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contos d´oeste

Aprendiz & Caminhante

contos d´oeste

11
Mar21

Reconhecimento

contosdoeste

Águia-real.jpg

Volta à praia de si próprio, dunas, vento do sul que traz o calor e as areias, gaivotas no céu, mar ao longe até onde a vista alcança. Não há barcos, pescadores, banhistas, ninguém.

Golfinhos saudam com os seus arcos, divertidos. Eles logo pressintem que alguém veio e tem coisas para contar. 

Sol a pino, mas não queima, só aquece e reverbera no seu peito, que também todo ele brilha. 

Cabelo ao vento leve, uma simples brisa, barba cuidada, torso nu, senta numa pedra, numa pedra com o tamanho certo, polida pelo tempo, que ele imagina para si e logo aparece. Sentado fecha os olhos e ouve. O som do mar que chama, e por baixo, lá dentro, os golfinhos a falar, sempre com brincadeiras a chamarem-no pelo seu nome, a falar dele, das suas intimidades, seus bisbilhoteiros!

Sempre vens brincar, surfista? Ou que pode ser mais importante do que vir com estes teus amigos? Sorri com cumplicidade, sem nada dizer e eles também riem com ele.

O coração do mar, hoje calmo como espelho-de-água,  a mostrar-se nas ondas pequeninas que rompem de mansinho, numa carícia suave, quase a pedir desculpa contra a areia, maré baixa, areal imenso, paz.

Vê-se a si próprio deitado na linha da maré, nariz e boca de fora, o corpo submerso, os sons do mar a entrar nítido aos ouvidos, a água a inundar as orelhas. Ouve as conchas, as areias da praia a arrastar com as águas, cristais-areias dum caleidoscópio na sua mente, contas de vidro minúsculas do relógio de areia a andar, para a frente, para atrás. Linha do tempo que se acalma, pausa.  Algas verdes que brincam com os dedos dos seus pés que flutuam, braços em cruz, e o tempo para. A eternidade. 

Uma perturbação, alguma coisa que vibra, alto, que ecoa noutras pedras das dunas, que atravessa o vento no areal, passa pelas poucas ervas e as agita. Alguém que sente medo, um rato, um lagarto, gaivotas a criar que se enervam com intrusos e chamam pelas crias. 

Não abre os olhos, apenas volta ao início, ali na pedra. É assim que melhor se percebe o que em verdade interessa. Um guincho agudo, penetrante, alguém que grita livre, dona de si, poderosa, liberta por fim. Mais gritos primitivos ao longe, saudações, reconhece uma voz presente, a sua companheira, reconhece-a sempre em qualquer lugar, com qualquer cara, em qualquer era. Que faz ali no alto? São águias livres, agora vê às claras, andam em círculo a saudarem-se entre elas. Vai ir numa viagem, procuram companheiros.

Não é boa ideia entrar na roda, sente-se, sabe-se uma rola apenas, tímida, pouca coisa frente às águias, mas verdadeira. Deixa as águias passarem, são muitas, ele não entra nesse sonho, apenas vê um piscar de olhos, uma saudação alegre, uma mostra de alegria, olha quem sou, maravilha-te comigo, connosco, contigo!

Vejo tanta luz, tanta potência, águia poderosa, o céu é teu voa alto, vai! Aqui fica sempre alguém à espera deliciado em ver como dominas o espaço, viajas como nunca, de olhos abertos, olhos que vasculham almas, que curam, que me amam, que eu amo num amor novinho em folha. Vens e vais, partes feliz e ficas, eu sei, também contente, se for para ser, na terra.  

Sozinho de novo, ouve cantar os pombos, os pardais, bandadas de andorinhão-preto a caçar mosquitos, a namorar, com os seu guinchinhos.

É.

Na praia também é primavera.

Mas como a rola,

como a rola ninguém canta.

Tem sede, lembra que há na praia um regato, e no regato contra as dunas uma fonte de águas limpas. Abre os olhos e caminha, avança entre rajadas de areias sem força que escrevem ondas nas dunas, no areal. Rabiscos que parecem letras. Que se aparecem como letras. Intui, imagina frases escritas esbatidas pelo ar, receitas dispersas às que faltam partes pequenas. Faz p rar o relógi, você saabe cooooommo. É temp d amar co s olhos abbertos. Deix s lvar você cnsegue. Não pens sinta avanc, corrrrra, viaaj, voooooooe. Silênc é só o silêncio onnnnnnnde está a verdad, ali s encontr, o nad é seu, o vác o, a entrega. 

Sede, caminha pelas frases deixando lá a sua pegada firme, chega à nascente, quem a achou tinha sede, e bebe.

Água fresca, revive, e o sol brilha mais baixo, cor-de-laranja, maior a gradação das cores, todo luminoso e belo ao seu redor, enquanto desce num entardecer alongado. O tempo não obedece a qualquer regra. Dentro dele água, sol, areia, vento e mar, o globo inteiro visto desde fora, a terra toda. Dois pardais a cantar, depois de molhar a garganta, pousam os dois numa palha e ali se balançam. Distraído de tudo contempla-os. Nesse momento uma presença amiga chega, lá está ela, entra na sua mente e lhe fala. Você também sabe voar, não tenha medo, olhe quem eu sou, sou sua amiga, voe alto amigo, queremos vê-lo, a si, brilhar. É tempo de vermos todos como você brilha a céu aberto.

Olhe sonhador para o mundo como se tudo fosse outra vez novo, possível, aberto, pleno. 

