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contos d´oeste

Aprendiz & Caminhante

contos d´oeste

11
Jun21

Sol

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É de manhã.

É de manhã e por trás das montanhas já se intui a sua chegada. A sua entrada em cena é inevitável e ele sabe disso. A água, as rochas, o areal está tudo pronto à sua espera, mas ele demora-se ainda a acordar para a vida.

A espreguiçar o sono, estica braços e pernas, o corpo todo até ao pescoço como um felino gigante, nu e poderoso, e pequenos feixes perpassam entre as copas dos pinheiros, que aqui e acolá deixam entrever as faíscas de luz que crescem em intensidade.

É de manhã e o sol é qualquer coisa ainda fria e distante, uma promessa adiada que se demora. Gaivotas pairam já nesta hora à procura de alimento e veem passar os primeiros barcos para a pesca. O barulho dos motores invade alegre o silêncio absoluto do areal enquanto o seu rastro de linhas brancas se inscreve sobre o azul escuro do mar.

Elas não se apressam a persegui-los agora, vazios e velozes, marinheiros com a cara lavada a comandar e barcos de cores ainda apagadas. Sem o tímido sol nada brilha no convês. Não têm pressa, sabem que os barcos voltarão ao fim da tarde, prenhes, carregados, marinheiros sujos e esgotados a transpirar, cigarros na boca, troncos nus baixo o impermeável, a navegar devagar para não movimentar a carga enquanto conversam seguros de si próprios e do ganho.

O sol vermelho e gigante irá esquentar a popa e sardinhas frescas tentarão ainda mover a cauda brilhante a reflectir o pôr-do-sol. Aí sim os seus gritos inundarão o ar excitadas a celebrar as capturas e a perseguição. 

Lá de cima ele enxerga, curioso, a passagem do tempo,  as vidas humanas e tudo que aconteceu nos corações enquanto ele dormia.

A luz cresce e finalmente o mar saúda alegre os seus beijos distraídos de bom dia. Os dias são tão longos nesta altura que não há noite que chegue e às primeiras horas ele demora-se, como homem a fazer a barba e lavar a cara uma vez, duas, três, ensonado. O mar, ele não, acorda sempre cedo, dorme pouco, e já brinca, saltita na areia e atira com as mãos molhadas pingas d-água à cara: hoje nunca acordas, pois não? O sol sorri sentindo um arrepio,  tá bem, tá bem, já lá vamos...

Flores entre as dunas abrem as suas pétalas para o receberem e pequenas gotas de orvalho ficam penduradas a baloiçar brilhantes num equilíbrio que dura minutos eternos antes de caírem ao chão. Numa delas um pequenino besouro verde-esmeralda tapa os olhos com as suas patinhas, cegado pela luz inesperada.

Compassivo, o sol sacode devagarinho a flor e bate no caule com um dedo como quem tira a cinza dum cigarro e com a palma da outra aberta leva o besouro à sombra deixando-o escorregar da mão com mimo. Os dias são longos que bastem para vir acordar os outros tão cedo.

Mas o mar não concorda com tais demoras e já anda a cirandar alegre de aqui para ali. Quer gozar do dia por inteiro e, já aprontado, veste-se de cores estonteantes que flutuam sobre o tecido sedoso com brilhos e rendas estreladas impossíveis de descrever, verdes, brancos, amarelo nos bordos, azuis-turquesa: a variação toda entre o verde intenso do besouro e o azul da noite cheia de estrelas rodopia no vestido. O mar, A mor, mar, Amar, a água, é tudo que nós somos.

Água salgada.

Água salgada que sai de dentro de nós, quando choramos, quando nascemos e damos o grito primeiro, quando aprendemos a aceitar a dor, a sonhar a vida, quando a aceitar, também, o prazer. Água salgada e água na boca que outros nos deixam como uma canção.

A água que muito logo se vestiu de cetim brilhante, agora mãos no lobo direito a colocar uns brincos, que pede para fechar um colar que não consegue, subir um fecho a que não chega, porque, é sabido, em realidade não quer.

E o sol aproxima-se, sorri com a meiguice conhecida, mil vezes repetida em tantos lugares, enquanto ajuda, atrás dela no espelho, e se maravilha como se fosse sempre a vez primeira, pescoço d-água, ombros à vista. Magia.

E já sai sozinha ela, poderosa. Parte convencida de que ele irá no encalço e avança sem olhar atrás, molhando com passo firme o areal, gozo de linhas curvas que deixa na praia o seu andar. O sol fascinado novamente como mil e uma vezes que esqueceu, fica quieto como um bobo de olhos, boca,  braços , mãos abertas, todo ele aberto, peito a brilhar nu.

Despacha-te, anda, que a vida está à espera!    

(+Continua)

 

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