Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

contos d´oeste

Aprendiz & Caminhante

contos d´oeste

04
Abr22

Rochedo - histórias de ida e volta#

contosdoeste

url(11).jpg

O mar.

O mar chama por mim de novo mostrando em espelho-d'água a paz das suas ondas eternas e o seu riso meigo. E eu com um sorriso gigante na cara e tristeza no olhar, observo.

Observo enquanto és tu quem se vai embora e parte, à procura do desconhecido, adentrando-se nua num mar distante.

No alto dum rochedo que conheço bem, sentado, eu, sozinho, observo.

Camarinhas, Lage, Cabo Vilão.

Outrora batiam durante a noite fortes tormentas e trovoadas borrifando de espuma branca por inteiro o promontório.

Hoje não, já não, hoje é um tempo novo no qual desconheço tudo, novo e silencioso onde a calma arrasta uma dor como o golfinho morto que varado no areal a nova maré trouxe e não acaba de decidir o que fazer com ele. Deixará na praia esse cadáver? Leva-lo-á de volta para ser aproveitado pela imensidão do mar?

Fisterra, um farol a penetrar na imensidão.

Nada se move, não há pássaros, nem cães, nem surfistas, nem peixes saltitando. É uma solidão absoluta dum tempo morto que não quer trazer trégua nenhuma. Será? 

Contudo, há sim outras presenças, e deuses doutro tempo assobiam nos ouvidos incautos ali, no alto do rochedo donde se intuem os seus risos malvados enquanto troçam a várias vozes das mais firmes convicções.  

Como se tivessem qualquer hipótese de me magoar nesta altura. Pobre da solidão que nada percebe de sonhos e utopias.

Um homem nunca está sozinho de todo.

Sentado no meu altar improvisado canções do paraíso pretendem em contrapartida agasalhar o meu corpo, dar aconchego ao coração e trazer à tona um futuro terrenal cheio de boas partilhas, melodias eternas de cantares redescobertos uma e outra vez ao redor dum jantar improvisado, bons petiscos em cantina amiga,  bom vinho gentil e generoso, cantores abraçados que brilham com luz própria na penumbra....

E, nesse cenário, lindas estrofes nascidas séculos atrás nos acompanhariam por horas a fio à mistura com novas letras desta língua renovada. E na lareira um lume manso estaria já a crepitar por toda a eternidade. Ai, se você quisesse!...

Eu quero ir, para o altinho que daqui não vejo bem, quero ir.....

Dono do meu presente, sei qual é hoje o nome que melhor me assentaria em tudo que fiz até ao momento, Luigi, Gigi, Girolamo, menino-Rei do nada perdido num presente insólito.

Ao passar a ribeirinha pus o pé, molhei a meia, pus o pé....

Rei destronado do reino farturento do Futuro onde tudo era sempre possível; Gigi o contador de histórias solitário, construtor de sonhos impossíveis a inventar o mundo uma e outra vez, e sempre novo e diferente, com belos truques de magia inesperados, fogos de artifício de mil cores, tudo que fosse preciso para agradar a criança por quem ele estava apaixonado por completo. Você. Você...

Eu quero ir, minha gente, Eu não sou daqui....

Gigi apaixonado por você, você, tu, que sempre tinhas uma outra missão mais premente do que nenhuma outra. E afinal tinhas, não tinhas? Pois ainda tens, não tens? Ver-se-á.

Espero bem que sim e o que eu poderia ou hei de dizer além de: tudo de bom para ti e apita se precisares de ajuda, pois cá estamos como sempre, eu é que não tenho intenção de ir a nenhum outro lugar mais do que àquele ao qual pertenço. Sim, eu estou com os pés bem firmes no chão plantados. Só desta maneira é que se pode voar sem medo às alturas.

Sabe-se lá o que é que poderia haver mais importante na vida do que amar e ser-se amado.... você é que sabe, e eu é que nada sei do que em tempos soube. Ou talvez sim, talvez sempre soube que não sabia. Eu... Talvez não queria saber, sabe?