O seu olhar paira pela praia, pelas dunas, e para-se ao longe, no fim da praia. Umas pedras fecham o areal e por cima das pedras um prado irlandês ou do Cabo da Roca ou Fisterra (não interessa) um prado desses sempre com a relva cortada que não cresce mais, essa erva verde do atlântico banhada em sal. Cheio de pérolas brancas, camarinhas, lágrimas da rainha, e lá está ele a subir,  já foi veloz vai até o barranco, dedos dos pés de fora coração a bater forte, ar na cara, calma, respira. Uma falésia de altura, ao fundo o mar e nas rochas lá embaixo pequenas como formigas, as sereias: vem, vem ter connosco, atira-te, vem ouvir o mar nas rochas, o nosso canto, vem! 

Olha ao sol de frente e lá na sua direita um pequeno ponto se intui, minúsculo, no céu, pisca os olhos aguça o olhar, e não vê o que é, não consegue. Mas de repente sabe o que tem de fazer. Sorri, fecha os olhos e agora sim, tudo começa. 

Ele no alto da falésia, o vento a soprar entre os dedos dos pés, abre os braços e as sereias, enervadas, já perceberam. Lá do fundo gritam canções num som agudo irritante, ele move uma mão e a voz se congela. O som do mar que cresce bravo, salpica-o com nuvens de espuma mas ele não se mexe, espera.

Um lobo negro, sujo, enorme, assustador, de olhos vermelhos de sangue, fareja ao longe, viaja veloz. É a ele quem procura, quer encontrá-lo, sentiu a sua presença e sabe onde está, apressa-se agora que está deste lado para alcançá-lo. Mas ele não fica à espera, escolhe ignorá-lo e nem se interessa, constroi com a outra mão um muro de gelo, grosso e elevado, gigante, a fechar o prado ao seu redor. Um sorriso congelado visto do espaço, uma meia-lua perfeita, e ele, no centro, espera. O mar se acalma, abrem-se as águas e lá, dona de si, a sair da sua morada a brilhar como uma pérola, lá está ela, com um traje azul e branco de verão, pés descalços, como uma mulher grega, de braços abertos mãos próximas à frente ou a segurar alguma coisa. Não se percebe bem, sai luz das suas mãos, branca, ou talvez é vapor que brilha ao sol, dum café na mão a fumegar? É. O aroma árabe tudo impregna. Nada diz, olham-se, reconhecem-se através das eras, e a sorrir, esperam. Passa o tempo e um pequeno movimento muda a cena. Ela, apenas olha um instante, um só segundo para o céu e ele, curioso, também olha. O céu. Lá está o sol no alto e tem qualquer coisa, uma nódoa, um pequeno ponto negro, muito longe, mar adentro, à direita. Lembra o porque da viagem, a presença real do outro lado.

Agora é simples ver, reconhece-a a voar na sua grandeza. Águia real nunca teria imaginado, ou sim claro, também ela, e que bem lhe assenta a farda.

Sente asas a crescer por trás dos braços, o seu corpo enche-se de penas. Atira-se águia também ele e vai. O ar na cara, nos braços-asas, o olhar a tornar-se novo, é tudo novo, ouvido e vista até onde a imaginação alcança. Vê tudo, atravessa a pele e a alma dos seres vivos. Vê nas sombras que fazem as rochas pequenos animais que pressentem o seu poder a tremer de medo. Nada escapa agora ao seu olhar.

Até ao fundo do mar, vê minhocas, pulgas na areia... fecha os braços e atira-se a pico, passa por cima das rochas, das sereias, quebra-se o muro de gelo, o lobo rosna enervado, e o mar, o mar. A imensidão do mar à sua frente. O som do mar ecoa como nunca e chama por ele, é o mais intenso clamor que nunca tenha ouvido. E o mar, esse sim contente e calmo, a conter poderoso o seu rugido, recebe-o com uma salva de ondas a quebrar-se contra as rochas. E cá chegam os golfinhos a fazerem festas em arco como pano de fundo. Voa longe e ali no horizonte o respirar feliz, a saudar, duma baleia. É tudo tão belo enquanto se aproxima que fica emocionado, mas não se demora mais tem destino à vista, quer ir é ter com ela.

Pairam no céu numa roda mansa, a bater as asas, a rodar enquanto falam

-Oi.

-Oi.

-Nem sei o que dizer.... Gosto de ti.

-Gostava mais das tuas palavras quando ficavas no súbtil.

Calam.

Nem um nem o outro sabem o que fazer, qual o saúdo, como levar a conversa. Ele quer tomar as suas mãos, tocar as pontas dos dedos, ela não sustenta o olhar, que desce, olham os dois pro mar embaixo, como colegiais, aflitos ambos. Fica corado, atrapalha-se, nem sabe por onde começar. Aquele abraço? Diz numa voz pouco firme.

Ela anui, com dúvidas, a cara um pouco de lado.

E de repente sorri meiga, poderosa, dona de si. No olhar dela um relâmpago, uma luz, uma faísca de apenas um segundo, uma qualquer ideia viva, um olhar maroto, inteligente. E justo antes do abraço, vira o corpo, gira 180 graus, e como uma seta sai veloz da cena. Ouve-se ao longe, ou dentro, bem dentro, uma voz firme, feminina, divertida: A viagem está só a começar meu lindo amigo, vê se me alcanças! Mas olha as tuas forças, 

só agora é que começas a voar,

tem cautela

vê se não te cansas!....

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