Acordo flutuando na minha barquinha feita poema e penso em quanta sorte, quanto amor recebo, e que pouco pode significar aquilo que ainda não encontrou o seu lugar para crescer se comparado com o resto que já tenho. Tempo ao tempo e desfrutar a cada passo. Uma Nara leão com voz melodiosa interpreta uma canção conhecida em que a letra aparece toda trocada de propósito para mim, para me agradar, público único e maravilhado duma música que inunda os meus ouvidos e viaja até ao coração como um fluxo de luz azul e branca carregada de eletricidade:

Noite de luz, festa de amor
E o cestinho a deslizar
No laguinho azul rodar
Fim do verão, o amor se fez
Na partilha dum lugar
Que nos ajuda a ficar
Sem intenções, os corações
Vão saindo deste mar....
E o sol
Beija o teu lençol azul....

A noitinha cai carregada duma abóbada limpa e cheia de estrelas e o barquinho, a barquinha, redonda como um cesto, avança gigante e devagar, em círculos, pelo lago seguindo uma órbita preestabelecida, uma corrente invisível que faz com que não fique nunca encalhada ou perto da terra firme.

Na superfície do lago, espelho d'água feito de cristal fluído, estrelas surgem a brilhar intensamente e o nascer duma lua amarela, gigante, marca um caminho de prata que ilumina o meu pequeno cesto se comparado com a imensidão do lago e me liga à terra.

Rãs ensaiam o seu coaxar perto dela num barulho ensurdecedor à procura dos melhores cantores, que serão os eleitos. O resto do universo em sinal de respeito mantém nesta hora o silêncio e eu fico a observar cabeça afora, olhando para baixo, pura ensonhação, as estrelas sobre as que navego. Olho o relógio no pulso e verifico nas horas que marca o símbolo deitado do infinito, em horas, infinito, em minutos, e 41 segundos.

É a hora certa. À minha direita uma imagem começa a ser formada, e eu, que sei exatamente aquilo que vai acontecer, viro o meu corpo devagar, deito-me mãos atrás da nuca e desfruto da sua entrada em cena, lá no alto, no meio das estrelas, cabelo escuro, olhos da cor da avelã, a sorrir meiga.

Vejo apenas a surgir metade da sua cara e sorrio com o como a língua, essa malandra que gosta de fazer cócegas no meu cérebro, brinca sempre connosco e cria novos sentidos plenos de significados.

Sei desde o minuto zero que é você e ao ver escintilar um brilho no seu olhar celeste vejo que já cá está, também comigo, a ver-me a mim, homem-novo a nu, renovado e pronto para receber você como merece depois de me ter banhado em águas tranquilas que você e eu amamos.

Olho ao relógio novamente: œ:œ:41 e sei que estou no comando e viajo numa paisagem onírica que obedece ao meu ditado. Uma coruja branca confirma ao passar por cima do lago, anuindo para mim que o sonho é todo meu e não, não há hoje perigos, medos ou vergonhas à espreita neste cenário.

Quer vir comigo? E uma boca feita de estrelas desenha um sorriso meigo e você anui também e ouço bem adentro na minha mente, num sussurro duma voz cheia de forças  que me abalam e derrete o meu pensamento, como se você estivesse atrás de mim deitada, ou ao meu lado, e pronunciasse com o seu halito fresco, húmido e cálido ao mesmo tempo por trás das minhas duas orelhas, em estéreo:

Quero

e os pelos todos do meu corpo sentem o calor húmido do teu bafo quente e adocicado alastrar pelo meu pescoço e o arrepio do desejo.

Vem, fica hoje, aqui, comigo, está noite, vem, fica aqui ao meu lado, vem sentar comigo, digo, há muito para ver. Sentemo-nos juntos hoje, lado a lado.

E um ser de luz, metade luz, energia azul e branca, metade corpo nu e excitante, onde destaca o seio, um mamilo e um sorriso malandro e confiante que empolga o meu desejo, entra caminhando em cena com nuvens de vapor lambendo os pés descalços e, numa passarela dos sonhos que a lua mantém para nos unir, caminha sobre as águas da terra firme até o meu cestinho. E eu à sua espera dou a mão para a ajudar na sua entrada ao meu navio. Bem-vinda a bordo minha amiga, e ao entrar no barco o seu corpo se materializa por inteiro e lado ao lado a sua mão no meu braço pousada, cabeça no ombro sentamo-nos bem juntos e assistimos ao despertar da magia.

Dois seres pequeninos no meio do cesto que flutua enquanto o lago por inteiro, numa luz branca que nasce do mais escuro e profundo do seu seio, aos poucos cresce em intensidade até brilhar como holofote mergulhado que nos cega por instantes e faz fechar os olhos. Brilha e atravessa as pálpebras, a pele os ossos e pó de estrelas ascende ao céu ao redor nossa por todo o lado num tempo eterno que nunca mais acaba.

E no meio de tanta luz, rodopiando devagar, mantém-se firme e calmo o nosso cestinho e nós com ele, abraçados, agora finalmente acordados no plano da magia e juntos novamente para mais um novo dia de viagem e partilha.

É de manhã, e o sol surpreso por alguém ter chegado ao pé do seu leito saúda, mão no chapéu, ainda sonolento e diz: tomem cuidado, não toquem na água até eu ter ido embora... mmm... vejam lá se não se queimam, diz, numa voz como água em cascata cristalina. E ascendendo aos ceus, a pôr apressado calças e camisola azuis de bombazina,  diz ainda, entre nuvens de vapor que ocultam o lago: até logo, podem ficar até quando quiserem, ehm... estejam descansados.....mmm... Sejam bem-vindos..ehm..por onde começarei hoje...ah sim, por ali, era por ali nesta estação.. nessa montanha...

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