Penso por um momento nesses sentimentos que num frenesim doentio me perseguem sobrevoando a cena e o meu corpo, rodopiando à minha volta, minúsculos seres.... seres  procurando uma falha nas defesas com as suas trajetórias de voo em forma de ovo, com as suas agudas vozes querendo entrar peito adentro e me roubar o ar e a minha alma. Não podem não. É preciso coração aonde se dirigir e alguém que queira impedi-los de entrar. Pelo contrário eu deixo atravessar corpo e defesas pois sei que nada encontram senão o espaço vácuo, escudo de metal e pedra dura, rocha inexpugnável. Hoje não, hoje vocês nada podem fazer.

É preciso coragem para arrancar o coração a duas mãos, olhar bem de frente o seu latejo e falar assim:

Desculpe meu amigo, mas não é boa ideia agora estarmos juntos. Eu... vou-te proteger, mas não aqui, senão num cofre a sete chaves bem longe, numa rocha humilde e inesperada, num lugar do futuro, espigão longínquo à frente do mar desafiante. Fonforron, Felgueiras, Cabedelo, ai o mar! 

Guardado numa cova qualquer ou neste meu rochedo, num espaço secreto doutra era, num nicho bem quentinho a prova de marés e furacões você estará a salvo, pois manter-nos-emos em planos diferentes da existência. Este é o meu poema sortilégio. Assim eu protejo você e ficarei, assim, tranquilo e calmo.

Observo.  E vejo cenas sobrepor-se, imagens doutros tempos, dum futuro inexistente. Enxergo mãos apaixonadas que se entrelaçam num passeio ao pé do mar. Razo, Caiom, Fisterra Riazor... quanta vida, quanto mar....

Quanta história comum partilhada que parecia eterna, agora submersa como livro de memórias mergulhando as ultimas folhas e fotografias velhas num mar de tons oleosos que cintilam ao pôr-do-sol do fim desta jornada.

O Mar.

O mar. Uma mulher de passo firme escolhe decidida entrar nele sem trocar de roupa, ousada, rebelde, dona de si própria e o seu destino, e cá vêm os adeuses que finalmente chegaram para se tornar realidades.....

E atrás deles um homem ao desespero: Espera por mim! Espero eu por ti, queres?! Leva-me contigo! Fica aqui comigo.... só mais um pouco!...

Palavras ocultarão palavras e a raiva gritante da mudança que as marés vivas trazem e que encherão tudo de vermelho sangue, novas constelaçoes a surgir violentamente no firmamento e o cheiro a ferro que negará o último abraço.

O homem de lata sabe bem do que eu falo.

Cá do alto observo tudo e todos e vejo o quanta sorte eu tenho de ser quem eu sou. De estar onde estou. Agora sei finalmente o meu verdadeiro nome e o sol vem já na minha ajuda derreter a face de cera dum Gigi solitário.

Manuel meu Manuelinho, Manuel feito de cera....

Canções que aumentam em intensidade e olhos que choram mas mantêm o sorriso perante as crianças, pois unicamente choram porque tiveram de cortar cebola e mais cebola para aprontar o almoço, é só isso, sim, apenas isso e mais nada. É.

Cebolas-das-gaivotas florescem no areal num segundo, chamando a atenção de quem sabe ler na palma das mãos abertas. Flores-de-uma hora que derretem e ardem também perante um sol impiedoso e abrasador. Roupas ardem igualmente deixando a nu o rei, dono e senhor por inteiro do seu firme rochedo a beira-mar plantado. Marés vivas batem contra as pedras onde sol e a lua se alinharam para tecer o seu destino.

Eu conheci Man, sim, o alemão, o homem-solitário de Camelhe a morar num pedregal a beira-mar deitado.

Tal como ele recupero agora eu o meu verdadeiro nome que não pronunciarei. Não aqui, não agora. 

Não. Não minhas amigas....não, não sou eu esse homem suplicante que vi no areal. 

2 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub