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contos d´oeste

Aprendiz & Caminhante

contos d´oeste

26
Fev21

Surfista

contosdoeste

 

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De manhã cedinho,

pés descalços no seu quarto.

Fecha os olhos e respira,

uma, duas, cinco vezes cinco

em pé, torso nu,

mãos ao pescoço cruzadas.

Sente o coração a bater nos polegares, 

uma, duas, cinco vezes cinco.

Desce pelos ombros e abraça o próprio corpo

 até ouvir um estalo,

mãos nas omoplatas, cabeça a pousar num braço.

Bum, bum bum,bum

bum,bum

lateja.

Abraça os quadris, barriga que vibra 

bum,bum, respira

uma, duas, cinco vezes cinco.

Mãos a construir um trapézio,

no centro o embigo.

Inspira e absorve,

expira e envia

um cordão transparente que cresce

um chorro de luz silencioso,

particulas a brilhar à lua. 

Cristais que brilham elevando-se num feixe imaginado.

Cabelo comprido que se move com o ar que se alevanta, 

mãos que seguem a luz

extendem-se,

para a frente

para acima

 erguem-se,

braços que se esticam

                                        e

 devagar

                                      balançam

len

ta 

men

te

E atrás deles o torso, a cintura

como as pontas dum canavial em calma,

como um sussurro de brisa no verão,

dedos abertos,

braços que se movem ao sabor da maré mansa

à direita e à esquerda

                                           à direita

e à esquerda

fffuuu, ffffuuu,

do ar ao mar é só uma letra

bumbum

fffuuu, ffffuuu  de novo

O mar que chega

fffuuu, ffffuuu,

bumbum.

Maré mansa

areia molhada nos pés

vai e vem água fria que a arrasta.

Enterrado o tornozelo, firma o pé no chão

e depois

               _____________

            |         o nada.         |

               --------------------

Vai-se o mar, vêem as dunas, asinha os pássaros, as sementes

cria-se o manto, passam raposos, ladrões de ovos.

Atrás chega um lobo tresmalhado, com sede, com fome,

a trotar pelo areal distante.

Bebe água do mar logo, inconsciente e fica com mais sede. Encontra um ninho, câgados recém-nascidos, que sortudo meu amigo. 

Acampamentos nas dunas, gentes alegres a nadar à noite, churrascos, peixe frito, risos, praia virgem, fogueiras, amores, rumores, gemidos.

Um pinhal cresce entretanto, o mar retrai-se. Logo é já, tudo e apenas, um recordo salgado no fundo da terra.

Carvalhos, Faias, Nogueiras, passam-se as eras.

Estrelas, nebulosa de Órion, as perseidas, o cuco na primavera, sons estivais que chegam:

Grilos, pirilampos, uma coruja a planar, uma sombra.

Ruído, ratinhos a fugirem assustados, esquios que se agacham, 

nada lhe escapa. 

Depois da caça pousa no seu ombro direito,

agora é nó de árvore madura, casca rija, garras que se fincam

Cabeça branca, um fantasma,

bico amarelo, cauda do ratinho ainda fora.

Olhos gigantes na noite,

arauto da eternidade

uuuhu uuhu, uuuhu uuhu,

a parceira chama e ela em total silêncio levanta o voo.

Árvore que abre os olhos com a marca das garras. Olha para baixo, pé de árvore que ainda intui quem era, olha para cima e estrelas distantes se espelham na retina. 

Via Lactea, Órion, olhos que se lançam

na viagem, incorpóreos.

Precisa dum corpo, sabe disso

ninguem suporta só ser unicamente olhos. 

no frio da nada, um corpo se forma, metálico, prateado, 

nu,

numa prancha de surf,

reconhece-se a surfar.

É

A singularidade,

Na imensidão. 

Melhor, muito melhor, assim

 viaja com o ar a bater na sua testa,

Estrelas que passam a grande velocidade

Letra c

299 792 458 

no seu peito, a rodopiar nos tornozelos a não-brisa

o ar frio

do vácuo primogénito. 

Chega ao centro,

Lá está Ele, Ela, Elú,

a Unidade, fragmentação eterna

É tudo simples afinal,

nunca houve escolha verdadeira

hélio ou hidrogénio?

Qual a diferença?

Ser eterno na presença.

Massa de olhos, corpos, guerras, lagos em paz, abraços,

calor da amizade, riso quente

Homem-mulher-deusa, Tudo

Ouve-se num trovão uma voz feminina: Já queres vir miúdo?

Não, quero apanhar mais uma onda,

ficam mais vagas, mais marés,

ainda não é hoje que me apanhas..

um riso ensurdecedor a trovejar.... hahaha...

apenas porque não me interessa,

quero ver que fazes com o tempo que te resta, 

continua a entreteres-te, entreter-me, entre-ter-te, entre-ter-me,

teres-me dentro de ti,

pertences-me, sabes disso

viaja surfista, aonde quiseres,

não há aonde escapar.

Todos virão a mim e você não será diferente.

O meu tempo é meu

e nisso não tens nenhum poder.

Hoje eu ganho e tu perdes de novo. Volto ao meu lugar corriqueiro, pacífico sereno.

Lá não tens lugar, fecho-te aqui para sempre

Sou livre e tenho tempo.

Eu ganho e tu perdes.

Entrelinhas atrapo-te de novo

e navego,

pescador da barca bela,

por marés conhecidos

Eu não fujo,

apenas viajo calmo

até ao abrigo.

Abre os olhos, ó pescador

dá dois passos à frente,

quebra o feitiço

e de novo

vence.

 

É já muita hora de ir trabalhar

 

 

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